“Bem-vindos” ao inferno – ou ao Brasil sufocado pela fumaça

Com efeito, nestas latitudes, não se protege, promove ou provê a vida: mata-se e comemora-se

Foto: Victor MORIYAMA / GREENPEACE / AFP

Foto: Victor MORIYAMA / GREENPEACE / AFP

Opinião

No dia 19 do corrente mês, eu viajava de carro de São Paulo para Curitiba, com minha mãe e a cuidadora dela, Joana. Frio e chuva leve.

Vejo que ao Sul estava limpo e pensei: estamos sob o sistema de chuvas da Amazônia. Não sou entendido em meteorologia. Ao contrário, fiquei de recuperação na matéria, quando tirei o brevet de piloto privado, há exatos 40 anos.

Então, minha mãe perguntou: “Que horas são?”. Olhei no relógio do painel e disse 3 horas (da tarde). Fiquei surpreso, porque pensei que fosse mais tarde. Então ela disse: “Três horas e tão escuro?”. Ela tem 88 anos e visivelmente jamais tinha visto algo igual.

Relato essa experiência porque presenciamos o crepúsculo das queimadas, não nos sendo possível aceitar que não houve ou que pudesse ser confundido com mera e corriqueira inversão térmica.

Diga-se de passagem que os franceses desenvolveram métodos participativos de aferição climatológica que valorizam também o depoimento de pessoas mais idosas, medições escolares e até de presidiários.

Por aqui, tristes trópicos, parafraseando o título da obra do antropólogo francês Claude Levi-Strauss.

Com efeito, nestas latitudes, não se protege, promove ou provê a vida: mata-se e comemora-se.

Utilizando ainda a técnica francesa do depoimento, relato viagem que fizemos com o Instituto Rio Branco, em navio da Marinha, de Manaus a Belém, em 1983.

Viajamos pelo Rio Amazonas, por cinco dias. Durante todo o tempo havia uma névoa, que não combinava com o clima.

Eu tinha o hábito de correr e o navio tinha um heliporto, pois prestava assistência médico-odontológica aos ribeirinhos. Eu aproveitava para correr no heliporto. Um dia estávamos correndo eu e o piloto do helicóptero. Puxei conversa e perguntei sobre aquela névoa. Ele sorriu, piscou e disse: “É fumaça”.

Para mim, fica claro que só a democracia salvará a floresta, pois dessa forma foi preservada pelos indígenas.

Entretanto, alguns acreditam na própria mentira: assim como uma certa rede de televisão, de tanto enganarem, acabam se enganando.

Pensaram aqueles que poderiam reescrever a história e adotar a autocracia do século XVIII nos dias atuais, acreditando que o “erro” da abertura da ditadura militar poderia ser “corrigido”.

Os toscos compraram a versão da extrema-direita de que teria sido possível prolongar o suplício da ditadura “ad nauseam“.

Ledo engano.

 

A abertura só aconteceu graças à imensa e sofrida luta do povo brasileiro, apoiado por inúmeros parceiros internacionais (muitos dos quais menosprezamos quando no governo, mais isso já é outra história).

A república de Curitiba confundiu periferia e centro: achou que ao entregar todo o patrimônio nacional – cérebros, petróleo, indústrias naval, aeronáutica e civil, entre outras riquezas – iria ter uma relação de compadrismo com o centro (faz parte da nossa cultura, à esquerda, também). Pobre gente.

Acharam que suas manipulações toscas; novelas carregadas de ideologia; telejornais à la Goebbels iriam ofuscar os olhos do mundo para as práticas criminosas que lhes permitiram colocar um inocente na prisão e elevar criminosos aos altos cargos.

Inebriaram-se com o próprio veneno manipulador.

A um tal ponto que o G7 discute – em regime de emergência – como parar o flagelo da destruição da Amazônia, sem sequer ouvir o Brasil.

Com efeito, o Presidente da França chamou Bolsonaro de mentiroso, o que em termos de linguagem diplomática dispensa qualquer comentário, retirando a credibilidade do indigitado e tornando inócua a audição.

Como reage o que foi alçado à presidência? Chama as Forças Armadas para o combate ao fogo. Seria cômico, se não fosse trágico, pois demonstra que não sabe quais são as competências constitucionais das mesmas e sua inadequação para a tarefa. Compreensível, uma vez que delas foi expulso aos 33 anos, por incapacidade mental.

Mais grave ainda: na eventualidade de uma invasão, não deveriam estar voltadas à tarefa constitucional de defesa externa?

Devem estar surpresos os generais da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Não são os únicos.

Porém, se o quadro é tétrico, talvez não o seja de todo.

Recente artigo de especialistas franceses admite que crimes contra o meio ambiente têm a mesma gravidade de crimes de guerra. Os responsáveis podem vir a ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional, na Haia.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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