A missão da esquerda

Que melhor ideia do que concentrar as plataformas populares para as eleições de 2020 em mecanismos de participação?

Foto: Reprodução Facebook

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Opinião

“Os generais servem para tudo, menos para governar”.
Alain Rouquie

A semana começa com a notícia promissora de que a convenção do PSOL elegeu a chapa Boulos-Erundina, para disputar as próximas eleições à prefeitura de São Paulo.

Grande chapa. Boulos vem dos movimentos sociais de base, coordenador do MTST, e Erundina, também.

Vale lembrar que Erundina fez uma memorável administração de São Paulo, com secretariado que incluía luminares como Paulo Freire e Marilena Chaui.

A chapa vencedora indica o desejo de inclusão que ambos os nomes simbolizam.

De fato, principalmente em momentos de crise política, como a que estamos atravessando, a participação se faz premente e é a única solução capaz de enfrentar um desastre que, por ser político, tem múltiplas causas.

Outro não deveria ser o papel da política senão identificar vocações, para colocá-las a serviço de toda a comunidade.

Nesse sentido, percebemos uma grande identificação entre política e religião, que a extrema-direita sabe bem aproveitar, para o mal e não o bem.

A esse respeito vale recorrer a Hanna Arendt, em “Liberdade para ser livre”, quando diz: “Significa ser amigo de pessoas que à primeira, e mesmo à segunda vista, não têm nada em comum, constantemente descobrir pessoas que apenas a má sorte ou algum estranho truque do talento tenha impedido que desabrochassem por completo, significa descartar de modo sistemático, embora não necessariamente consciente, todos os padrões de respeitabilidade, mesmo os mais respeitáveis. Isso leva a um estilo de vida que irá ofender a muitos, que estará vulnerável a muitas objeções, exposto a frequentes mal-entendidos; sempre haverá conflitos com quem estiver no poder, e isso sem proposital intenção do ofensor e sem qualquer má intenção do ofendido, mas apenas porque o poder deve ser exercido de acordo com padrões objetivos”.

O Brasil que foi luz e sal para o mundo percebera isso, desenvolvendo conceito e mecanismos de democracia participativa.

Porto Alegre, sob as administrações do PT, foi exemplo para o mundo, com o Orçamento Participativo e as políticas públicas formuladas, monitoradas e avaliadas por conselhos populares.

Neste momento de busca da retomada do protagonismo popular, que melhor ideia do que concentrar as plataformas populares para as eleições de 2020 em mecanismos de participação?

Que tal motivar a academia para uma escola de estudo da participação popular?

Vale a pena buscar inspiração em Darcy Ribeiro, que, em “América Latina: a Pátria Grande”, diz: “Não seria essa confusão toda resultante da velha alienação colonial que só nos deixa ver a nós mesmos com a visão alheia, metropolitana?…parecemos tão confusos não por sermos muito complexos e singulares, mas pela incapacidade de olharmos diretamente nossa própria realidade e de buscarmos explicá-la em termos significativos para nós mesmos. Nesse sentido pode-se afirmar que a confusão terminológica revela males mais graves, que são a alienação mental e a indigência teórica. Só assim se explicam paradoxos tão nossos como os de classificar de ‘fascistas’ os regimes de Vargas e Perón, vistos pelas grandes massas, do Brasil e da Argentina, como os mais favorecedores de seus interesses”.

Ressaltando a importância da participação popular na política, complementa Darcy Ribeiro, na obra acima referida: “Nessas condições, não se pode deixar de reconhecer que o principal fator causal de nosso atraso reside não em deficiências da terra ou do povo, como fizeram crer, por décadas, tantos teóricos, mas no caráter retrógrado da classe dominantes. Elas organizaram a nação e o Estado para servirem a seus próprios projetos e prosperidade, sem preocupar-se com o preço que essa prosperidade cobraria à grande maioria da população. Essas maiorias, ontem, eram massas escravas – indígenas ou negras – utilizadas como mera força energética. Hoje, constituem a massa de assalariados engajada no trabalho das fábricas, das minas, das fazendas, frequentemente sob condições de trabalho escorchantes. Pior ainda é a situação das camadas marginalizadas da população, cuja aspiração suprema é conseguir emprego fixo, ainda que em condições de superexploração, e que nem isso alcançam”.

Complementa Darcy Ribeiro: “Frente à mão de obra escrava, as velhas elites patriciais se comportavam como sustentáculo da instituição escravocrata, só abolida quando se tornou impossível salvá-la. Face aos primeiros surtos reivincativos dos trabalhadores fabris, organizados por líderes anarcossindicalistas, o patriciado apelou para a repressão tratando as questões sociais como ‘casos de polícia’. Frente às massas marginais, o patriciado se atemoriza, transferindo o poder a regimes regressivos e repressivos, na esperança de que usem a violência para conter essas massas que, em seu desespero, tenderiam a subverter a ordem social”.

Portanto, a missão da esquerda parece ser, principalmente, pensar e aplicar instrumentos e mecanismos de participação popular na idealização, formulação, execução, monitoramento e avaliação de políticas públicas, em todos os campos da vida política, indo das obras públicas às relações internacionais, inclusive em âmbito municipal.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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