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Ninho de serpentes

Na reta final da campanha ao Parlamento da UE, vaidades, traições e projetos próprios de poder dividem a extrema-direita

Por si. A AfD, legenda neonazista alemã, foi expulsa do bloco ECR, ao qual se alinha a francesa Marine Le Pen. A italiana Georgia Meloni flerta com o centro-direita – Imagem: Redes sociais, Vox Espanha e Prasetyo Utomo/G20 Indonésia
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Um apelo público mais direto, impossível. No domingo 26, em entrevista ao jornal Corriere della Sera, a francesa Marine Le Pen exortou a colega de ideologia e primeira-ministra italiana, Georgia Melloni, a juntar-se à campanha para fazer da extrema-direita a segunda maior bancada do Parlamento Europeu. “Este é o momento de nos unirmos, seria verdadeiramente útil. Acho que não devemos deixar passar uma oportunidade como esta”, declarou Le Pen. “Acredito que ela e eu estamos de acordo sobre as questões essenciais, incluindo a retomada do controle dos nossos países”. No mesmo dia, à tevê pública RAI, Meloni respondeu. Não disse sim nem não. “Meu principal objetivo é construir uma maioria alternativa àquela que governou nos últimos anos. Uma maioria de centro-direita, por outras palavras, que enviará a esquerda para a oposição na Europa”.

Os europeus irão às urnas entre 6 e 9 de junho e, como tem acontecido em diversas eleições nacionais, tendem a nomear um Parlamento Europeu mais fragmentado e instável do que o anterior. Os velhos liberais e a esquerda tradicional, apontam as pesquisas, perderão espaço para o extremismo de direita e os partidos independentes, não perfilados a um dos sete blocos tradicionalmente estabelecidos em Bruxelas. Le Pen e Meloni são as expoentes das duas principais correntes da extrema-direita. A francesa integra o grupo Identidade e Democracia, que acaba de expulsar os neonazistas alemães da AfD, depois das declarações “embaraçosas” de Maximilian Krah, principal candidato da legenda, a respeito da SS de Adolf Hitler (“Nunca diga que alguém que usa um uniforme da SS é automaticamente um criminoso”), e das acusações de que um outro filiado recebeu dinheiro da Rússia. A italiana pertence à frente Conservadores e Reformistas Europeus (ECR, na sigla em inglês). Segundo as projeções, o ID, afetado pela expulsão da AfD, conquistará 66 das 720 cadeiras em disputa, enquanto o ECR chegaria a 72. Apesar do isolamento, interno e continental, e de um radicalismo crescente que afasta aliados, os neonazistas alemães, indicam os levantamentos, passariam de 9 para 17 deputados e o húngaro Fidesz, uma das bases de sustentação de Viktor Órban, elegeria outros 12. Ao todo, seriam 165 parlamentares, caso as urnas confirmem as pesquisas, acima dos 144 do grupo Socialistas & Democratas, de centro-esquerda.

Há dois motivos para Meloni se mostrar refratária à aliança imediata. O primeiro tem a ver com estilo. Embora seu governo avance em políticas contra a comunidade LGBT, entre elas proibir o nome dos pais não-biológicos no registro de filhos de casais homossexuais, e os imigrantes, a primeira-ministra italiana projeta, para fora do país, uma imagem de “moderação” quando comparada aos pares ideológicos no continente. Mede as palavras, evita certo histrionismo, afastou-se de Vladimir Putin e entende o jogo de bastidores da política. Le Pen também passou por uma repaginação, mas o passado a condena. Apesar de negar ou ao menos disfarçar repúdio pelo antissemitismo e anti-europeísmo do pai, ­Jean-Marie, tem sido difícil para a francesa se dissociar da trajetória da família.

*Média das pesquisas, 24 de maio
** Candidatos ou legendas não perfilados a blocos políticos
Fonte: politico.com

A outra razão de Meloni é pragmática. Justamente pelo disfarce da moderação, a italiana é insistentemente cortejada por Ursula von der Leyen, em campanha à reeleição ao posto de presidente da Comissão Europeia. Na ânsia de permanecer no cargo, Ursula von der Leyen mostra-se flexível, a ponto de borrar aquelas tais “linhas vermelhas” que em tese separam os democratas dos racistas, xenófobos, negacionistas da mudança climática e neofascistóides. A aprovação pelo Parlamento Europeu de uma lei antimigração mais dura foi uma demonstração recente de que, em nome de um projeto de poder, as linhas mudam de cor como em um passe de mágica – e o que era vermelho subitamente vira verde. Em recente debate, a alemã destacou as supostas qualidades da premier italiana, em um esforço de convencimento de aliados do PPE, o grupo de extrema-direita que projeta conquistar 176 cadeiras: “Ela é claramente ­pró-UE, contra Putin, tem sido muito clara sobre isso, e pró-Estado de Direito. Se isto se mantiver, então nos oferecemos para trabalhar juntas”. Em troca, a comissária recebeu afagos do ECR. Em entrevista à agência Euronews, Nicola ­Procaccini, do Fratelli D´Italia, partido de Meloni, não descartou o apoio à alemã. “É algo que temos de ver com base no equilíbrio de poderes, pois eles podem ter de apoiar um dos nossos candidatos. Vamos ver.”

Mesmo dividida, a extrema-direita avança para se transformar em uma incontornável força de bloqueio, se não de alteração dos princípios basilares das políticas interna e externa da União Europeia. A solidariedade aos migrantes tem, aos poucos, sido substituída pelo conceito de segurança das fronteiras. O rigor das leis ambientais será bombardeado por uma espécie de “bancada do boi”, sensível aos reclames dos agricultores que se sentem prejudicados pela concorrência internacional. Um dos possíveis efeitos colaterais será o enterro definitivo do acordo UE-Mercosul. O apoio incondicional à Ucrânia também está em risco, dada a simpatia que uma parcela considerável dos extremistas nutre por Putin. •

Publicado na edição n° 1313 de CartaCapital, em 05 de junho de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ninho de serpentes’

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