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Nos EUA, Sondland preferiu o próprio pescoço à lealdade de Trump

Entre a lealdade a Trump e o próprio pescoço, o embaixador Gordon Sondland escolheu a segunda opção

Sondland sabe: quem foi leal ao republicano está na cadeia. Foto: Saul Loeb/AFP
Sondland sabe: quem foi leal ao republicano está na cadeia. Foto: Saul Loeb/AFP

O destino de Donald Trump no inquérito de impeachment pode estar nas mãos de um doador e apoiador, pressionado para se voltar contra o presidente dos Estados Unidos para salvar a própria pele. 

Nota de CartaCapital: Gordon Sondland, embaixador na União Europeia, testemunhou no processo e admitiu as pressões para o governo da Ucrânia investigar os negócios do filho do ex-presidente Joe Biden,  cotado para ser o candidato democrata e enfrentar Trump nas eleições do próximo ano. Sondland foi questionado sobre a maior revelação do caso: um telefonema que ele fez da Ucrânia para Trump, em julho, no qual o presidente foi ouvido a perguntar sobre uma investigação de um de seus adversários políticos. Sondland supostamente lhe garantiu que ela seguiria adiante.

O embaixador não mencionou a ligação em depoimento ao inquérito a portas fechadas, nem em uma declaração revisada três semanas depois, que admitiu uma compensação ligada ao apoio militar. Agora, diante das câmeras de tevê e de uma audiência de milhões de eleitores, vão lhe perguntar por quê.

Enquanto avalia sua resposta, Sondland poderá tentar equilibrar a lealdade a Trump com o destino que coube a outros no círculo do presidente: seu ex-advogado Michael Cohen e o ex-presidente de campanha Paul Manafort estão ambos atrás das grades, enquanto o agente político Roger Stone foi considerado culpado de mentir ao Congresso.

“Ei, embaixador Sondland”, tuitou Joe Scarborough, um ex-congressista que virou apresentador de tevê. “Roger Stone mentiu para o Congresso por Trump e agora está a caminho da prisão. Assim como seu diretor de campanha e seu advogado. Você é o próximo? Sua vez, Gordy.”

Washington está dominada pelo quarto inquérito de impeachment da história dos EUA. Nas primeiras audiências públicas, três autoridades graduadas – Bill Taylor, George Kent e Marie Yovanovitch – apresentaram um relato condenador de como Trump sujou seus diplomatas para estabelecer um canal irregular para subornar a Ucrânia e aumentar suas chances na eleição presidencial do próximo ano. Mas o presidente permaneceu desafiador e houve poucas rachaduras no muro defensivo erguido pelos republicanos e pela mídia conservadora.

Sondland poderá, no entanto, ser crucial. O hoteleiro e arrecadador de fundos republicano manteve um relacionamento intermitente com Trump durante a campanha presidencial de 2016, mas embarcou com 1 milhão de dólares por meio de suas empresas para o comitê de posse. Sondland foi nomeado embaixador dos EUA na União Europeia e mudou-se para Bruxelas no ano passado.

Em 10 de julho deste ano, uma reunião na Casa Branca com autoridades ucranianas terminou abruptamente quando Sondland disse que tinha um acordo com Mick Mulvaney, chefe de gabinete interino da Casa Branca, de que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, teria um encontro com Trump se a Ucrânia concordasse em iniciar investigações.

John Bolton, então assessor de Segurança Nacional, ficou horrorizado, segundo foi dito no inquérito, e comentou: “Eu não faço parte de qualquer acordo sobre drogas que Sondland e Mulvaney estejam planejando”.

A Trump só resta esperar. Foto: Shealah Craighead/Official White House Photo

O apoio militar à Ucrânia ficou congelado até segunda ordem. Em 25 de julho, Trump conversou com Zelensky por telefone, pressionando-o para ajudar na coleta de informações potencialmente prejudiciais a respeito do ex-vice-presidente Joe Biden, um possível desafiante nas eleições presidenciais do próximo ano.

No dia seguinte, Trump falou por telefone com Sondland, enquanto o embaixador estava em um restaurante em Kiev. Taylor, o principal diplomata dos EUA no país, disse ao inquérito que um integrante de sua equipe ouviu partes da conversa, nas quais Trump se referiu às “investigações”.

Após a ligação, o funcionário perguntou a Sondland o que Trump pensava da Ucrânia. “O embaixador Sondland respondeu que o presidente se preocupa mais com as investigações de Biden, pelas quais [seu advogado pessoal Rudy] Giuliani estava pressionando”, declarou Taylor.

Os republicanos rejeitaram o relato de Taylor como boato, e Trump disse a repórteres após a audiência que não sabia “nada” sobre a ligação com Sondland. O integrante da equipe citado por Taylor foi David Holmes, que depôs em particular na sexta-feira 15.

Uma cópia da declaração inicial de Holmes, obtida pela CNN, dizia: “Sondland disse a Trump que Zelensky ‘ama a sua bunda’. Então ouvi o presidente Trump perguntar: ‘Então, ele vai fazer a investigação?’ O embaixador Sondland respondeu que ‘ele vai fazer isso’, acrescentando que o presidente Zelensky fará ‘qualquer coisa que você lhe pedir’”.

Com os republicanos tentando retratar as denúncias como baseadas em fontes de segunda ou terceira mão, os democratas certamente deverão pressionar Sondland sobre essa conversa direta com o presidente e perguntar por que ele a omitiu de suas evidências anteriores.

No depoimento, ele admitiu a pressão para a Ucrânia investigar Joe Biden

Matthew Miller, ex-porta-voz do Depar-tamento de Justiça, disse: “Eu acho que o depoimento de Sondland é incrivelmente importante, porque, se você olhar para sua última aparição diante da comissão em particular, parece bem claro que ele esteve escondendo fatos em várias ocasiões. Ele afirma não se lembrar de conversas que seriam implausíveis ele esquecer”.

Sondland disse à comissão que nunca discutiu a investigação de Biden com ninguém na Casa Branca ou no Departamento de Estado, observou Miller. “Agora você tem essa conversa relatada em que ele sai do telefonema e diz a um funcionário que Biden é a coisa mais importante. Se isso for verdade, ele mentiu claramente para a comissão. É uma mentira tão clara quanto poderia para se pegar alguém.”

As consequências para Sondland poderão ser terríveis, se ele mantiver uma lealdade cega a Trump. Miller, hoje sócio da consultoria de gestão Vianovo, acrescentou: “Se eu fosse ele, ficaria muito preocupado com uma indicação à comissão para uma acusação criminal e tentaria ficar no lado certo da comissão para impedir que isso acontecesse. A comissão agora tem muita influência sobre ele para fazê-lo dizer a verdade”. 

E acrescenta: “Durante todo o inquérito de Miller (sobre a suposta colusão com a Rússia), houve muitas testemunhas que pensaram que poderiam ficar ao lado de Trump e obter um perdão. Paul Manafort e Michael Cohen estão agora na prisão e Roger Stone acaba de ser condenado. É uma aposta muito perigosa de se fazer”.

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