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Maquiagem verde

A imagem de Jeff Bezos como protetor do meio ambiente sofre fortes abalos

Em causa própria. Cientistas acusam o bilionário de influenciar a adoção de regras mais flexíveis da SBTi, uma influente organização de certificação climática – Imagem: Seattle City Council
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Em abril passado, a coroação de Jeff Bezos e sua parceira Lauren Sánchez como os reis do meio ambiente foi concluí­da. No elegante evento de gala anual da Conservação Internacional em Nova York, com Harrison Ford, Jacinda Ardern e Shailene Woodley na plateia, o casal recebeu o prêmio visionário global pela contribuição financeira do Bezos Earth Fund para o mundo natural. “Jeff e Lauren estão fazendo história, não apenas pelo valor de seu investimento na natureza, mas também por sua rapidez”, disse o CEO da Conservação Internacional, M. Sanjayan, cuja organização recebeu uma doação de 20 milhões de dólares do magnata em 2021 por seu trabalho nos Andes tropicais.

Lançado com uma equipe reduzida em fevereiro de 2020, o Bezos Earth Fund pretende doar 10 bilhões de dólares da fortuna pessoal de 200 bilhões do fundador da Amazon para combater a crise climática e a perda de biodiversidade até o fim desta década. Até agora, fez mais de 230 doações no valor de 2 bilhões de dólares, financiando iniciativas que vão de soluções ambientais de IA a energia limpa para comunidades desfavorecidas.

Nesse processo, o Bezos Earth Fund tornou-se uma das vozes mais influentes no setor do clima e da biodiversidade. Seus associados, conselheiros e diretores têm presença de destaque nas negociações internacionais. Suas fileiras incluem o ex-ministro do Meio ­Ambiente do Reino Unido Zac ­Goldsmith, a importante ambientalista africana ­Wanjira Mathai e Paul Bodnar, ex-assessor de ­Barack Obama. As doações multimilionárias do fundo apoiam dezenas de ­ONGs e iniciativas importantes.

Mas, no nível privado, no setor do clima e da biodiversidade, o humor em torno do Bezos Earth Fund tornou-se um mal-estar crescente. Pesquisadores, consultores de política climática e integrantes de ONGs expressaram preocupações sobre o nível de influência do fundo sobre instituições ambientais críticas para deter as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, muitas das quais contam agora com o Bezos Earth Fund entre seus maiores financiadores. Alguns não quiseram ser identificados por temerem consequências para seu próprio financiamento. “Vimos milhões de dólares pagos a organizações de conservação e climáticas. Muitas retiraram dinheiro do Bezos Earth Fund, e acho isso muito preocupante. Existe obviamente um risco de conflito de interesses”, afirma ­Holger Hoffmann-Riem, da ONG suíça Go for Impact. “A credibilidade do sistema depende de sua independência.”

Um especialista em política climática, sob a condição do anonimato, afirma: “Nos poucos anos desde que começou a distribuir enormes quantias para as mudanças climáticas e a conservação, o ­Bezos Earth Fund adquiriu influência sobre muitas iniciativas importantes e sobre seus conselhos diretores. Neste ponto, a enorme presença do Bezos Earth Fund no espaço climático e de conservação começa a parecer menos filantrópica e mais uma tentativa de assumir o controle do sistema de governança corporativa para seus próprios interesses e sua agenda”.

Ambientalistas temem que a agenda do bilionário se sobreponha à causa ecológica

Stephan Singer, consultor sênior de política energética global da ­Climate ­Action Network International, acrescenta: “Organizações filantrópicas como o Bezos Earth Fund são fundamentais para que a sociedade civil em todo o mundo possa financiar intervenções em questões ambientais e climáticas essenciais. Mas existem grandes problemas nas implicações políticas. Os projetos do Fundo Bezos não abordam as questões-chave da crise climática fundamental que enfrentamos, são bons, mas infelizmente cosméticos”.

Um porta-voz do Bezos Earth Fund disse não existir conflito de interesses. O fundo, afirmou, levou as acusações a sério, pois os comentários procuram minar sua reputação e a de sua equipe.

Muitos especialistas do mundo da conservação da natureza e do clima dizem que seus temores se concretizaram neste ano, quando uma amarga disputa interna eclodiu na Science Based Targets iniciative, uma das organizações de certificação climática mais importantes. A SBTi, que recebeu doação de 18 milhões de dólares de Bezos em 2021, é a responsável por avaliar se algumas das empresas líderes mundiais praticam a descarbonização conforme o Acordo de Paris. Em abril, o conselho diretor da ­SBTi anunciou inesperadamente planos para permitir às empresas cumprirem suas metas climáticas com compensações de carbono do mercado voluntário não regulamentado para emissões indiretas. A medida provocou comoção interna. Funcionários e consultores técnicos disseram não ter sido consultados sobre o anúncio e alertaram que ele poderia abrir a porta para a “lavagem verde”. Eles manifestaram receios de que o processo baseado na ciência seja posto de lado em favor de políticas mais favoráveis às companhias com padrões mais frouxos, com grandes poluidores autorizados a comprar compensações em vez de reduzir as emissões. Dezenas de funcionários da SBTi pediram a renúncia do CEO, Luiz Fernando do Amaral, e de integrantes do conselho, incluindo o amigo de ­Bezos Iván Duque, em uma carta interna.

Desde o anúncio, Amaral lamentou a confusão em torno dos comentários e disse que nenhuma regra foi alterada ainda. Mas a turbulência colocou sob maior escrutínio os esforços de lobby do Bezos Earth Fund e de outras organizações pró-mercado de carbono.

Um porta-voz da SBTi disse que a organização lamenta que o anúncio tenha sido “aberto a interpretações errôneas” e que quaisquer alterações seguiriam um processo de consulta padrão. Um mês antes do anúncio do SBTi, o Bezos Earth Fund organizou uma reunião de dois dias em Londres, e na agenda estava o papel das compensações nas reivindicações corporativas. Foram convidadas figuras importantes da indústria de compensações, muitas das quais pressionaram para a SBTi permitir compensações para aumentar a demanda no setor em dificuldades. Uma projeção estima que, se a mudança da SBTi for aprovada, valeria ao menos 19 bilhões de dólares para o mercado de carbono voluntário. Várias fontes levantaram preocupações de que a reunião tivesse influenciado a decisão do conselho. “É difícil não ver uma ligação entre a reunião de Londres e a decisão do conselho da SBTi algumas semanas depois”, diz Juliette de Grandpré, do grupo de aconselhamento técnico da organização e especialista em política climática do NewClimate Institute.

O Bezos Earth Fund contesta veementemente as afirmações e garante não ter participado do anúncio do conselho da SBTi. Andrew Steer, presidente e CEO do fundo do bilionário, afirma que as instituições de definição de padrões ambientais financiadas pela iniciativa tiveram uma liderança marcante e tomaram suas próprias decisões. “São fortes e comprometidas com a transparência, padrões de alta integridade e rigor analítico. Qualquer sugestão de que elas não tomam suas próprias decisões está claramente errada.” •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição n° 1313 de CartaCapital, em 05 de junho de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Maquiagem verde’

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