A disputa do 5G: como fica o Brasil em meio aos riscos de espionagem?

Nossos irmãos do Norte, os EUA, têm feito pressão para que o governo brasileiro, fundado na suspeita, rechace a tecnologia chinesa

A disputa do 5G: como fica o Brasil em meio aos riscos de espionagem?

Opinião

Eu me lembro que, em 1993, antes do início de uma aula de Processo Penal no Largo de São Francisco, um dos meus colegas exibia uma engenhoca que acabara de comprar. Era um telefone celular, então um pouco menor do que um tijolo. O colega era Luciano Huck, com quem estudei até o quarto ano, quando ele deixou a faculdade para se tornar o célebre apresentador, conhecido em todo o País e, talvez, candidato à Presidência da República em 2022. Ele me emprestou o seu telefone e, me lembro, falei com a minha avó, que, de casa, achava que eu a chamara de algum dos orelhões de rua.

Desde então, os telefones celulares se tornaram espécies de buracos negros nas nossas vidas, para sugar quase toda a realidade, para nos enfiar dentro deles, de cabeça, como se o mundo real não existisse. Nós falamos pelo celular e, com o celular, pagamos contas, namoramos, pesquisamos, descobrimos os caminhos, fazemos inveja e invejamos, divulgamos ideias e fazemos políticas e, também pelo celular, alguns de nós distribuem fake news.

O telefone tornou-se uma ferramenta multifária. E promete, com o advento da tecnologia 5G, fazer muito mais, falar com outras máquinas, por exemplo. Esse avanço, entretanto, se insere no monumental conflito geopolítico que vivenciamos nas últimas décadas, que se acirrou nos últimos anos e que culminou, nos últimos meses, em uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, os Estados Unidos e a China, sob o olhar atento de uma das maiores potências bélicas do planeta, a Rússia.

O Brasil, caro leitor, ocupa um lugar de destaque nesse conflito. Aqui, em breve, vai se realizar um leilão, um certame público, pelo qual o governo colherá de empresas privadas a melhor oferta de fornecimento de tecnologia 5G. A concorrência, apenas para que fique mais claro, disponibilizará as faixas de 700 MHz, 2,3 GHz, 3,5 GHz e 26 GHz. E essas faixas serão dedicadas a uma tecnologia capaz de ensejar um fluxo de informações mais rápido, muito mais rápido, para além de outros serviços. Essa tecnologia é a que se chama 5G.

A bem da verdade, poucos países dispõem dela. A melhor e mais barata, ao que se sabe, vem da China e é produzida pela empresa Huawei. Os chineses conseguiram a façanha, como atesta a maioria dos especialistas, de superar os demais países desenvolvidos e produzir a melhor e menos custosa tecnologia para telefonia celular da atualidade. A façanha, todavia, não é imune a críticas. A maior e mais temível delas é a de que os chineses serão capazes de nos espionar por meio de back-doors, ou seja, por meio de acessos secretos à programação que dá funcionalidade à sua tecnologia.

Os nossos irmãos do Norte, os EUA, têm feito muita pressão para que o governo brasileiro, fundado nessa suspeita, rechace a tecnologia 5G chinesa. Ao que tudo indica esse tema pairou sobre o mais recente encontro, em Miami, de Jair Bolsonaro com Donald Trump. Pode até mesmo ter motivado o acordo de cooperação na área de defesa firmado entre os dois países naquela oportunidade.

O fato, contudo, é que nenhuma tecnologia, de nenhum país, consegue afastar-se dessa terrível pecha de espiã. Não nos esqueceremos do que revelou Edward Snowden ou, em crise de consciência, Christopher Wilie, o geniozinho por trás do Cambridge Analytica, no seu famoso livro Mindf*ck. Nós já somos espionados.

Resta saber se, adotada por aqui a tecnologia chinesa, também os chineses, para além dos americanos, vão nos espionar. A solução é muito simples. Submeter a tecnologia chinesa ao escrutínio dos nossos melhores especialistas em cibersegurança das Forças Armadas, da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência. Qualquer resultado será bom para os consumidores do Brasil. Se concluírem que é tecnologia segura, teremos acesso a produtos e serviços melhores por preço menor. Do contrário, então, teremos nos livrado de mais uma ameaça odiosa de invasão de nossas vidas.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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