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Derrota no Chile: Descuido com a opinião pública abriu espaço para incertezas e fake news, diz sociólogo

Em entrevista a CartaCapital, Francisco Astudillo Pizarro enumera fatores que contribuíram para o desprestígio da Convenção Constitucional

Foto: Marcelo Segura / Chilean Presidency / AFP
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O Chile rejeitou o seu novo texto constitucional uma semana antes do 49º aniversário do golpe que levou o ditador Augusto Pinochet ao poder. Na marcante efeméride de 11 de setembro, o presidente Gabriel Boric voltou a mencionar publicamente a necessidade de elaborar uma Carta Magna para dar efeitos concretos aos protestos de 2019 que culminaram na derrubada da Constituição do golpe militar.

“Estou profundamente convencido de que, durante o nosso período, teremos uma Constituição da qual todos e todas, além de nossas diferenças, nos sentimentos orgulhosos”, declarou Boric, em uma cerimônia de homenagem aos presos políticos e desaparecidos pela ditadura.

Nos últimos dias, após a rejeição do novo texto constitucional, o presidente decidiu trocar a chefia de ministérios importantes do governo. Mas o mais importante neste momento é saber como vai se dar a elaboração do documento. Senadores do partido Renovación Nacional já dizem em público que não apoiam a eleição de uma nova Convenção e propõem que a escrita seja realizada por uma comissão de especialistas.

Para o sociólogo Francisco Astudillo Pizarro, do Instituto de Geografia da Universidade de Buenos Aires, a convenção foi alvo de um discurso de desprestígio sobre os trabalhos por diferentes motivos, muitos deles injustos.

Houve um erro de diagnóstico e, por consequência, um erro de execução política na comunicação

Ao mesmo tempo, o especialista, que acompanhou com olhos atentos todo o processo, diz reconhecer erros na atuação dos defensores da aprovação do novo texto.

“Houve certamente um descuido sobre a opinião pública, num sentido mais político”, avalia. “E isso deixou um espaço aberto para a proliferação de tergiversações e notícias falsas.”

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: É possível apontar erros da Convenção?

Francisco Astudillo Pizarro: Essa dimensão está em um contexto de um bombardeio de informações falsas. Grandes setores envolvidos se viam muito afetados com a implementação de uma nova Constituição. Além disso, a recepção que o discurso da rejeição teve por parte de amplas camadas da sociedade também se viu refletida no resultado. Nesse contexto, houve erros de distintos grupos e instituições que fizeram parte do processo constituinte.

Foi muito sintomática e ilustrativa uma declaração dada pela presidenta da Convenção Constitucional, María Luisa Quinteros. Em determinado momento, ela foi questionada por conta de uma consulta que parecia mostrar maior predisposição da opinião pública para a rejeição ao processo constituinte. E ela disse que a opinião pública não lhe deixava muito preocupada, e que estava muito mais interessada no que via dentro de organizações locais e comunitárias. [Em entrevista à CNN Chile, em 22 de maio, Quinteros disse que “as pesquisas são valiosas porque ajudam a ver como seguimos melhorando, mas não é o fim da Convenção trabalhar em função das pesquisas”.] 

O sociólogo Francisco Astudillo Pizarro. Foto: Reprodução

Mas nesse compromisso com seus territórios, com suas bases e seu grupo de apoio, houve certamente um descuido sobre a opinião pública num sentido mais político. E isso deixou um espaço aberto para a proliferação de tergiversações e notícias falsas.

Creio que isso dá conta, também, de uma lógica dos movimentos sociais, que buscam se aproximar da comunidade, mas a comunidade não necessariamente é representativa dos atores sociais e de toda a sociedade, que é muito mais complexa. Houve um erro de diagnóstico e, por consequência, um erro de execução política na comunicação que se levou a cabo com a Convenção Constitucional.

Eu identificaria uma sorte de elementos que contribuíram gradualmente a gerar um clima de rejeição. Mas não se pode compreender essa rejeição sem o bombardeio a respeito de certas dimensões.

CC: Houve também a avaliação de que parlamentares faziam “espetáculo” nas sessões, apresentando propostas que não tinham apoio para serem aprovadas.

