‘Nem Castillo e nem Keiko têm a predisposição democrática de aceitar uma derrota tão estreita’

Autor do livro 'O legado de Fujimori', o peruano Julio Carrión faz balanço do 2º turno entre a esquerda radical e a extrema-direita

Pedro Castillo e Keiko Fujimori se confrontam em 2º turno da eleição peruana (Foto: Ernesto Benavides/AFP e Redes sociais)

Pedro Castillo e Keiko Fujimori se confrontam em 2º turno da eleição peruana (Foto: Ernesto Benavides/AFP e Redes sociais)

Mundo

A disputa entre a esquerda radical, representada por Pedro Castillo, e a extrema-direita, reivindicada por Keiko Fujimori, polarizou o 2º turno das eleições presidenciais do Peru, depois de um 1º turno com uma avalanche de postulantes à chefia do Executivo. Castillo surpreendeu o campo progressista, que até então via Yonhy Lescano e Verónika Mendoza no topo das pesquisas. Do outro lado, Keiko Fujimori suava para superar liberais como o economista Hernando de Soto.

 

 

Castillo é reconhecido defensor de mais intervenção do Estado na economia e estímulo à industrialização via restrições do livre comércio – políticas que desagradam o mercado. Também manteve posições controversas em relação a questões de gênero. A uma jornalista, disse que “o feminicídio é produto da ociosidade gerada pelo Estado” e defendeu como políticas contra a violência à mulher o estímulo ao desenvolvimento nacional. Em coletiva de imprensa, Castillo afirmou que “o enfoque de gênero” não seria “prioridade” no seu governo.

Frases como essas incomodaram movimentos feministas, como o Demus, que anunciou voto a ele, mas sinalizou exigências de que políticas de gênero sejam levadas em conta.

Já Keiko é filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2001 — e hoje é processado por massacres e violações sexuais contra mulheres em sua gestão. Durante a campanha, a candidata defendeu um governo de “mãos de ferro”, com pautas liberais na economia e ultraconservadoras nos costumes. Chegou a escrever no Twitter que não oferece nem uma democracia, nem uma ditadura, mas uma demodura.

Na avaliação do peruano Julio Carrión, cientista político e professor na Universidade de Delaware, no Estados Unidos, Keiko Fujimori deixou claras sua agenda econômica. “É bastante claro que Keiko Fujimori defende o mercado e o modelo de livre comércio”, diz o autor do livro O legado de Fujimori (Penn State University Press, 2006).

A Castillo, porém, faltaria clareza ideológica nessa seara: não se sabe se está mais próximo de um moderado Evo Morales na Bolívia ou do radicalismo a la Hugo Chávez.

Já em relação às pautas de costumes, acredita Carrión, os dois estão bem próximos.

Confira, a seguir, a entrevista de Carrión a CartaCapital.

CartaCapital: Como explicar a chegada de Pedro Castillo ao 2º turno?

Julio F. Carrión: No 1º turno houve duas eleições. Primeiro, sobre quem seria o candidato que representaria isso que se pode chamar, de maneira genérica, a “mudança”: quem vai ser o populista da esquerda. Segundo sobre quem vai ser o populista da direita. Eu diria que, ao fim, as pessoas foram com alguém que eu chamaria de “o pacote completo”: um populista de esquerda, que vem das províncias, com características indígenas, um caráter relativamente tranquilo. E sem passado político. Nas últimas eleições do Peru, não ter um passado político foi um benefício.

Verónika Mendoza era a candidata natural da esquerda, mas ela foi percebida como uma esquerda muito urbana, cosmopolitana, e o populismo de esquerda no Peru é conservador em termos sociais. Lescano é conservador socialmente, no mesmo sentido de Pedro Castillo. Verónika Mendoza é mais progressista em questões como os direitos de minorias sexuais e o aborto.

Na dinâmica do 2º turno, o debate passou de ‘quem é o mal menor’ para ‘quem irá nos salvar’

CC: O conservadorismo de Castillo em relação ao feminismo e demandas LGBTs foi claro durante a campanha?

JFC: Ele tem, claramente, uma posição conservadora em relação a temas sociais. Isso ficou bastante claro. Vários grupos feministas que terminaram dizendo que nunca votariam em Keiko Fujimori – uma maneira de dizer que votariam em Castillo – disseram que fariam isso apesar das posições conservadoras de Castillo em relação aos direitos da mulher e das minorias sexuais.

Ele manifestou sua posição contrária à ideologia de gênero, esse fantasma dos colégios que querem fazer com que as crianças aprendam sobre opções sexuais desde pequenos. No primeiro debate com Keiko Fujimori, disse que era importante ensinar às crianças de que há somente dois gêneros, homens e mulheres.

