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“Ajuda humanitária” do Brasil alimenta barril de pólvora na Venezuela

Cruz Vermelha suspeita de plano dos EUA abraçado por Bolsonaro. Jornalista aponta cerco naval ao país de Maduro

(Foto: Federico Parra/AFP)
(Foto: Federico Parra/AFP)

Em novembro de 2017, o Brasil abriu a Amazônia ao Tio Sam pela primeira vez. Norte-americanos participaram de uma manobra militar conjunta de Brasil, Colômbia e Peru na cidade de Letícia, no Amazonas, a 600 km da Venezuela. A manobra serviu para simular ações de ajuda humanitária e de paz. O ex-ministro da Defesa Celso Amorim dizia recear que o conhecimento do terreno pelos Estados Unidos fizesse surgir um “Vietnã” na Venezuela, cujo governo os EUA querem derrubar.

Pouco mais de um ano depois, o fantasma de um Vietnã ao lado do Brasil cresceu. Em entrevista recente ao jornal mexicano La Jornada, o líder venezuelano, Nicolás Maduro, disse que seu país “se tornaria um Vietnã se um dia Donald Trump mandasse o exército dos Estados Unidos nos atacar”. E citava a existência de 2 milhões de venezuelanos armados prontos a defender o chavismo.

O governo Jair Bolsonaro dará sua contribuição para o barril de pólvora na fronteira, justamente sob o argumento de “ajuda humanitária”, aquele usado na gestão Michel Temer para convidar os EUA a entrarem na Amazônia.

Bolsonaro decidiu colocar o Brasil para participar de uma operação planejada pelos EUA de ajuda humanitária aos venezuelanos. Iniciativa norte-americana que não segue regras da ONU sobre esse tipo de ajuda. E que é vista com desconfiança pela Cruz Vermelha, referência global no assunto, por suspeita de tudo não passar de política disfarçada de bons sentimentos.

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A ajuda brasileira consiste na doação de alimentos e medicamentos. Estes serão armazenados em duas cidades de Roraima, estado fronteiriço com a Venezuela: Pacaraima e Boa Vista. Os suprimentos serão recolhidos a partir do sábado 23 por caminhões venezuelanos dirigidos por venezuelanos, sob as ordens de Juan Guaidó, chefe do Congresso e líder da oposição a Maduro.

A ação do Brasil foi descrita nesta terça-feira 19 pelo porta-voz de Bolsonaro, o general Otávio do Rego Barros. Mais cedo, o presidente havia discutido o assunto no Palácio do Planalto com a cúpula do poder em Brasília: Rodrigo Maia (Câmara), Davi Alcolumbre (Senado) e Dias Toffoli (Supremo Tribunal Federal).

Na reunião, estiveram ainda o ministro da Defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, ex-assessor de Toffoli no STF, o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para quem Trump é o “salvador da civilização ocidental”, e o do GSI, Augusto Heleno, cujos espiões monitoram a Igreja Católica com medo de um encontro de bispos com o papa Francisco para discutir Amazônia.

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Segundo Rego Barros, a entrada do Brasil na operação se dá “atendendo ao apelo do presidente encarregado Juan Guaidó” e “em cooperação com o governo dos Estados Unidos”.

O plano de “ajuda humanitária” concebido pelos EUA inclui doações colocadas à disposição de Guaidó na cidade colombiana de Cúcuta, fronteira com a Venezuela, e na ilha caribenha de Curaçao. Não se trata propriamente de uma doação à Venezuela, mas a Guaidó, para que ele faça política.

Politicagem

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Quem desconfia da politicagem é a Cruz Vermelha. Em 1o de fevereiro, representantes do mais famoso órgão de ajuda humanitária do mundo expressaram seus receios a autoridades norte-americanas, com as quais haviam se reunido.

“Não somos uma agência de implementação para um doador qualquer, especificamente para não implementar coisas que tenham um tom político”, disse logo após as conversas o diretor de operações globais do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Dominik Stillhart.

