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Condenados por genocídio têm reabilitação em Ruanda

Governo Paul Kagame oferece programa de reintegração a 20 mil que cumprem pena por participarem dos massacres de 1994 contra a etnia tutsi. Iniciativa visaria aliviar superpopulação carcerária e promover reconciliação

Cerca de 1 milhão foram mortos em Ruanda em 1994, a maioria, tutsis Foto: Ben Curtis/AP Photo/picture alliance
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Joseph Ndagijimana, da Província do Norte de Ruanda, é um dos presidiários esperando serem libertados após cumprir pena por sua participação no genocídio de 1994, quando, em apenas 100 dias, estima-se que foram massacrados no país cerca de 1 milhão, a maioria da etnia tutsi.

Ndagijimana, que participou da chacina de seus vizinhos tutsis, diz saber que reintegração exigirá aceitação e confiança da sociedade: “Em breve vou terminar a minha sentença. Estou pronto para ir para casa e procurar perdão, porque eu mudei.”

Ele pretende confrontar seu passado honestamente: “Vou também revelar para os meus concidadãos a nova direção da minha vida: dar as mãos aos ruandenses para fazer boas ações e evitar os erros passados que me colocaram aqui.”

Ao todo, mas de 20 mil participantes do genocídio estão recebendo o treinamento para reabilitação desenvolvido pelo governo do presidente Paul Kagame. Elegíveis para esse programa são os condenados a 20 a 30 anos de prisão. O governo em Quigali planeja libertar até 2.500 presos por ano, também com a finalidade de combater a superlotação das penitenciárias.

Como encarar as vítimas do passado?

A reabilitação não é uma trajetória fácil. Segundo o funcionário do Serviço Correcional de Ruanda Jean Bosco Kabanda, o currículo a que os ex-presidiários se submetem contém elementos de crescimento pessoal para auxiliá-los a reconstruírem suas vidas e reencontrar um lugar na comunidade.

“As aulas de reabilitação que damos os ajuda nessa nova jornada. Não temos dúvidas de que eles vão se conduzir devidamente quando finalmente se reintegrarem na sociedade.”

Ex-presos que já voltaram para casa relatam que a educação e orientação recebidas os ajudaram a reencontrar suas respectivas comunidades, segundo Kabanda. No passado, porém, a soltura de culpados de genocídio desencadeou ira entre os sobreviventes de 1994. Muitos temem que eles voltem a matar por motivos étnicos.

Para presidiários como Thomas Hategikimana, que cumpre pena de 30 anos e conta ser libertado dentro de dois, a preocupação é como encarar as vítimas dos próprios atos: “Eu conto em encontrar gente que talvez esteja sofrendo a dor que eu causei. Nem estou certo se estão vivos.”

Alguns de seus vizinhos vivem a apenas poucos metros de distância: “Duvido se vou ter a coragem de pisar naquela aldeia. É duro, é por isso que estou apelando por ajuda. Espero que [os vizinhos] me aceitem.”

Homem reza diante de numerosas caveiras de vítimas de genocídio de Ruanda Muitos se indignaram com a perspectiva de ver os perpetradores do genocídio de volta à sociedade ruandense Foto: Sayyid Abdul Azim/AP/picture alliance

Recuperando a esperança

Margaret Mahoro, atuante na ONG Inter-Peace, que colabora com o governo para reabilitar e realocar esses condenados, afirma que através da iniciativa governamental muitos recuperaram a esperança.

“Através desses programas, eles ganharam esperança de uma vida fora da prisão. Em vez de pensarem em suicídio depois da pena, eles agora falam sobre como conviver melhor com outros membros da sociedade.”

Mahoro está convencida de que grande parte dos reabilitados quer se arrepender e coexistir pacificamente: “Antes, a maioria estava se debatendo com ideias de suicídio, a sensação de rejeição, e simplesmente preferia permanecer no cárcere.”

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