A religião que une bolsonarismo e neoliberalismo

Seguidores fiéis da cartilha de Chicago se contorcionam para manter na normalidade fiasco do neoliberalismo

Foto: Sérgio Lima

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CartaCapital,Justiça,Opinião

Que a idolatria religiosa neoliberal nunca teve vergonha, isso não é novidade. E se não há constrangimento em se agarrar às platitudes românticas do livre-mercado, há menos ainda em ficar reverberando mitos que, se jogados no oxigênio, ressecam até se tornar o pó de uma ideologia cujo maior trunfo parece ser o de acusar de ideológico quem lhe é diferente.

Um desses mitos é o de que a geração de empregos está diretamente condicionada à diminuição de direitos, regra número dois da cartilha Paulo Guedes/Bolsonaro (a primeira é a identificação afetiva com a carnificina de Pinochet). Foi este devaneio que serviu de matéria-prima aos defensores da reforma trabalhista.

Porém, para o descontentamento do terraplanismo econômico, não há indicativos de que a implosão da CLT trouxe benefícios à classe trabalhadora.

Pelo contrário: os últimos dados do IBGE apontam para o aumento recorde da informalidade, para a deterioração das condições de trabalho e para o alto número de desalentados, pessoas que já desistiram de procurar trabalho.

A liturgia fundamentalista também fecha os olhos para o fato da menor taxa de desemprego no Brasil ter ocorrido em 2014, durante o governo Dilma. E sob a vigência da mesma CLT tão demonizada por eunucos intelectuais como o ex-deputado Rogério Marinho, cuja relatoria da reforma da trabalhista na Câmara acabou lhe custando o mandato.

Se alegria de pobre dura pouco, o máximo que o capitalismo pode oferecer a quem vende sua força de trabalho é a “liberdade” de escolher quem irá explorá-la. Um luxo em tempos de uberização, diria Marx, que em seus manuscritos econômico-filosóficos concluiu que o trabalhador se tornou uma mercadoria que só com muita sorte conseguirá chegar a um patrão que se interesse por ele.

A narrativa oficial do governo comemora a ligeira queda no desemprego, dando mostras do fetiche neoliberal em ver a classe trabalhadora se humilhando por migalhas.

Quando a economia já dava sinais de crise em 2015, Joaquim Levy, Ministro da Fazenda de Dilma e “Chicago boy” como Paulo Guedes, afirmou que, apesar de haver gente que não quer mais entrar no mercado de trabalho, a recessão deveria ser vista com bons olhos pois as faria voltar a procurar emprego. O desemprego passa a ser considerado algo positivo, pois “não existe crescimento sem aumento da oferta de trabalho”.

A compreensão de que existe uma taxa natural de desemprego teve Milton Friedman – guru da Escola de Chicago que formou tanto Levy como Guedes – como um de seus difusores. Exceto entre os liberais mais fundamentalistas, trata-se de uma teoria que já tem algum tempo que deixou de ser levada a sério.

Sua fórmula gira em torno da premissa de que o excesso de demanda por trabalhadores num mercado aquecido aumenta salários sem aumentar o número de empregos, fazendo crescer os custos, elevando a inflação e reduzindo as poupanças disponíveis para o investimento empresarial.

A riqueza coletivamente produzida continua a ser apropriada por meia dúzia de pessoas, que permanecem ficando cada vez mais ricas de uma forma ou de outra. A racionalidade do capital, entretanto, é a do crescimento anárquico, regida pela pedagogia destrutiva do “eu quero é mais!”.

Com isso, deu-se o pontapé inicial em um regime de austeridade que não trouxe benefícios a nenhum país em que foi aplicado, mas que, sendo irmão siamês da fantasia de que muitos direitos afetam a geração de empregos, teve seu salmo garantido nas escrituras sagradas do neoliberalismo.

Nelas se encontra também o mistério da fé, resumido no fato de dois mil bilionários serem mais ricos que 60% do planeta e no evangelho da desigualdade, tão natural quanto o dia e a noite na medida em que os bancos, que ostentam lucros inéditos mesmo durante a mais aguda recessão da história do Brasil, dão uma aura de conto de fadas à ideia de que os mecanismos do livre-mercado geram por osmose o bem-estar geral.

A obsessão pelo lucro enquanto divindade é descrita no texto bíblico pela palavra Mamon. Voltando aos manuscritos de Marx, ele explica que “é preciso observar, enfim, que onde o trabalhador e o capitalista sofrem igualmente, o trabalhador sofre em sua existência, e o capitalista no ganho de seu Mamon morto”. Dessa forma,

“o trabalhador não tem apenas que lutar pelos seus meios de vida físicos, ele tem de lutar pela aquisição do trabalho, isto é, pela possibilidade, pelos meios de poder efetivar sua atividade”.

A questão, portanto, não é encher grilhões de flores ou crer em um capitalismo humanizado, devotado ao respeito à dignidade humana e comprometido a não cruzar fronteiras civilizatórias. É, sim, perguntar por que existem grilhões, e como podemos quebrá-los sem sermos pegos por armadilhas como a que turva nossos horizontes e faz com que peçamos o retorno da CLT sem, no entanto, questionar por que existe CLT, em uma derrota que se coloca antes mesmo do início da partida.

É por esse motivo que profanar as formas divinas e idealizadas do capital é fundamental enquanto ele existir, jogando-as junto com os sofismas platônicos do livre-mercado no ácido da vida real. E isso vale também para os dias em que o bolsonarismo já tiver se tornado apenas um capítulo macabro de nossa história.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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