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O Capitólio brasileiro ainda não acabou – como evitar que o pior aconteça?

A extrema-direita brasileira não existiria como existe hoje se não fossem as mídias paralelas. E ali que as autoridades devem agir

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O Capitólio brasileiro finalmente aconteceu. Embora muitos, eu inclusive, tenham alertado para essa possibilidade, prever exatamente quando e como o evento aconteceria não era tão simples. A extrema-direita bolsonarista não trabalha com planejamento num sentido convencional, mas numa linha tênue e tensa entre moderação e extremismo, brincadeira e vias de fato, metáfora e metonímia.

No último domingo, ao que tudo indica, foram criadas as condições para que a virada terrorista se tornasse inevitável.

Mas como isso aconteceu exatamente? Numa live de quatro horas transmitida na tarde do dia 8 de janeiro (e já removida do YouTube), um influencer bolsonarista gravou todo o percurso dos manifestantes. Desde a concentração no acampamento em frente ao “QG” do comando militar em Brasília, acompanhando a marcha de seis quilômetros até a Esplanada e, finalmente, a invasão do Congresso Nacional. Ali, percebe-se como a mudança do registro meta-comunicativo – da metáfora da guerra para a ação violenta de fato – ocorre de forma relativamente repentina. 

No início do vídeo, o influencer e demais patriotas falavam da “energia boa” no acampamento, onde todos se tratavam como irmãos, compartilhavam comida gratuita, e se entretinham com uma serie de rituais. Caminhando para o final do vídeo, essa energia foi sendo canalizada para o que todos viam, de modo similar ao Capitólio estadunidense, como a tomada de posse da Casa do Povo pelo próprio povo.

Se a situação deteriorar para um risco real de ruptura, é sobre as mídias paralelas que as autoridades têm dever de agir preventivamente

Quando houve a invasão de fato, boa parte das ordens dadas nessas correntes encorajavam os bolsonaristas a acampar dentro dos prédios ‘até a vontade do povo ser atendida’ – já antecipando, inclusive, a atribuição de qualquer quebra-quebra a supostos infiltrados da esquerda.

Muitos memes circulados mais cedo, contudo, já propunham a mudança de um registro da “festa” para a “guerra”. 

  

O fato de a invasão aos Três Poderes ter desembocado rapidamente em destruição completa é a expressão espontânea e trágica da verdadeira natureza do bolsonarismo. Trata-se de uma força destrutiva do Estado democrático de direito, onde o equilíbrio institucional e o pluralismo são englobados pela “liberdade” da vontade soberana de um grupo que se arroga o direito de falar como o único e autêntico representante do povo brasileiro.

O Capitólio brasileiro não acabou. Pois o que aconteceu no plano “micro” em Brasília no último domingo ainda pode vir a acontecer no plano “macro”, no país como um todo.

É como se a guerra civil já tivesse começado, mas ainda estivesse sendo contida pela ordem institucional.

Nos últimos meses, porém, o Brasil tem dado diversos sinais desse esfacelamento institucional.

As ilegalidades impunemente cometidas pelo governo e por bolsonaristas durante o segundo turno, o incêndio de veículos em Brasília e, agora, a destruição dos prédios dos Três Poderes deixaram claro que a cadeia de comando das forças de segurança já não está operando como deveria.

Polícias, militares, políticos e até o Judiciário foram infestados pelo bolsonarismo. É preciso perceber os sinais da mudança de registro da institucionalidade para a insubordinação antes dela acontecer. 

Mas se é a própria base da institucionalidade – em termos weberianos, o monopólio do uso legítimo da força pelo Estado – que se encontra fragilizada, onde e como operadores do Direito e da política poderiam prevenir uma ruptura irreversível? Há, hoje, um campo crucial às forças extremistas que não depende das forças da ordem: a infraestrutura de comunicação.

A extrema-direita brasileira não existiria como existe hoje se não fossem as mídias paralelas. Se a situação deteriorar para um risco real de ruptura, é ali que as autoridades democráticas devem de agir – antes que isso aconteça.

É claro que o bolsonarismo já tem um plano B – na verdade, vários – caso algum tipo de bloqueio das suas vias de comunicação venha a ocorrer. Os líderes extremistas irão apelar para aplicativos alternativos e VPNs, mas dificilmente serão seguidos pela massa – boa parte da capilaridade do WhatsApp, por exemplo, vem da disponibilidade de pacotes de dados grátis.

A população como um todo seria, sem dúvida, prejudicada. Mas é um preço baixo a pagar pela iminência de um estado de exceção generalizado, que permanece sendo discutido e planejado nos grupos bolsonaristas. Uma vez que o sistema sócio-político muda de vez o registro da política para a guerra, é impossível botar a pasta de dente de volta no tubo.

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