Independentemente dos planos que os EUA “tenham para ajudar o povo da Venezuela, ele precisa ser protegido dessa conversa política”, disse a chefe da delegação do Comitê para os EUA e o Canadá, Alexandra Boivin. Segundo ela, a conversa serviu também para “esclarecer os riscos do caminho que está sendo tomado, os limites de nossa capacidade de operar em tal ambiente”.

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Stillhart disse ainda que a Cruz Vermelha presta apoio em seis hospitais da Venezuela e que só participará de esforços adicionais, coordenados entre países, se estes esforços forem executados “em acordo das autoridades, sejam quais forem as autoridades”.

As Nações Unidas possuem uma resolução sobre ajuda humanitária. É de 1991, a 46/182, aprovada pela Assembleia Geral, órgão máximo da ONU, entidade que Trump e Bolsonaro acham “comunista”.

Pela resolução, ações de ajuda humanitária precisam respeitar a soberania nacional de um país, a integridade territorial das nações envolvidas e a responsabilidade destas nações na administração dos riscos que venham a ser gerados dentro de suas fronteiras.

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Um brasileiro especializado em acordos e organismos internacionais explicou à CartaCapital as razões por trás dos dispositivos da resolução da ONU. “A ajuda pode terminar sendo desviada, não há nenhuma garantia de que chegue a quem necessita e de que não seja utilizada politicamente”. Ele prossegue: “Não é à toa que organismos internacionais mais respeitados se recusam a participar de iniciativas desse tipo (planejado pelos EUA para a Venezuela)”.

Maduro não aceita a “ajuda humanitária” e promete não deixar que os alimentos e medicamentos entrem na Venezuela, por acreditar que se trata apenas de ação política contra seu governo, não de preocupação com o povo.

Para o deputado Glauber Braga, do PSOL do Rio, não há apenas politicagem, mas hipocrisia. “Os telejornais falam da tentativa dos EUA de levar ajuda humanitária à Venezuela através da fronteira. Mas é o mesmo país que está promovendo medidas econômicas de embargo para asfixiar o país. É irritante esse silêncio sobre o óbvio.”

Desde 2018, a Casa Branca já baixou diversas sanções contra a Venezuela. Norte-americanos foram proibidos de negociar títulos públicos e ativos venezuelanos. Bancos locais foram proibidos de emprestar dinheiro ao governo da Venezuela e à petroleira PDVSA, principal fonte de receitas daquele país. A Citgo, filial da PDVSA nos EUA, não pode mais mandar grana para a matriz.

Em um dos informes sobre a sanções, a Casa Branca dizia: foram “cuidadosamente calibradas para privar o regime do presidente Nicolás Maduro de uma fonte essencial de financiamento”.

Diante da resistência de Maduro em aceitar as doações, pode haver conflito sério nas fronteiras com Brasil e com a Colômbia, caso os caminhoneiros de Guaidó forcem a barra para entrar na Venezuela carregados de doações do Brasil e dos EUA. Surgiria daí o “novo Vietnã”, de que falaram Celso Amorim e Maduro?

“O poder militar americano está se aglomerando silenciosamente perto da Venezuela” é o título de um artigo publicado em 13 de fevereiro, no jornal norte-americano Washington Examiner. “Uma significativa presença naval e marinha dos EUA está agora operando nas proximidades da Colômbia e da Venezuela. Seja por coincidência ou não, esses destacamentos proporcionam à Casa Branca uma gama crescente de opções”, diz o texto, de autoria do jornalista Tom Rogan.

A propósito: este ano, um general brasileiro será vice comandante da divisão dos EUA para Caribe e América do Sul, o Comando Militar do Sul. É inédito. A revelação foi feita pelo chefe do Comando, almirante Craig Faller, em documento ao Senado norte-americano no dia 7. A participação dos EUA na Amazônia em manobra conjunta com Brasil, Colômbia e Peru foi combinada e executada em parceria com o Exército Sul dos EUA, uma subdivisão do Comando hoje nas mãos de Faller.

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