FAP: Eu separaria os fatores. Creio que houve propostas radicais e que não tinham apoio. Agora, o que efetivamente ocorreu é que muitas dessas propostas radicais não foram aprovadas porque, para aprovar uma norma na Convenção Constitucional, requeria-se 103 votos de 154. Porém, essas normas foram amplificadas por veículos de comunicação e, de fato, muita gente acreditou que essas normas foram aprovadas, porque não estavam acompanhando a Convenção de forma permanente.

O presidente do Chile, Gabriel Boric. Foto: Martin Bernetti/AFP

Houve uma responsabilidade muito importante dos constituintes que apresentaram essas propostas, porque muitos deles entendiam que não seriam aprovadas, simplesmente as apresentaram para se dar um gosto ideológico. Foi um erro, porque, ainda que não aprovadas, essas propostas constitucionais ficaram no imaginário midiático e foram um duro golpe ao prestígio à Convenção. Mas não estou de acordo com o termo de “política de espetáculo” da Convenção. Creio que essa foi uma construção midiática dos meios hegemônicos.

CC: Como essa impressão de “espetáculo” se popularizou na prática?

FAP: Eu tenho visto nas ruas, conversando com gente que apoia a rejeição, que muitos falavam em Rodrigo Rojas Vade, que foi um constituinte que saiu da Convenção porque se descobriu que ele havia mentido, porque fez uma campanha afirmando que ele tinha um câncer e descobriu-se que era falso. [O caso do falso câncer foi revelado em 2021 pelo jornal chileno La Tercera.] Ele havia feito uma campanha como vítima de um sistema de saúde neoliberal, e como isso era uma mentira, obviamente foi um golpe muito forte para a Convenção e, sobretudo, para os movimentos sociais. Isso gerou uma perda de confiança muito grande.

Agora, o que é certo é que Rojas Vades saiu da Convenção. Fez-se todas as gestões necessárias para separá-lo de suas funções e, uma vez possível, restituíram-se inclusive os recursos que foram entregues a ele como remuneração. Mas parece que as pessoas se esqueceram disso. Por que destaco isso? Porque a Convenção fez algo que não tem ocorrido no Parlamento que temos atualmente – e que acusa a Convenção de política de espetáculo. Deputados têm sido imputados por casos de corrupção e se defendem somente pelo foro parlamentar.

Há uma articulação discursiva que instalou na sociedade uma ideia de espetáculo. Isso também se reforça com um personagem que emerge das mobilizações de outubro de 2019, Giovanna Grandon, mais conhecida como “Tia Pikachu”, uma pessoa que ia aos protestos vestida desse personagem da série japonesa [Pokémon]. Ela participou da eleição da Convenção Constituinte e obteve uma cadeira. É muito comum que parte do desprestígio da Convenção está ligada à “Tia Pikachu”, supostamente porque ela ia fantasiada às sessões, e isso é falso. Grandón foi fantasiada em uma oportunidade, mas ela esteve trabalhando de fato em todas as outras sessões.

Esses casos se juntaram a outro muito comentado, em que um constituinte, numa votação por Zoom, estava no banho. [Em maio, o deputado constituinte Nicolás Nuñez, da Frente Regionalista Verde Social, pediu para votar apenas por voz, porque estava no chuveiro.] 

Em termos sociológicos, quero destacar que a Convenção Constitucional do Chile é uma das poucas instituições contemporâneas que surgiram num contexto de transparência tecnológica e midiática. Nesse sentido, a Convenção se viu muito exposta, e muitos participantes não tinham experiência política. Isso era traduzido como uma falta de seriedade, com a etiqueta da política do espetáculo.

https://twitter.com/cooperativa/status/1420891149280190464

CC: A esquerda chilena está reconhecendo os próprios erros?

FAP: Depois do resultado, eu me reuni com organizações políticas e movimentos sociais, começamos a fazer uma reflexão autocrítica, mas eu não posso dizer o mesmo a nível nacional. Agora, isso não pode ser entendido como uma derrota da esquerda, porque na realidade o Apruebo não é necessariamente a esquerda tradicional chilena [Pizarro se refere ao movimento pela aprovação da nova Constituição]. Mais de cem cadeiras das 155 foram ocupadas por setores independentes, que representam novas lógicas de organização e não necessariamente se aglutinam dentro do eixo esquerda ou direita. Mas sim, eu sinto falta de uma autocrítica aguda.

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