Evo Morales: “Os EUA não admitem independência no seu quintal”

Presidente da Bolívia deposto pelos militares teme um novo golpe caso o seu partido, o MAS, reconquiste a Presidência em maio

O ex-presidente boliviano Evo Morales. Foto: Bertand Langlois/AFP

O ex-presidente boliviano Evo Morales. Foto: Bertand Langlois/AFP

Mundo

Evo Morales reaprendeu a coar café e a costurar as próprias roupas, mas ainda não se acostumou com o exílio que dura três meses. “Por mais que haja solidariedade e apoio, a gente está sempre com a cabeça na família boliviana”, suspira. Na segunda-feira 10, o presidente da Bolívia deposto pelos militares embarcou em um voo para Cuba, um breve interregno na estada na Argentina, após passagem pelo México. Candidato ao Senado, Morales comanda a distância a campanha de Luis Arce, ministro da Economia no período mais próspero da Bolívia (em pouco mais de 13 anos dos mandatos do MAS, o país cresceu, em media, 5% ao ano). O sindicalista entra, porém, na disputa com o pé atrás e não descarta um novo golpe, a depender do resultado das urnas. “Os Estados Unidos não fizeram tudo para que seus aliados fiquem sete ou oito meses no poder e o devolvam a nós”, afirma o ex-presidente na entrevista exclusiva concedida na capital argentina.

 

Carta Capital: O senhor acredita que os resultados das eleições em maio serão respeitados?

Evo Morales: Os golpistas afirmam que vão respeitar as regras e realizar eleições livres. Espero que assim seja. A prática tem, no entanto, sido outra. A perseguição continua. Um deputado do MAS, militante social, Gustavo Torrico, acaba de ser detido. Ele disse uma frase interessante: “Se me prendem por ser do MAS, prefiro que me condenem à prisão perpétua”. Enviamos apelos à ONU e a vários governos para que realmente defendam a democracia na Bolívia. Solicitamos uma missão que acompanhe o processo eleitoral desde já e não só nos últimos cinco dias de campanha.

 

CC: O senhor acha que o MAS, se vencer as eleições, voltará ao poder de maneira tranquila?

EM: A batalha se dará após as eleições. Antes disso pode haver fraude. Em 20 de outubro do ano passado, quando venci no primeiro turno, não houve. Se houve, ela partiu da Organização dos Estados Americanos, que atuou para desestabilizar o processo. Essa foi a verdadeira fraude. E não descarto outro golpe de Estado. O investimento e as consequências para me tirar do poder foram altos. Deixaram um saldo de 30 mortos em dez dias. Elas chegam a 36 neste momento. Um decreto autoriza as Forças Armadas a atirar impunemente em quem protestar. Não acredito que tudo isso tenha se dado por nada. Os Estados Unidos não fizeram tudo para que seus aliados fiquem sete ou oito meses no poder e o devolvam a nós. O povo está, no entanto, atento. Sabe que é preciso erradicar o ódio, o racismo, a discriminação, acabar com todas as formas de violência exercidas pelos golpistas.

 

CC: O seu partido, o MAS, lidera as pesquisas eleitorais. Isso o surpreende?

EM: Sou candidato ao Senado e prefiro não comentar as pesquisas. Festejo a simpatia que o povo tem por nós, a deferência que tem com um instrumento político a favor da soberania. Festejo, sobretudo, o reconhecimento popular aos resultados de quase 14 anos de governo.

O escolhido. Luis Arce, ex-ministro da Economia, é o candidato do partido na disputa.

CC: Por que o candidato do seu partido será o ex-ministro da Economia Luis Arce e não o líder sindical Andrónico Rodríguez, que liderava as pesquisas?

EM: Tínhamos quatro pré-candidatos, David Choquehuanca, Andrónico Rodríguez, Luis Arce e Diego Pary. Promovemos um debate profundo entre os militantes do MAS e o nome de Arce se impôs a partir de um ponto de vista econômico. Comento algumas intervenções. Comerciantes de Villazón, na fronteira com a Argentina, disseram: “Nossos companheiros só falam de Luis Arce”. Além disso, em poucos meses, as tarifas de energia elétrica subiram, o dólar foi às alturas, a exploração de nossas fontes de energia está liberada aos Estados Unidos. Houve um profundo retrocesso. O povo está angustiado com a situação de penúria. Em seis dos 13 anos do meu governo, a Bolívia foi o país que mais cresceu na América do Sul. Inédito. Nunca tínhamos aparecido nos primeiros lugares antes de eu tomar posse. Em 2005, éramos os penúltimos, à frente apenas do Haiti. O “Lucho” fez parte dessa equipe. Foi um dos responsáveis pelo crescimento contínuo do PIB e a melhora da vida dos bolivianos.

