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Beirute vive: a cidade se refaz da guerra civil e resgata a tolerância

As fotos que estão aqui são de uma ambiciosa mostra fotográfica que estreou em Paris e vai itinerar por outras capitais europeias

Foto: Vianney Le Caer
Foto: Vianney Le Caer

Robert Fisk, histórico correspondente do londrino The Independent no Oriente Médio, descreveu assim o encanto duplo que Beirute teve e que, depois da tempestade, está buscando recuperar. “Quando eu chegava vindo da Europa, sentia o calor opressivo, suarento, via as palmeiras desgrenhadas e sentia o cheiro do café árabe, das barracas de frutas e de carne temperada com ervas. Era o portal do Oriente. Quando eu desembarcava em Beirute a partir do Irã, por exemplo, encontrava tempo para ler jornais ingleses, podia pedir um gim-tônica no bar e escolher um restaurante francês, italiano ou alemão para jantar. Era a entrada do Ocidente.”

A tempestade: de 1975 a 1990, a encruzilhada dos dois mundos foi devastada por uma guerra civil que, além mobilizar a balbúrdias das facções internas, xiitas, sunitas, drusos, cristãos, salafitas, alawitas, serviu de palco ao que seria o último embate da Guerra Fria, entre os Estados Unidos e seus aliados regionais, Israel e Arábia Saudita, e a União Soviética, juntamente com o Irã e a Síria. A Turquia, os curdos, as ex-potências coloniais, o Egito, todo mundo quis tirar sua casquinha na mortandade. A guerra fez 150 mil mortes civis. Houve duas selvagens invasões israelenses. Alguns marcos históricos de Beirute, entre eles sítios arqueológicos da era romana, foram poupados. O entorno, dizimado.

Foto: Vianney Le Caer

Foto: Cha Gonzalez

A Beirute reluzente dos anos 1950 e 1960 mereceria figurar entre as pérolas da Côte francesa e da Riviera italiana se não fosse pela exuberância luxuosa que a fazia parecer muito mais com Miami Beach ou com um resort do Caribe. As cidades do Mediterrâneo, quase todas, com exceção de Nice e Montecarlo, guardam o traçado de ruelas contorcidas, típicas das vilas pesqueiras das quais elas descendem. Beirute, não: capital de um país afluente, com fisionomia francesa, cosmopolita por convicção, refúgio para veraneio de xeques árabes e magnatas levantinos, cultivava uma superioridade altiva até que o mundo veio abaixo.

Foto: Abdouni Mohamad

A diversidade cultural, étnica e religiosa assegurava um grau de tolerância inédito para um país do Islã – e continua sendo hoje o seu traço de distinção. Não dá para dizer que o Líbano é um oásis de tranquilidade absoluta, mesmo porque virou refúgio para os vizinhos conflagrados e quando menos espera recebe a carga dos mísseis da aviação israelense a pretexto de atacar guerrilheiros do Hezbollah – os quais, por sua vez, foram responsáveis pelo mais espetacular ato de violência no pós-guerra civil, em 2015, quando voou pelos ares o carro do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri e toda a comitiva. Hariri era adversário do regime sírio de Bashar al-Assad.

As fotos que estão aqui são de uma ambiciosa mostra fotográfica que estreou em Paris e vai itinerar por outras capitais europeias. Dezesseis olhares diferentes, de fotógrafos locais e franceses, retratam o rosto contemporâneo, sem cicatrizes, de uma Beirute afrontada, mas teimosamente resistente. C’Est Beyrouth, iniciativa do Instituto Libanês das Culturas do Islã, aceita o desafio com que Beirute gosta de brincar com o visitante, um jogo de ao mesmo tempo se revelar e se disfarçar. Assim, as surpresas se sucedem.

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