Economia

Vitória de Milei pode provocar virada autoritária e religiosa na Argentina, diz pesquisador

O ultradireitista Javier Milei e o peronista Sergio Massa disputam o segundo turno neste domingo 19. O pleito de 2023 é um dos mais acirrados nos últimos 40 anos

Registro de um cartaz pró-Sergio Massa e uma mensagem contra Javier Milei e Victoria Villarruel, em Buenos Aires, em 17 de novembro de 2023. Foto: Juan Mabromata/AFP
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A democracia na Argentina corre um risco concreto com a vitória de Javier Milei e sua vice, Victoria Villarruel, no segundo turno da eleição presidencial, neste domingo 19. O resultado pode levar o país a uma espiral militar, autoritária e religiosa, encarnada na figura da vice.

A avaliação é de Ariel Goldstein, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires e pesquisador no Instituto de Estudos Latino-Americanos e do Caribe.

O ultradireitista derrotou neste domingo o peronista Sergio Massa, por 56% a 44%.

No primeiro turno, Massa (Unión por la Patria) havia contrariado a maioria das pesquisas e terminado na liderança, com quase 37% dos votos. Milei (La Libertad Avanza) ficou em segundo, com 30%, enquanto Patricia Bullrich (Juntos por el Cambio) chegou na terceira colocação, com 23%.

Logo após a primeira votação, a despeito dos ataques de Milei contra a “casta”, Bullrich e o ex-presidente Mauricio Macri decidiram declarar apoio à extrema-direita contra Massa. Aparentemente, os expoentes da coalizão Juntos por el Cambio optaram por ignorar os virulentos ataques desferidos por Milei ao longo da campanha, em nome de tentar impedir um novo governo peronista.

Propaganda contra Javier Milei em Buenos Aires, em 17 de novembro de 2023. Foto: Juan Mabromata/AFP

Massa enfrentava o desafio de convencer a população de que é capaz de debelar o mais dramático problema do país: uma inflação estratosférica.

Índices de dois dígitos são a regra no país na última década, mas a situação piorou nos últimos sete anos. Em outubro, a taxa acumulada em 12 meses chegou a 143%.

Enquanto Milei recorria a ideias incendiárias e de difícil execução, como a dolarização da economia e o fim do Banco Central, Massa apelou à racionalidade e convocou um governo de unidade nacional. Esse chamado, contudo, não foi suficiente para derrotar a extrema-direita ultralibertária.

Leia os destaques da entrevista concedida a CartaCapital por Ariel Goldstein antes do segundo turno:

CartaCapital: No primeiro turno, Massa surpreendeu e foi o mais votado. Qual foi o tom da campanha neste segundo turno?

Ariel Goldstein: Depois do primeiro turno, parecia que Massa teria mais capacidade de atuação, porque tinha saído em primeiro. Mas depois veio o acordo com Patricia Bullrich. Com isso, mirando o voto da direita tradicional, Milei começou a planejar sua campanha contra o kirchnerismo, que não era uma coisa tão presente no começo.

Ele começou a moderar suas propostas. Para o primeiro turno, Milei tinha fechado sua campanha com imagens de destruição. Isso gerou uma rejeição, porque Milei não era visto como alguém capaz de construir uma ordem.

Agora, com o apoio dessa direita tradicional, surge a ideia da ordem que ele poderia construir junto ao macrismo. Ele começou a construir essa ideia de mudança e continuidade. Isso em uma economia com inflação de 150% anual, com Massa sendo ministro da Economia. Hoje, parece que as coisas estão mais favoráveis a Milei.

No primeiro turno, Bullrich teve 23% e Milei teve 30%. Se Milei tiver três quartos dos votos de Bullrich, ele já tem 47%. Só restam três pontos, que ele pode pegar de qualquer outro lado, para ganhar. Então, o caminho de Milei para a vitória é mais fácil. Mas ninguém sabe o que vai acontecer.

CC: Massa fez uma campanha propositiva, mas críticos dizem que ele recorreu a uma “campanha do medo”. Qual a sua avaliação?

AG: A campanha de Massa foi boa. Ele teve assessoria dos marqueteiros brasileiros e teve um ótimo desempenho no debate do último domingo. Milei ficou sem respostas em muitas das pautas colocadas.

Massa tem um discurso propositivo, com planos para o crédito das famílias que, por exemplo, não têm acesso a uma casa, planos para a redução do preço do aluguel. Ele também aponta para Córdoba, uma província onde Massa precisa ganhar muitos votos para chegar a uma maioria neste domingo. Uma província muito populosa, que tem mostrado historicamente muita rejeição pelo peronismo.

