Carta aberta à excelentíssima ministra Tereza Cristina

Não recomendo foco em aprovar agrotóxicos proibidos no resto do mundo

A ministra Tereza Cristina Foto: Agência Brasil)

A ministra Tereza Cristina Foto: Agência Brasil)

Opinião

Excelentíssima ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Dona Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, longo nome para quem se pretende apenas Tereza Cristina, a “Musa do Veneno”, como vejo muitos a tratarem nas folhas, telas e redes sociais cotidianas.

Para isso, justificam sua militância política como ex-deputada federal pelo execrável partido DEM/MS, lobista dos fabricantes de agrotóxicos, e indicada à família Bolsonaro por ruralistas sem noção do que fazem com o meio ambiente e a biodiversidade do país, apenas imaginando interesses imediatos e, hoje em dia, por ironia, cada vez mais frustrados em seus anseios.

Agrônoma por Viçosa (MG), não concordo nem com um termo nem com o outro. No primeiro, as fotos não atestam atributo de musa; no segundo, reconheço necessidade equilibrada no uso de certos produtos classificados como agrotóxicos, ou venenos, por ambientalistas mais radicais.

Nem sempre o são. Sim, em agricultura de clima subtropical a incidência de pragas e doenças é maior. Mas o uso indiscriminado para alavancar vendas não pode ser feito a qualquer nota, como a senhora abre as portas do ministério para registros. Muitos entendem isso como crime.

Torço para que o seu “liberou geral” se deva mais aos parcos recursos humanos e financeiros a que está condicionado o ministério e menos às suas atuações na Frente Parlamentar da Agropecuária. Digamos que apenas pensou aliviar a carga de seus funcionários. Assim, agentes e fiscais terão facilitados os serviços, em favor de alguns segmentos da produção e distribuição de insumos. Espero que tenham agradecido pelo alívio.

Mas, calma, não se amofine. Nunca foi diferente. Tais segmentos sempre foram privilegiados no MAPA.

Nesta missiva quero alertá-la para uma tendência atual na agricultura moderna. Como agrônoma creio repetir aquilo que a senhora já sabe. Desculpe-me pela imprudência, mas há inúmeros produtos de extração natural e orgânica, como condicionadores de solo à base de turfa, ácidos húmicos e fúlvicos, extratos vegetais de algas marinhas, fertilizantes foliares organominerais, biofertilizantes, controles biológicos, e outros a que a senhora deveria dar a mesma atenção que dá aos, como dizem os ambientalistas, venenos. Qué isso ministra? Síndrome de Cleópatra. Tento apenas protegê-la. Se achar a tarefa muito complicada peço que leia, ou mande seus vigilantes lerem o livro “Manual de Estimulantes Vegetais”, coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Roberto de Camargo e Castro, da Esalq, et al. (Editora Ceres, 2017)

Não recomendo foco em aprovar agrotóxicos proibidos no resto do mundo. Atesta isso o número recorde de registros que a senhora fez acontecer em três meses, mesmo antes da aprovação do PL 6299/2002, conhecido como Pacote do Veneno, que pretende desregular a liberação de agrotóxicos no país.

No momento, todas as exigências burocráticas estão fortemente voltadas a tecnologias naturais e orgânicas, o que mostra incompetência ou banditismo em seu ministério.

Aprovado em 2018, em comissão especial liderada pela senhora, o projeto de lei acima mencionado aguarda votação em plenário. Prevê, por exemplo, que as análises para novos produtos e autorização de registros fiquem sob responsabilidade apenas do MAPA, que atualmente divide essa função com a Anvisa e o Ibama.

Pior, seriam criados também autorizações temporárias para produtos já registrados em outros países. Além disso, produtos com “risco aceitável” passariam a ser permitidos. Apenas produtos com “risco inaceitáveis” poderão ser barrados. Que merda é essa? O que é aceitável ou não? Quem o dirá?

“O PL do Veneno é um retrocesso muito grande na nossa Lei de Agrotóxicos de 1989, que mereceria, sim, ser modernizada. Mas a modernização deveria vir no sentido de, por exemplo, proibir agrotóxicos proibidos em outros países, proibir a pulverização aérea, que é proibida na União Europeia desde 2009 e o incentivo fiscal aos agrotóxicos”, resumo manifesto de importantes cientistas.

Segundo a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, “os agrotóxicos no Brasil já representam hoje um grave problema de saúde pública, e a inserção no mercado de mais produtos agravará ainda mais os perigos aos quais a população está submetida.”

Ministra, sei que fará um tour por vários países para dizer que o Brasil é bonzinho. Então, aproveite para repensar o assunto. Desse jeito, musa não será mesmo. Passou da época. Muito menos, “Menina Veneno”, na versão do cantor Ritchie. “Menina veneno/O mundo é pequeno/Demais pra nós dois.”

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

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