Opinião

A tragédia do Rio Grande do Sul: precisava?

Fizéssemos tudo certinho, fora do modelo econômico selvagem, estaríamos passando por essa tragédia?

Registro do bairro Menino Deus, em Porto Alegre (RS), em 9 de maio de 2024. Foto: Anselmo Cunha/AFP
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Se nos anos 70 e 80 do século passado, mesmo ocupados em debelar um golpe civil-militar, que instalara uma ditadura no País que se aproximava dos 20 anos, os brasileiros percebessem viver em um país com 8.500 quilômetros de costa marítima, riquíssima hidrografia, quatro bacias principais – Amazônica, São Francisco, Tocantins/Araguaia e Platina (rios Paraná, Paraguai, Uruguai) -, muitas outras menores, praias extensas e lindas, cobiçadas no planeta, a biodiversidade do Pantanal, maior planície alagável do mundo, com cerca de 3.500 espécies vegetais, 600 de aves, 120 mamíferos, 150 entre répteis e anfíbios, 250 diferentes peixes de água doce, clima temperado na maior parte do território, isento de grandes tragédias naturais, o que fariam para o desenvolvimento social de seus conterrâneos?

Acertariam (em parte) os que respondessem que transformariam esses atributos numa economia capitalista saudável, com produção de manufaturados, distribuição planejada, comércio externo agressivo e interno justo, não inflacionário, pois controlado pelo governo através de estoques reguladores.

Por que “em parte”, se tudo está aí menos o desenvolvimento social? Porque os mais brandos estiveram interessados apenas em manter ou fazer crescer suas posições na pirâmide social, invertendo para o culto da financeirização o que deveria ser a essência do capitalismo.

Mas só? Fizéssemos tudo certinho, fora do modelo econômico selvagem, estaríamos passando pela tragédia no Rio Grande do Sul?

Não, ainda. Seria necessário que meio século atrás tivéssemos dado ouvidos a um homem, o agrônomo gaúcho José Lutzenberger (1926-2002).

Escritor, filósofo, ambientalista, combativo defensor da preservação ambiental e precursor das repercussões que poderiam trazer as mudanças climáticas.

Em 1971, fundou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Cinco anos depois, lançou o livro Manifesto Ecológico Brasileiro: o Fim do Futuro?. Em 1987, criou a Fundação Gaia, com finalidades iguais e projeção local, nacional e internacional em inúmeras campanhas.

Gênio, visionário ou louco? Os gaúchos, hoje em dia, devem saber discernir. Os demais, lendo as folhas e assistindo às telas cotidianas repetitivas, jogariam nas costas da falta de planejamento e às inoperâncias dos políticos em todos seus níveis incumbentes. E lá estariam milhares de seres vivos morrendo e sofrendo todos os tipos de perdas.

Acertariam os que respondessem que o Brasil precisava da tragédia do Rio Grande do Sul, por mais que ela nos seja fúnebre e triste, como a mídia as faz presente, num oportunismo que lhe é intrínseco, como o foi no tempo da pandemia da Covid 19.

– Tá louco? Por que precisava?

– Porque há séculos somos um povo que, em microcosmos, passa por tragédias fúnebres como as do RS sem repercussão tão conveniente aos instrumentos de gestão desenvolvimentista neoliberal, sem que Bergoglio e as esquerdas dessem um pio.

– Com o Bolsonaro não seria assim.

– Exato. A gripezinha da pandemia seria interpretada, no dilúvio gaúcho, como uma poça d’água.

Sim, afirmo, por mais que lamente e doam-me os eventos catastróficos no RS eram necessários para que não esqueçamos a torpeza das elites brasileiras e sua incapacidade de evitar a pobreza com doações solidárias.

Por que lá? Não sei, mero colaborador de CartaCapital, mas lembro que ao verem perdidas as eleições de 2022 para Lula, daquelas plagas vieram sugestões para botar fogo em toda a região Nordeste e quem por lá estivesse.

Não sei se sabem, mas há uma mudança de caráter, como a climática, que cotidianamente faz mais de 80% da população sofrer alagamentos, perdas de vidas, casas, pertences, animais de estimação, em morros abaixo, secas históricas no Nordeste, bairros com esgotos a céu aberto, falta de aparelhos de saúde e educacionais que lhes dessem qualquer merdinha meritocrática, comida pouca cozida em latões debaixo de pontes e viadutos.

Inté!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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