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Saiba como vai atuar o novo gabinete de ultradireita que vai governar a Holanda

Na Holanda, a pergunta ainda não respondida é quem vai ser o novo primeiro-ministro

Os líderes dos partidos holandeses (da esquerda para a direita) Geert Wilders (PVV), Dilan Yesilgoz (VVD), Caroline van der Plaas (BBB) e Pieter Omtzigt (NSC) posam durante uma apresentação do acordo do gabinete de coalizão em 16 de maio de 2024, em Haia. Foto: AFP - KOEN VAN WEEL
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O resultado das eleições legislativas antecipadas, ocorridas em novembro de 2023, na Holanda, foi o avanço da ultradireita no país. Na última quinta-feira (16), consolidou-se a coalizão para a formação do gabinete, que era aguardada por alguns, mas que muitos gostariam de adiar indefinitivamente.

O período de negociação entre os partidos teve inúmeros altos e baixos no diálogo mútuo, entradas e saídas de mediadores, facilitadores e especialistas, que, a portas fechadas, queriam ajudar os partidos envolvidos a se ajustar para formar um gabinete para a Holanda, um país pequeno, mas que demonstra, muitas vezes, um alto grau de influência nas políticas cruciais da União Europeia.

O lema que baseia o plano de governo deste novo gabinete é esperança, coragem e orgulho.

O novo gabinete, que tem a figura central do líder ultradireitista Geert Wilders, tem representantes totalmente diferentes entre si, unidos por alguns pontos gerais, como por exemplo a migração. E este foi, justamente, o tema que derrubou o governo anterior. Nesta linha, os partidos vão elaborar mecanismos para colocar freio na entrada de estrangeiros na Holanda, até mesmo aqueles provenientes da União Europeia. Neste quesito está a suspensão da distribuição igualitária de solicitantes de asilo entre as prefeituras. E os imigrantes aceitos como refugiados também deixam de ter prioridade nas casas populares.

Entre outras medidas, os partidos da coalizão concordam com a diminuição no preço dos combustíveis e o oferecimento de creches quase gratuitas para pais que trabalham fora.

Composição do gabinete

O novo gabinete vai ter Wilders do partido ultradireitista PVV, Partido para a Liberdade, como representante dos insatisfeitos com o governo do primeiro-ministro demissionário Mark Rutte, que liderou um governo marcado por inúmeros escândalos fiscais e pessoais envolvendo membros do VVD, Partido Popular da Liberdade e Democracia.

Líder da bancada, a ambiciosa ministra demissionária da Justiça e Segurança, Dilan Yesilgöz, também integra o gabinete. Para ela a segurança deve ser prioridade na Holanda.

Os ruralistas oferecem para compor o novo gabinete Caroline van de Plaas, novata na política partidária e fundadora do partido BBB – Movimento Cidadão dos Ruralistas – e que conseguiu garantir no novo plano de governo que não haverá nenhuma diminuição compulsória nos rebanhos do país.

Por fim, o quarto integrante é o fundador do partido nascido pouco antes das eleições, o NSC – Partido do Novo Contrato Social, Pieter Omtzigt, político experiente e independente, mas que tem dificuldade em ser claro nos seus pontos de vista e assumir responsabilidades publicamente.

O partido segundo colocado nas eleições de novembro passado, O PvDA, Partido dos Trabalhadores, que tem como aliado o Partido Verde, foi bastante crítico. O líder da bancada, Frans Timmermans, disse que “esta coalizão é um desastre e já entra descumprindo promessas feitas na campanha eleitoral”. Uma delas seria aumentar o índice de reajuste nos salários dos trabalhadores e promover o total cancelamento do pagamento polêmico de uma parcela adicional individual embutida nos planos de saúde pública. Esta parcela será suspensa somente em 50% e no ano de 2027.

Timmermans adverte que o gabinete “pode desistir, porque Bruxelas, no caso, a Comissão Europeia, não vai tratar a Holanda com exceções e aceitar negociações individuais para o que não estiver satisfeita”.

Outras bancadas menores como o Partido dos Animais e o Partido Socialista, afirmam que vão fazer oposição ferrenha à coalização.

Já os Partidos de tendência cristã e democrata querem saber quem vai pagar a conta pelo plano de governo anunciado não enfatizar temas urgentes como as mudanças climáticas e a falta de solidariedade e cooperação da Holanda no cenário internacional.

Previsão de analistas

Analistas políticos acreditam que esta coalizão não vá durar muito, pois “é notória a fragilidade no tratamento pessoal entre os integrantes”. Até este momento, a pergunta não respondida é quem vai ser o novo primeiro-ministro.

É bom lembrar que logo após as eleições, Wilders e partido dele, o PVV, foram hostilizados pelos outros partidos que ficaram atrás na votação. Esses partidos afirmaram categoricamente que não se juntariam a ele na hora de formar um gabinete.

O panorama político foi se modificando e não se pôde mais negar que a vontade dos eleitores e o avanço para poder ocupar 35 cadeiras no parlamento demonstraram que a população quer um governo de direita. Com isso, Wilders está sendo projetado.

Assim, a conclusão é que o PVV, como era de se esperar, entra para a história contemporânea como mais um partido ultradireitista que vai compor o atual cenário político-partidário ocidental.

Outra previsão de analistas políticos é que haverá muitos confrontos diplomáticos, pois Wilders é eurocético e a representante do BBB diz que os europarlamentares não devem ditar o que fazer nas políticas agrícolas de cada país membro da União Europeia.

Na próxima semana haverá um debate no parlamento, em Haia, e espera-se que em junho todo o procedimento de posse esteja pronto, incluindo a nomeação de ministros, secretários de estado e integrantes de comissões de escalões inferiores.

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