Artigo: Ainda não é hora de retorno às aulas presenciais nas escolas

Somos adeptos de que seja realizado planejamento para reorganização das atividades quando houver efetivas condições e embasamento científico

Fonte: Marcos Santos/Fotos Públicas

Fonte: Marcos Santos/Fotos Públicas

Opinião

Por Sindicatos dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio) *

As professoras e professores sempre estiveram na luta por uma educação de qualidade e inclusiva. Essa é a essência de nossa profissão que forma todas as outras profissões. Além disso, nestes tempos de pandemia, a luta se ampliou, e muito. Estamos agora na trincheira da luta pela vida. Sim, os profissionais da educação batalham para que as escolas não sejam abertas para as aulas presenciais de forma prematura.

As entidades de pesquisa da ciência, como Organização Mundial da Saúde (OMS) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sinalizam que este não é o momento da volta às aulas e que, se isso acontecer, o já absurdo números de mortes em razão da Covid-19 tem tudo para ser ampliado.

Diante desse fato, clamamos pelo consenso razoável de que ainda não estamos em momento de retorno às aulas presenciais, com base, principalmente, nos argumentos expostos a seguir:

1. Nós, que privilegiamos o valor da educação, temos um compromisso com a assertiva de que somente a ciência é capaz de encontrar solução para a crise gerada por esta pandemia. Entendemos que o mais importante, neste momento, coerentes com o discurso de valorização da educação, é contribuir para que toda a comunidade escolar esteja ciente da real dimensão da crise da saúde e que somente através desta conscientização é que se pode encontrar solução para o impasse que ora nos é imposto pelas circunstâncias.

2. Segundo diversos estudos científicos, a pandemia ainda está em estágio elevado no Brasil e o Estado do Rio de Janeiro representa um dos focos mais importantes de disseminação da Covid-19. Por isso, adotar medidas baseadas em estudos e análises divulgados por entidades científicas de respeitabilidade social, como universidades e centros de pesquisa, reconhecidos internacionalmente, é o único passo aceitável.

3. A retomada das atividades das escolas particulares, neste momento, além de ser um risco para alunos, familiares e profissionais da educação, também amplia as desigualdades entre estudantes da rede pública e do setor privado de ensino. Ademais, é inadmissível a diferença de tratamento entre alunos da escola pública e dos estabelecimentos particulares. Medidas de acesso à aprendizagem têm de objetivar sempre a prevalência da educação como um todo único de qualidade e oportunidade para todos.

4. Entendemos que, sobretudo na educação, as decisões precisam ser tomadas pensando-se no bem coletivo e levando-se em conta a opinião pública. A maioria da sociedade brasileira, segundo várias pesquisas de opinião, não concorda com o retorno às aulas presenciais, no atual momento.

5. Pesquisa feita pelo Ibope, veiculada pelo jornal O Globo de 7 de setembro de 2020, revela que 54% dos entrevistados concordam totalmente com a afirmação de que o retorno dos alunos à sala de aula deverá ocorrer somente quando houver vacina. Registre-se que, nesse mesmo levantamento, 74% dos entrevistados na capital do Rio de Janeiro concordam com essa afirmativa.

6. Estudo estatístico realizado por uma fundação da área de saúde dos EUA (KFF) concluiu que 13 países da Europa e da Ásia só fizeram o retorno às aulas a partir da média de sete dias abaixo de 36 casos por milhão de habitantes. Enquanto isso, no Brasil, em 6 de setembro, ainda era registrada relação de 186 casos por milhão de habitantes.

Somos adeptos, logicamente, de que seja realizado planejamento para a reorganização das atividades pedagógicas para quando houver efetivas condições e embasamento científico que sustente a retomada das aulas presenciais. Porém, temos a convicção de que isso somente possa ser feito com base nas determinações da ciência e na perspectiva da preservação da saúde e da vida dos(as) alunos(as), dos(as) professores(as) e de todos os(as) trabalhadores(as) da educação e da comunidade escolar.

Desde o início de julho, as professoras e professores de escolas particulares no município do Rio de Janeiro, Itaguaí, Seropédica e Paracambi estão em greve pela vida contra a volta às aulas presenciais.

Afinal, os trabalhadores têm famílias para proteger. E nós, que atuamos em sala de aula seguindo o que apontou Paulo Freire em seu trabalho Pedagogia da Autonomia, demonstramos que um gesto do professor, por mais insignificante, pode se apresentar como força transformadora ao educando.

Não temos segurança agora para o retorno presencial das aulas!

Ainda não é hora de voltar à escola!

* O Sinpro-Rio é uma das entidades filiadas à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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