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“O Brasil tem responsabilidade enorme de preservar a paz”

Mundo

O embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Alzeben, diz que o apoio do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e dos Estados Unidos a Israel pode agravar o conflito na região. Ele defende que, até o fim do impasse entre os países no Oriente Médio, as embaixadas em Israel devem permanecer em Tel Aviv.

“O Brasil é um dos fundadores da ONU. E tem uma responsabilidade enorme para preservar a paz”, afirma, em entrevista à DW Brasil.

Bolsonaro voltou a declarar que pretende transferir a embaixada brasileira de Israel para Jerusalém, assim como fizeram os EUA e a Guatemala. O embaixador palestino busca um encontro com o presidente eleito em Brasília.

Por vias diplomáticas, Alzeben quer ainda dissuadir Bolsonaro da ideia de retirar a representação palestina de Brasília, que fica bem próxima do Palácio do Planalto. Ele lembra que a história entre os dois países começou em 1975, ainda no regime militar.

A embaixada foi construída durante o governo Dilma Rousseff e, ao longo da campanha de Bolsonaro, foi alvo de protestos de admiradores do capitão reformado.

Alzeben atua como representante palestino no Brasil desde 2008. Fluente em português, ele trata a imprensa e funcionários da embaixada – grande parte composta por brasileiros – com informalidade pouco usual no meio diplomático.

Apesar dos desafios, o embaixador é otimista em relação ao horizonte do País. “A Palestina pertence aos palestinos. Temos judeus. Temos cristãos. Temos muçulmanos. […] E assim será para o futuro. Esse conflito vai acabar”, afirma. 

Deutsche Welle: As relações bilaterais são mais antigas, mas a embaixada em Brasília é relativamente recente. Por causa disso, alguns ligam essa relação com o governo PT. O senhor concorda com essa afirmação?

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Ibrahim Alzeben: A relação com o Brasil começou com reconhecimento da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1975. Quem reconhece a OLP como legítimo representante foi o governo militar. Em 1993, o Brasil autorizou a abertura da Delegação Especial palestina. Em outubro de 1995, Fernando Henrique Cardoso recebeu Yasser Arafat com todas as honras de chefe de Estado. E, em 2010, veio a embaixada do Estado da Palestina. O PT fez uma continuidade deste processo de reconhecimento e acho também de correção do rumo da história. O Brasil é responsável direto pela partilha da Palestina. 

Por qual razão?

A partilha da Palestina foi aprovada por um esforço extraordinário de Oswaldo Aranha, quando presidia a sessão da Assembleia-Geral da ONU. Faltava um voto e Oswaldo Aranha se esforçou em busca deste voto.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, diz que pretende retirar a embaixada palestina do Brasil. Um dos argumentos é que a representação fica muito próxima do Palácio do Planalto.

Se você olhar agora pela janela, você vê o terreno de Moçambique, a embaixada da Armênia e todas aqui do Setor de Embaixadas Norte, a das Filipinas e Marrocos, por exemplo. Todas têm a mesma distância em relação ao Planalto. 

Jerusalém no centro da disputa (Foto: Wikmedia)

Mas ele também argumenta que a Palestina não é um Estado.

Somos um Estado. E quem define isso são as Nações Unidas. Somos reconhecidos por cerca de 130 países. Só oito ou nove países não reconhecem isso, como os Estados Unidos, Israel e cinco ilhas do pacífico. A Palestina é reconhecida por 99,9% da comunidade internacional como Estado ou como Estado em via de formação. 

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Há risco de o presidente eleito tomar essa atitude contra a embaixada? Quando o senhor deve se encontrar com ele?

Devemos esperar. Estamos deixando um espaço para a diplomacia. Estamos aguardando o retorno desse pedido de reunião. Estamos muito interessados. Inclusive o presidente Mahmoud Abbas já mandou uma carta de felicitação ao Bolsonaro. Nós respeitamos a decisão do povo brasileiro. 

O senhor acredita que ele irá te receber?

Espero que sim. Por que não? Eu sou embaixador acreditado ante o governo do Brasil. Eu sou indicado do corpo diplomático árabe-islâmico e, como tal, solicitamos essa reunião. 

Bolsonaro voltou a insistir na mudança da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Tem como buscar uma solução para isso?

A embaixada brasileira e todas as embaixadas devem ficar em Tel Aviv enquanto essa questão da ocupação militar israelense não estiver resolvida. Acredito que em um estágio final a Palestina terá Jerusalém oriental como capital e Israel terá Jerusalém ocidental como capital. Inclusive, se podemos invocar a alma do arquiteto de Brasília, Oscar Niemeyer, poderia ser criada uma embaixada dupla na fronteira: de um lado, a representação na Palestina. De outro, a de Israel. Acho que o Brasil deve nos ajudar para criar pontes. 

O senhor defende, então, que a transferência ocorra só depois do fim do processo de formação da Palestina?

Sim. Para não complicar o panorama. Israel ocupa militarmente o território palestino. Eu acho que um país soberano como o Brasil, que não admite a conquista de territórios alheios, não deve apoiar uma ocupação. O Brasil é um dos fundadores das Nações Unidas. E tem uma responsabilidade enorme para preservar a paz. O Brasil tem todo nosso apoio, e de países árabes e islâmicos também, para que seja integrante do Conselho de Segurança. O Brasil tem figura, tem história para isso. Tem boa relação com o mundo árabe, com Israel e com os Estados Unidos. 

Quais as consequências das declarações do presidente eleito Bolsonaro e dos filhos dele sobre Palestina e Israel, além da mudança das embaixadas dos Estados Unidos e Guatemala, para a região? Isso pode ter efeito no conflito?

Com certeza. Essas atitudes podem agravar o conflito. Israel é um país ocupante. Está violando o direito internacional. Existem duas faces de Israel. Uma que é avançada em tecnologia e que é bastante desenvolvida. Outro lado é nefasto. É contrário a tudo que é humano. Não podemos admitir e ninguém deve apoiá-lo. Transferir as embaixadas é apoiar. É incentivar esse lado.

Vi que a embaixada está terminando de montar uma árvore de Natal.

Jesus Cristo é palestino. A Virgem Maria é palestina. A Palestina pertence aos palestinos. Temos judeus. Temos cristãos. Temos muçulmanos. E esta é a riqueza da Palestina, que não abrimos mão. Eu não admito que seja puramente judaica, puramente cristã, puramente muçulmana. E assim será para o futuro. Esse conflito vai acabar.

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