Opinião

7 de Setembro, o Brasil e a Síndrome de Estocolmo

Por que a maioria aceita todos os desmandos como se fosse normal?

Vista aérea da manifestação em apoio a Bolsonaro em São Paulo. Lutando contra números recordes de pesquisas, um enfraquecimento da economia e um judiciário que ele diz estar contra ele, o presidente Jair Bolsonaro convocou grandes comícios para o dia da independência (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)
Vista aérea da manifestação em apoio a Bolsonaro em São Paulo. Lutando contra números recordes de pesquisas, um enfraquecimento da economia e um judiciário que ele diz estar contra ele, o presidente Jair Bolsonaro convocou grandes comícios para o dia da independência (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

Um oceano de distância não é suficiente para apaziguar o espírito. Assisto de longe os acontecimentos do 7 de Setembro e a dúvida me consome: como um país inteiro continua sequestrado por meia dúzia de dementes que, no fundo, não compreendem as consequências de seus atos? Que medo profundo, atávico, impede uma reação à altura, um basta, da maioria? Quem dirá “chega de palhaçada, há coisas mais urgentes a resolver: a economia em frangalhos, a vacinação claudicante, o desemprego recorde, a fome, a dignidade, a compostura”? O Brasil desenvolveu uma Síndrome de Estocolmo?

Gastamos um mês de nossas vidas a discutir os preparativos das manifestações a favor de Bolsonaro, temerosos de um golpe imaginário. Mais uma vez nos deixamos enganar, desviamos os olhos do que mais importa, enquanto o Brasil definha de inanição, entregue ao caos absoluto, à incompetência em estado bruto. Nada mais importa ao ex-capitão a não ser salvar a si e aos filhos. Todos sabem e mesmo assim permitimos que ele abuse das estruturas do Estado e cometa crimes de responsabilidade em série para alcançar seu objetivo.

A extensão do protesto em São Paulo mantém o Brasil refém de um impasse, aprisionado em seus recalques. Para se libertar, basta, no entanto, olhar o panorama geral. Na Esplanada dos Ministérios em Brasília, o vento circulou pelas fileiras de manifestantes com a mesma desenvoltura com que atravessa a cabeça dos bolsonaristas. No Rio de Janeiro, havia mais banhistas na areia do que camisas da CBF no calçadão do Posto 5. No resto do País, o silêncio foi ensurdecedor. Os apoiadores e financiadores do ex-capitão concentraram os esforços para encher a Avenida Paulista e manter as tropas unidas. Reuniram o que podiam. Não é pouco, mas, ao mesmo tempo, é quase nada. Oito quarteirões não podem ditar os rumos de todas as ruas, avenidas, vielas, becos, estradas e escadarias de um país continental. Ou podem?

Para completar, há a foto de Bolsonaro com a faixa presidencial no rolls-royce pilotado por Nelson Piquet. Um eventual golpe no Brasil, revela a imagem, seria mais cômico do que trágico. Falta ao capitão os atributos de um ditador. O retrato lembra um filme do fim dos anos 80, “Luar de Parador”. Embora Bolsonaro não tenha a simpatia e o talento de Richard Dreyfuss, não passa de um ator coadjuvante contratado às pressas para desempenhar o papel de um autocrata de uma república bananeira. Imitação barata. Piquet no volante reforça a piada, o sujeito que aceitou o papel de vilão nas manhãs de domingo da Rede Globo, o piloto de Fórmula 1 mal humorado, antípoda de um corredor com poderes sobrenaturais, capaz de assumir uma forma etérea e ver a si mesmo no volante, prova de que o Brasil, entre outros dramas, não sabe escolher seus heróis. Piquet era, em resumo, o antagonista de uma farsa. Agora se presta a conduzir outra. E nós, petrificados, vidrados na televisão, como se a tela exibisse um programa banal em um feriado qualquer. Como se reinasse a mais absoluta normalidade.

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