E tem essa adesão de Macri e Bullrich a Milei, que comparo com o que aconteceu no Brasil, onde o voto que tradicionalmente era do PSDB foi para o bolsonarismo. Na Argentina está acontecendo algo semelhante. É uma questão de visão de mundo. Eles são antilulistas, antiperonistas, há traços semelhantes. Esses caras que em 2015, 2019 e antes deste segundo turno votaram pelo PRO [partido de Macri e Bullrich], por Juntos por el Cambio [a coalizão macrista], acho que 70% desse voto vai para Milei, por uma questão de visão de mundo.

CC: A democracia argentina corre riscos em caso de vitória de Milei e sua vice, Victoria Villarruel, uma negacionista da ditadura?

AG: Sim, a democracia corre risco. Villarruel tem um desejo de vingança muito forte por ser parte da casta militar da ditadura. A família dela é parte disso. E ela quer mudar a versão da história que a Argentina tem sobre a ditadura, a repressão, os assassinatos, a tortura.

Essa visão de “ditadura nunca mais” é uma das bases da democracia argentina, houve o julgamento dos militares da ditadura, que fica claro no filme Argentina, 1985. A democracia argentina está ligada a essa visão de “nunca mais”. Villarruel quer mudar isso.

Os consensos que estão na base da democracia argentina – tolerância, pluralismo, respeito à liberdade de expressão – estão em jogo. É um perigo grande. Acho que também existe o perigo de ela, se Milei chegar ao governo, fazer oportunamente uma jogada para ficar com a Presidência. Ela dá maior peso para esse projeto autoritário, militar e religioso.

Sergio Massa e Javier Milei disputarão o segundo turno na Argentina. Foto: JUAN MABROMATA e Tomas CUESTA/AFP

CC: Mas a ultradireita virou uma força importante na Argentina, não? Ou essa ascensão de Milei e Villarruel pode ser circunstancial?

AG: Acho que há uma mudança profunda no cenário político, e Milei é a expressão dessa mudança. Nos últimos 15 ou 20 anos, era kirchnerismo contra uma direita que, depois, mudou para Juntos por el Cambio. Milei é a primeira erupção de uma terceira força que pode chegar à Presidência sendo diferente do peronismo e da direita tradicional.

É uma extrema-direita cuja mensagem chegou a uma parte muito importante da sociedade, que expressa mudanças estruturais, a erupçao das novas tecnologias, dos jovens de aplicativos, a desconfiança com a política tradicional.

É uma impugnação das duas forças políticas que governaram nos últimos 20 anos. A meu ver, não é só uma questão de uma eleição, mas uma mudança mais profunda.

CC: Milei não hesita em atacar Lula, a China, o Papa Francisco… O que isso esperar das relações internacionais, especialmente com o Brasil?

AG: Espero uma tensão bastante grande, mais do que Jair Bolsonaro x Aberto Fernández, porque o Brasil é um ator mais importante que a Argentina a nível regional e global.

Milei tem sido muito ofensivo com Lula. Ele foi o único candidato que apoiou a tentativa de golpe em janeiro, em Brasília, e falou em romper as relações exteriores, coisa que entre Bolsonaro e Alberto nunca se falou.

Acho que haverá um período de muita tensão nessa relação comercial e política se Milei chegar à Presidência.

CC: E no caso de Massa vencer? Qual será o principal desafio?

AG: Massa tem como principal desafio baixar a inflação, e acho que ele pode encontrar essa chance com o acordo de unidade nacional que está promovendo. Seria uma boa ideia.

Não é possível baixar a inflação na Argentina sem fazer um acordo muito amplo, com todas as forças políticas possíveis, para criar condições de estabilidade e de confiança das pessoas. Na Argentina, o problema da inflação não é somente econômico, mas político e social, de expectativa das pessoas sobre o que vai acontecer no futuro.

Todo mundo atua na Argentina pensando que a inflação irá subir sempre. Se Massa conseguir fazer um acordo nacional, dando espaço no gabinete para figuras de outras forças políticas, será um caminho que pode dar certo.

Não consigo imaginar outro caminho para estabilizar a situação na Argentina. E acho que essa é a questão pela qual o Milei, se chegar ao poder, terá um governo muito conflitivo. Ele pensa em resolver a questão econômica a partir de uma perspectiva puramente técnica, sem pensar na política. Ao contrário do que Massa quer fazer.

Massa quer fazer política com a questão econômica. E acho que só considerando uma solução política para a questão econômica é que você pode, em uma solução de consenso, melhorar as condições econômicas e sociais na Argentina, que são o principal problema hoje para a maioria da população.

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