Keiko Fujimori e Pedro Castillo estão próximos neste nível de conservadorismo social.

 

Candidato esquerdista do Peru, Pedro Castillo. Foto: Sebastian Castaneda/X07403/AFP

 

CC: Como o senhor diferencia as agendas econômicas de Pedro Castillo e Keiko Fujimori?

JFC: É bastante claro que Keiko Fujimori defende o mercado e o modelo de livre comércio, ainda que nas duas últimas semanas da campanha tenha começado uma série de ofertas de caráter populista. O caso de Pedro Castillo é uma incógnita. Obviamente, é um candidato do Partido Perú Libre, cujo líder é um marxista-leninista dos anos 1970. O primeiro plano de governo que o partido apresentou é um manifesto que poderia ser escrito naquela década, antes da queda do Muro de Berlim.

É claro que ele tem uma posição muito mais favorável à intervenção do Estado na economia. Falou, inclusive, de impor barreiras à importação de produtos peruanos, especialmente na agricultura, e em controle de preços. É claro que seu compromisso com a economia de mercado é mais tênue.

O que não está completamente claro é se ele tem uma posição, digamos, mais próxima a Evo Morales ou a Hugo Chávez. Evo Morales, apesar de se declarar um socialista, teve políticas econômicas relativamente ortodoxas. É certo que nacionalizou sua indústria energética, mas isso foi uma das únicas coisas que ele fez em termos de intervenção. A política fiscal de Evo foi bastante ortodoxa, aproveitando o boom de commodities.

A preocupação central entre os observadores não é tanto sobre suas posições, mas sobre a falta de suas posições, a falta de precisão e a inconsistência de algumas coisas que diz. Provavelmente, pode fazer algumas coisas fáceis, nas margens, mas o poder do presidente no Peru, em termos de mudar políticas econômicas, é relativamente limitado.

 

CC: Por que setores liberais decidiram apoiar Keiko Fujimori, da extrema-direita e filha de um ditador? 

JFC: Essa pergunta vai no coração da dinâmica do 2º turno, que gerou uma polarização em que o debate passou de “quem é o mal menor” para “quem irá nos salvar”. Uma mudança psicológica bastante chamativa. A campanha se tornou um “se nós ganharmos, salvamos o Peru; se o adversário ganha, o país se afunda”. Foi muito dramático nesse sentido.

As pessoas tinham que decidir sobre qual era o mais importante: os aspectos políticos associados à democracia liberal ou os aspectos do modelo econômico que Castillo põe em perigo?

Então, há uma explicação sobre por que pessoas como Mario Vargas Llosa terminaram apoiando Keiko Fujimori. Creio que elas pensavam que uma vitória de Pedro Castillo colocava em perigo a economia de mercado, apesar do perigo de Keiko Fujimori reproduzir uma ditadura. Entre a sobrevivência do mercado e a possibilidade de uma ditadura, decidiram colocar mais ênfase nas políticas de mercado, e por isso apoiaram Keiko Fujimori.

Um processo similar ocorreu do outro lado. Havia muitos que não confiavam ou não estavam de acordo com as políticas radicais propostas por Castillo na economia, mas viam o perigo de um governo autoritário com Keiko Fujimori. As decisões foram baseadas no que era mais importante para salvaguardar: a economia ou a democracia liberal, como ocorreu no caso do Brasil.

 

A candidata de extrema-direita Keiko Fujimori, em campanha presidencial. Foto: Ernesto Benavides/AFP

 

CC: Há possibilidade de que o candidato derrotado não aceite o resultado? 

JFC: Esse é o perigo que estamos neste momento. Nem Pedro Castillo, nem Keiko Fujimori têm a predisposição democrática de aceitar uma derrota tão estreita. Isso, realmente, está preocupando muitos observadores da política peruana.

Ontem, havia alguns chamados por conta dos apoiadores de Castillo, que diziam que a única razão pela qual poderiam perder seria pela fraude. Keiko Fujimori tem sido um pouco mais controlada, porque, obviamente, é uma candidata com mais experiência eleitoral, mas temos que recordar que, nas eleições de 2016, ela se negou a aceitar a derrota frente a Pedro Pablo Kuczynski, três ou quatro semanas depois. Ela sabe que uma derrota neste caso não somente pode acabar com sua vida política, mas que também pode fazê-la passar por alguns anos de prisão, por estar sob processo.

Creio que há um potencial de que reclamem de fraude, que isso explique suas derrotas. Sou um pouco pessimista. Espero que não ocorra, mas é factível.

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Repórter do site de CartaCapital

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