Guaidó retorna à Venezuela sob ameaça de prisão

Oposicionista desembarca em Caracas, desafiando um alerta de Maduro de que seria preso

(Foto: AFP)

(Foto: AFP)

Mundo

O líder oposicionista venezuelano Juan Guaidó retornou a Caracas nesta segunda-feira 4, desafiando uma ameaça de prisão do governo de Nicolás Maduro caso voltasse à Venezuela.

Imagens divulgadas pela imprensa local mostram jornalistas e apoiadores cercando Guaidó após seu desembarque no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, que serve a capital venezuelana.

No Twitter, o político informou que já havia passado pela alfândega do aeroporto e que estava se dirigindo às ruas de Caracas, “onde está o nosso povo”. “Entramos na Venezuela como cidadãos livres, que ninguém nos diga o contrário”, escreveu.

Embaixadores e representantes diplomáticos de Alemanha, Espanha, França, Holanda e Chile o aguardavam no terminal. “Viemos ajudar, para que o regresso [de Guaidó] seja seguro”, disse o embaixador alemão na Venezuela, Daniel Maitel Kriener.

Mais cedo, Guaidó informara que estava a caminho da Venezuela, embora seu trajeto de volta ao país, bem como o meio de transporte, fosse desconhecido.

“Retorno para continuar trabalhando por nosso percurso e para fortalecer a pressão interna que nos permita libertar o nosso país”, escreveu ele no Twitter, além de reforçar seus apelos para que o povo venezuelano participe dos protestos contra Maduro nesta segunda e terça-feira.

Em mensagem de vídeo divulgada na noite de domingo nas redes sociais, Guaidó havia pedido à população de seu país que saísse às ruas “com muito mais força”, apesar dos riscos.

“Se o regime tentar me sequestrar, der um golpe de Estado, já deixamos os passos a seguir, primeiro com a mobilização”, disse. “E caso se atreva, será um dos últimos erros que cometerá”. Ele prometeu participar pessoalmente dos protestos na Venezuela.

Reconhecido por mais de 50 nações como presidente interino da Venezuela, Guaidó, de 35 anos, encerrou no Equador uma turnê pela América Latina que incluiu ainda Colômbia, Paraguai, Argentina e Brasil, onde se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro .

Ele deixou a Venezuela em 22 de fevereiro, quando viajou à Colômbia para participar da tentativa de entrega de ajuda humanitária a seu país por vias terrestres, que acabou sendo frustrada pelas forças do regime de Maduro.

O presidente venezuelano ameaçou prender Guaidó se ele retornasse ao país, acusando-o de ter desrespeitado uma proibição judicial de deixar a Venezuela. Devido à ameaça, o retorno do oposicionista vinha sendo visto com preocupação por observadores internacionais.

O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, havia advertido mais cedo que os Estados Unidos e a comunidade internacional lançariam uma “resposta forte e significativa” contra “quaisquer ameaças ou atos contra o retorno seguro” de Guaidó.

A União Europeia (UE) fez um alerta semelhante no sábado, ameaçando o regime de Maduro com consequências. “Qualquer medida que comprometa a liberdade, segurança ou integridade pessoal de Guaidó irá gerar um acirramento das tensões e será condenada com firmeza pela comunidade internacional”, afirmou a chefe de política externa da UE, Federica Mogherini.

O governo brasileiro também expressou preocupação com a segurança de Guaidó, dizendo esperar que sua volta à Venezuela ocorresse “sem incidentes” e que seus direitos e segurança “sejam plenamente respeitados por aqueles que ainda controlam o aparato de repressão do regime”.

Em visita ao Equador no sábado, Guaidó já havia anunciado seu retorno à Venezuela, convocando manifestações contra Maduro para esta segunda e terça-feira.

“Anuncio meu retorno à casa a partir do Equador, país irmão, que hoje também reinicia relações produtivas entre nossos povos, para enfrentar não só a crise migratória, mas também o flagelo da corrupção”, disse ele ao lado do presidente equatoriano, Lenín Moreno, em Salinas.

O autoproclamado presidente interino pediu ao povo venezuelano que tome as ruas “na segunda e terça-feira, apesar de também ser carnaval na Venezuela”, considerando que “hoje temos pouco a comemorar e muito a fazer”. “Por isso vamos pedir protestos nesses dias. Sempre dentro da Constituição”, acrescentou.

Em seu discurso, pediu que as autoridades venezuelanas participem dos protestos e voltou a prometer anistia aos militares que deixarem de cooperar com o chavismo. Apesar de recentes deserções de soldados, Maduro ainda conta com o apoio da cúpula das Forças Armadas.

Em 23 de fevereiro, o regime chavista reprimiu as tentativas de entrada de assistência ao montar bloqueios militares nas fronteiras com o Brasil e com a Colômbia. Confrontos entre soldados e manifestantes favoráveis à entrega de ajuda deixaram mortos e feridos.

Neste domingo, aumentou para sete o número de mortos nos conflitos, depois que o indígena venezuelano Jorge Javier Gonzalez Parra, de 40 anos, morreu no Hospital Geral de Roraima, onde estava internado.

Guaidó é presidente da Assembleia Nacional, órgão que representa o Poder Legislativo da Venezuela, de maioria opositora, mas cujos poderes foram suprimidos pelo regime de Maduro. Ele se autoproclamou presidente interino do país no fim de janeiro, sendo legitimado por mais de 50 países, entre eles os Estados Unidos, o Brasil e vários outros da região.

Potências como China e Rússia, por sua vez, seguem respaldando Maduro. No domingo, Moscou afirmou que fará “tudo que estiver a seu alcance” para impedir uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela. A opção militar, contudo, já foi descartada pelo próprio Grupo de Lima, formado por uma maioria de países das Américas que defendem a queda de Maduro.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

Compartilhar postagem