A aposta de Ciro no antipetismo de esquerda não tem como dar certo

Perde o Brasil, aquele País que ele disse que merecia que os democratas deixassem as diferenças de lado para defender a democracia

Ciro Gomes, ao lado do marqueteiro João Santana e de Carlos Lupi, presidente do PT (Foto: Reprodução)

Ciro Gomes, ao lado do marqueteiro João Santana e de Carlos Lupi, presidente do PT (Foto: Reprodução)

Opinião

“Vou para cima de Lula, maior corruptor da história brasileira”, disse Ciro Gomes em entrevista ao jornal Valor Econômico. Em que pese suspeitas sobre o republicanismo das condutas do ex-presidente Lula, o que temos na fala de Ciro Gomes é um hipérbole estrategicamente elaborada, para não dizer uma falácia histórica.

Seria importante que Ciro mostrasse provas, como, por exemplo, aquelas todas que faltaram a Moro e que não o impediram de enjaular um idoso por razões políticas. Em segundo, não parece muito plausível que no país de Adhemar de Barros, Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães, sem mencionar um lastro sem fim de presidentes militares, Lula caiba no topo desse pódio. 

Sabemos que a afirmação é um jogo de cena com pretensões político-eleitorais. Mas, faz parte do jogo. Ciro Gomes não está fazendo nada muito diferente do que costumamos ver na política brasileira. Mas é exatamente aí em que reside o problema: afinal, Ciro sempre investiu na imagem do político diferenciado e crítico contundente dos jogos sujos das disputas eleitorais. 

Ciro e seus apoiadores afirmaram durante toda a campanha de 2018 que o que estava em jogo era a democracia brasileira diante do fascismo bolsonarista. Não faltaram os que defenderam, com base na tese do antipetismo, que o correto seria que o PT retirasse a candidatura de Fernando Haddad em prol do bem maior. Eu teria gostado muito de ver essa coalizão. Mas uma coisa é o desejo, outra é a realidade.

Sob que pretexto um partido retiraria um candidatura altamente competitiva, que findou por dar a Haddad o posto do derrotado com mais votos no segundo turno? Não faz sentido, inclusive porque achar que Ciro venceria é uma puro exercício futurologista de wishful thinkers

Mas eis 2021,com quase 450 mil mortos por Covid-19 e um presidente que nunca fez a menor questão de esconder que pretende minar o sistema democrático. A ameaça não é mais eminente como em 2018, mas concreta, exibida à luz do dia por cima de uma pilha de cadáveres. O que a coerência requisitaria do Ciro que pregava uma coalização em 2018? Uma coalizão em defesa da democracia, certo? Certo, mas Ciro está todo errado.

Eis a demonstração do que sempre defendi em muitos fóruns: quem prega união e coalização, em geral, só quer a união e coalizão que gravite em torno de si.  Parece claro a essa altura que, se Ciro Gomes estivesse no lugar, na posição de Fernando Haddad em 2018, teria feito exatamente a mesma coisa que o candidato petista fez. E não estaria errado. 

É preciso falar sobre o antipetismo

Esse sentimento político, na minha opinião, agregou, como nenhum outro, o que há de pior na política e moral brasileiras: a desinteligência, a falta de informação, o dogmatismo, a desonestidade intelectual, o fanatismo, o classismo, o sexismo, a misoginia, o racismo, a homofobia, a demofobia, a estupidez. O antipetismo se tornou uma espécie de guarda-chuva que abriga o mais baixo nível da escória brasileira. Não é à toa que desaguou em Jair Bolsonaro.

Quais as chances da aposta de Ciro Gomes e João Santana no antipetismo de esquerda dar certo? Eu especulo que é próximo ou abaixo de zero. Não tem como.

Ciro é um homem que defende visões de mundo e agendas de esquerda ou centro-esquerda. Inteligente, retoricamente sagaz, invejavelmente bem articulado nos raciocínios que oferece e nas leituras que faz da política brasileira, assim como um sujeito decente com boas ideias e bons projetos. Mas tudo indica que a inteligência emocional lhe falta e aí o ressentimento, talvez a arrogância e a ira, lhe sequestra muito de sua capacidade crítica.

Não existe a menor possibilidade de Ciro conquistar votos da direita que votou em Jair Bolsonaro. Como candidato em 2018, em entrevista ao jornalista José Trajano, disse que a eleição estava para ele. Afinal, segundo suas intuições, o eleitor de Jair Bolsonaro queria um cabra forte, mas que também fosse inteligente. Não entendeu o contexto e parece que não aprendeu com a lição. E agora, com base nisso, parece recauchutar a leitura equivocada que fez em 2018. Tem tudo para ser tornar a Marina Silva de 2022. 

Perde o Brasil, aquele País que ele disse que merecia que os democratas deixassem as diferenças de lado para defender a democracia. E perdemos todos nós, eleitores de Ciro Gomes (como eu) ou não que vemos esse político inteligente e qualificado adotar um quase bolsonarismo gourmet. Uma lástima. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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