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Bloqueio ideológico é uma das causas da desinformação sobre a China

Mundo,Opinião

Apesar de a China disputar o posto de primeira potência mundial com os Estados Unidos nas áreas econômica e tecnológica, a julgar pelas análises predominantes no Brasil e no resto do Ocidente aquele país ainda está longe de se consolidar e só se mantém porque tem um regime político autoritário. Em outras palavras, a certeza quanto ao artificialismo e a fragilidade do sistema político e econômico chinês é tão inabalável por aqui que tudo se passa como se nada mais restasse ao Ocidente que aguardar a sua autodissolução espontânea por absoluta inviabilidade.

Com tamanha simplificação é impossível explicar, por exemplo, como os chineses conseguiram conceber, financiar e executar o plano internacional Nova Rota da Seda, lançado há cinco anos por Pequim com investimentos de 1 trilhão de dólares em infraestrutura e transporte em 70 países da Ásia, de parte da Europa e da África. Só no ano passado, o projeto movimentou 1,3 trilhão em trocas comerciais, em pleno contexto global de guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos e que tem como alvo o país oriental. Àqueles que imediatamente sugerirão tratar-se de números inconfiáveis provenientes das estatísticas chinesas, sugere-se consultar os inúmeros levantamentos e estudos periódicos elaborados pelas maiores empresas de consultoria e grandes bancos a respeito do Nova Rota da Seda, acessíveis por meio de qualquer ferramenta de busca na internet e que contêm abundantes informações econômicas sobre o assunto.

Parte da visão esquemática e anacrônica que dificulta o conhecimento da realidade extremamente dinâmica daquele país deve-se à escassez e à má qualidade da informação disponível nos meios de comunicação ocidentais, mas uma parcela do desconhecimento pode ser atribuída a uma espécie de bloqueio cognitivo de origem ideológica que foi decifrado pelo economista Dani Rodrik nesta passagem de artigo publicado pelo Project Syndicate: “Para muitos no Ocidente, a China é uma demonstração das vantagens de recorrer aos mercados e da liberalização econômica. Mas se a China fosse atualmente um tremendo fiasco econômico, suspeito que as mesmas vozes se apressariam em atribuir o fracasso à persistente ingerência do Estado chinês”, analisa Rodrik. Com essa postura marcadamente ideológica, analistas e economistas abrem mão da investigação e do conhecimento e contentam-se com a aplicação de rótulos, comprova também a seguinte constatação: há mais de três décadas aquele país cresce a taxas anuais superiores a 6%, mas a maior parte das informações disponíveis na mídia ocidental alerta o tempo todo para a crise iminente da economia chinesa devido a algum colapso, seja do sistema financeiro, do setor externo, da economia doméstica, da sustentação política do governo ou de outro tipo.

“Seguramente há questões cognitivas que dificultam a análise por parte de todo pesquisador”, afirma Bruno De Conti, professor do Instituto de Economia da Unicamp e Pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da mesma universidade.  “Quando a gente começa a estudar a China é que vê o emaranhado em que se meteu. O país tem uma história super antiga e desenvolve há décadas uma experiência econômica totalmente inédita e até por isso difícil de definir. Claro que cada país tem as suas particularidades, mas no caso da China isso é elevado ao cubo.”

Há intensas discussões na academia sobre como categorizar aquela experiência, prossegue De Conti, se é socialismo de mercado, se já é capitalismo, ou se caminha para o capitalismo. O governo chinês se autoproclama como socialismo com características chinesas. Até a definição de qual deve ser o ponto de partida das análises não é simples. “Grande parte dos economistas estuda a China atual a partir de 1978-1979, período de início do processo de reformas lideradas por Deng Xiaoping, pois fica no imaginário de muitos que o país começou a dar certo justamente quando começou a ser abrir para o Ocidente, o que não é totalmente verdadeiro. E aí não estou falando sozinho, há muitos autores que concordam que o sucesso econômico chinês vem desde antes.”

O período maoísta, prossegue De Conti, tem tragédias muito grandes “mas do ponto de vista das bases econômicas e institucionais para aquilo que viria a ser o milagre chinês, foi muito importante. O orçamento público, por exemplo, era pífio no governo do Kuomintang, da ordem de 3% do PIB e quando Mao Tsé-Tung entregou o governo a Deng Xiaoping, já era 20% do PIB. A expectativa de vida era de 35 anos no período anterior a 1949 e em 1978 já era superior a 60 anos. Ao estudar a China não se pode esquecer que esse país vem de uma construção socialista mesmo, com Estado socialista, forte, com todos os problemas que isso implica mas com todas as facilidades também”, chama atenção o economista da Unicamp.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Editor da revista CartaCapital

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