Opinião

Ao acionar a Corte Internacional contra Israel, a África ilumina mais uma vez o cenário mundial

África do Sul denuncia corajosamente um desastre de proporções que temos dificuldade de aquilatar

Registro de um ataque aéreo israelense contra a Faixa de Gaza em 2 de dezembro de 2023. Foto: John Macdougall/AFP
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“A política é talvez um dos maiores atos de caridade. Porque fazer política é elevar as pessoas” – Papa Francisco

Feliz Ano Novo, a todas, todos e todes!

No momento em que escrevia a coluna da semana passada, eu soube do suicídio do ator sul-coreano Lee Sun-kyun, de 48 anos.

Ele protagonizou o premiado filme Parasita, agraciado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e 4 Oscars, em Hollywood, inclusive os de melhor filme e melhor filme estrangeiro.

O ator fora acusado de uso de drogas ilegais, principalmente maconha.

Por essa razão, foi interrogado por mais de 19 horas no dia 24 de dezembro, pela polícia de Seul…

São tantos os absurdos da atuação de um estado claramente policial, que se torna difícil enumerá-los.

Alguns, porém, saltam aos olhos: 19 horas de interrogatório no dia de Natal? Por um delito menor, que na pior das hipóteses, só teria a ver com a liberdade e a saúde do próprio usuário? Não sabiam que estavam lidando com o ator mais premiado do país, portanto alguém com histórico pessoal irrepreensível?

Ou a crueldade policial teria a ver com a denúncia que Parasita fez da burguesia local, tão podre quanto a oligarquia que por aqui reina?

De qualquer forma, qual a reação dos artistas brasileiros? Dos franceses? Dos estadunidenses?

O mínimo que se pode dizer é: vergonha, vergonha, vergonha, que se estende a todos aqueles que não sabem quando entrar (os omissos antes referidos) ou quando sair de cena (o chanceler da Rússia, por exemplo).

Com efeito, Sergey Lavrov, um dos ministros das Relações Exteriores mais longevos, deixou patente, em recente entrevista, que embora a senilidade não esteja relacionada à idade, está em relação direta com a promiscuidade dos parasitas do poder (lá e aqui). Segundo o equivocado diplomata: “Os objetivos de Israel em Gaza são os mesmos de Moscou na Ucrânia – desmilitarizar e desnazificar.”

Ao dizer um tal disparate sobre o genocídio que a nação hebreia perpetra em Gaza, Lavrov não apenas comete uma injustiça imperdoável – com os palestinos e todo o mundo – mas também desonra seu próprio povo, que teve 17 milhões de mortos, vítimas do nazismo, sendo 8,6 milhões de soldados, que lutaram diretamente para que a extrema-direita não triunfasse, como fez na Israel atual. A então União Soviética foi o país que mais mortos teve, vitimados pelo horror da ultradireita, a mesma que o chanceler agora isenta de culpa no genocídio em Gaza e na Cisjordânia – onde não há Hamas e mesmo assim mais de 500 palestinos foram massacrados por colonos e pela polícia israelense, desde 7 de outubro.

De fato, a Europa, do Leste e do Oeste, que tantas dores trouxe ao mundo, em duas guerras mundiais – mas não apenas -, parece estar presa de delírio suicida coletivo: o chefe do exército da Holanda afirmou, na semana passada, que o país deve se preparar para a guerra com a Rússia – que tem capacidade para destruir todo o país em não mais do que 15 minutos, com seus mísseis hipersônicos…

Em meio ao cataclismo europeu, a África ilumina, mais uma vez, o cenário mundial: a África do Sul ingressou com processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça, em Haia (capital que tem pessoas irresponsáveis, mas também as tem conscientes), denunciando, correta e corajosamente, o genocídio que a extrema-direita israelense perpetra contra crianças e mulheres (em sua maioria) na Faixa de Gaza, onde já se registram mais de 21 mil mortes, causadas pelas covardes forças armadas de Israel.

Um desastre de proporções que temos dificuldade de aquilatar, tais as dimensões dele, inclusive como mancha de uma cultura tão exuberante e fundamental para a raça humana, como a cultura judaica.

Graças à diáspora e, infelizmente, aos horrores sofridos pelos judeus em pogroms no Leste Europeu, no início do século XX, recebemos aqui aquelas e aqueles que se tornariam pilares de nossa literatura, como é o caso de Clarice Lispector.

Em Clarice – uma vida que se conta (editora EDUSP), Nádia Battella Gotlib recorda:

“Só, na companhia do cão, Clarice tenta imitar a lição de vida que ele lhe dá ou que dará à escritora Ângela, de ‘Um sopro de vida’: ‘O meu cão me ensina a viver. Ele só fica ‘sendo’. ‘Ser’ é a sua atividade. E ser é minha mais profunda intimidade”.

Nádia complementa:

“Mas a história mesmo acontece num dia de domingo, em que ‘nada acontece’, quando ‘os homens homenzavam, as mulheres mulherirazavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, e assim por diante”, quando então o narrador anuncia que “a história vai historizar”.

Gotlib refere-se também à avaliação do próprio percurso, feita por Clarice, sempre de forma precoce:

“Já uns dez anos antes de sua morte, a cronista publicara no JB um balanço de vida, num fragmento intitulado ‘Em busca do Outro’, em que afirma: ‘[…] o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas eu sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada”.

Após ter passado duas horas na beira da estrada, ontem, sem qualquer socorro do BB Seguro Autos, só posso lhes dar um conselho: não façam esse seguro. Embora o BB seja, teoricamente, público, o serviço é prestado por atendentes tão despreparados, que deveria fazer a direção do banco refletir sobre a péssima qualidade do produto que vendem, mas não entregam. Ao não prestarem a assistência contratada, colocam em risco não apenas o patrimônio, mas também a vida das pessoas. Na prática, o usuário, fraudado, não consegue ver coerência entre os belos discursos da direção em Brasília e o abandono do contratante numa beira de estrada, num ano novo, com jeito de velho…

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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