“A batalha se dará após as eleições. Antes disso pode haver fraude”

CC: Da última vez que conversamos, o senhor afirmou que o golpe não se deu contra os índios, mas para ter acesso ao lítio…

EM: Foi também contra o índio. Eles não aceitam que o movimento indígena demonstre que outra Bolívia é possível. Mudamos a matriz econômica do país. E o fizemos sem recorrer ao Fundo Monetário Internacional. Os Estados Unidos não admitem essa independência no seu quintal. Mas há outras razões. Em 2008, 2009, fui convidado para visitar uma fábrica de baterias de lítio recém-inaugurada na Coreia do Sul. Fiquei surpreso, pois os sul-coreanos não têm reservas de lítio. Perguntei quanto pagavam pelo produto e me responderam: 300 milhões de dólares. Fiz então uma proposta para que fabricassem baterias na Bolívia. Disseram não. Muitos países querem que a América Latina nunca deixe de ser uma mera fornecedora de matéria-prima. Empresas alemãs também se recusaram a produzir no meu país. No ano passado, tínhamos a previsão de exportar cerca de 200 mil toneladas de lítio. Em 2020, está programada a inauguração de uma fábrica de carbonato de lítio. O plano anterior era investir nessa indústria, inaugurar 41 plantas, chegar à produção de 400 toneladas, mas os Estados Unidos estavam de olho, não queriam ficar de fora. Nosso plano para o futuro é um sistema energético baseado no lítio, sem a participação dos americanos.

 

CC: O senhor se arrepende de ter concorrido a um quarto mandato?

EM: Fizemos em pouco mais de 13 anos o que nunca tinha sido feito antes. Quando assumi o governo, nossas reservas internacionais eram de 1,7 bilhão de dólares. Em 2015, chegamos a 15 bilhões, muito para um país tão pequeno, com uma população indígena. Os companheiros me diziam: “Evo continue”. Talvez, se eu não tivesse disputado as eleições, tudo o que aconteceu pudesse ter sido evitado. Obviamente, eu planejava ganhar e ganhamos em primeiro turno, mas minha ideia era encerrar esta gestão em 2025 e retornar a Cochabamba. Abrir um restaurante, sentar e recordar meus tempos como político. Vieram, porém, me provocar com este golpe de Estado…

Cobiça. A Bolívia tem uma das maiores reservas de lítio do planeta e apostava em um desenvolvimento autônomo

CC: Por falar em provocação, Jair Bolsonaro disse que “a palavra golpe só é usada quando a esquerda perde”. Como o senhor vê a posição do Brasil diante dos fatos na Bolívia?

EM: Bom, pode ser que alguns brasileiros não gostem do que vou falar, lamento, mas ainda ocorrem golpes na América do Sul. Talvez eles não sejam mais do tipo Plano Condor, que ocorram por meio do Judiciário.

 

CC: O senhor acredita que a América do Sul posse reviver em breve uma onda de governos progressistas, como no início do século?

EM: É possível. Veja só o que acontece neste momento no Chile, no Equador, na Colômbia. Há não só manifestações, mas um debate profundo em todo o continente sobre o atual modelo de desenvolvimento. Tenho muita esperança. Trabalhamos para melhorar a vida do povo e estou convencido de que aplicamos o melhor modelo. O neoliberalismo não garante vida digna às futuras gerações. Produz só mais concentração de renda.

“Talvez, se eu não tivesse disputado as eleições, tudo o que aconteceu pudesse ter sido evitado”

CC: Como o senhor avalia os aplausos a Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, durante o discurso de Donald Trump no Congresso dos EUA?

EM: Infelizmente, ainda nos imaginam como nos tempos da colônia ou da monarquia, onde presidentes eram designados. Na Bolívia, o Fernando Camacho disse: “Amanhã vamos derrubar o presidente”. O Carlos Mesa silenciou. Vieram os tanques. Portanto, eles tentam de todas as formas. E não faltam Luíses Almagros ( presidente da OEA) em tempos de colônia. Esta é a luta dos nossos povos. É essencial identificar inimigos, tanto internos quanto externos, para preservar a soberania dos povos.

Fachada. Áñez representa o interesse dos militares e dos EUA. “Não acredito que eles tenham dado o golpe para devolver o poder em sete, oito meses”, afirma Morales.

CC: Como tem sido viver longe da Bolívia?

EM: Agradeço ao México e à Argentina pela imensa hospitalidade, mas, obviamente, dói ter sido obrigado a passar por seis casas diferentes em menos de três meses. O engraçado é que, depois de 30 anos, voltei a acender um fogão. Não sabia mais como (risos). Na primeira manhã no México, fiquei sem café. Tomei um iogurte e nada mais. No dia seguinte, desci para a cozinha e procurei o acendedor do fogão. Não havia. Liguei para um companheiro e ele me explicou que o fogão era de acendimento automático. “Gire o botão, Evo, e aperte, e aí vai acender.” Depois de mais de 25 anos, lá estava eu, passando a minha roupa. É parte da vida. Não posso me queixar. Mas a pátria é a pátria. Por mais que esteja bem, que haja solidariedade e apoio, a gente está sempre com a cabeça no próprio país, na família boliviana.

 

CC: Como pretende fazer campanha a distância?

EM: Tenho feito reuniões na Argentina. Mantenho contato com o Lucho e outros.

 

CC: Quando vai voltar à Bolívia?

EM: É incerto ainda, por razões legais. Quero muito que esse momento chegue logo. Quando estava no México, perguntava-me de que forma eu seria mais útil, se exilado ou preso na Bolívia? Estou acostumado a ficar no cárcere, após tantas detenções, confinamentos, torturas. Só me faltava o exílio. Não falta mais. Tenho um compromisso com inúmeras gerações. Por isso resolvi me candidatar ao Senado. Faço pelos meus avós, que me deixaram uma herança de luta, e por quem virá.

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É jornalista e trabalha como correspondente internacional em Buenos Aires na Argentina desde 2011 para meios do Brasil, Argentina e Estados Unidos.

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