A relação obscura entre Trump e Kiev pode desaguar em impeachment

O presidente norte-americano buscava um trunfo eleitoral: ele pressionou o ucraniano Zelensky a investigar o adversário Joe Biden

A relação obscura entre Trump e Kiev pode desaguar em impeachment

Mundo

Para quem compartilha com o cover sul-americano Jair Bolsonaro uma obsessão pelo combate ao socialismo, não deixa de ser um desvio patológico a maneira como Donald Trump se relaciona perigosamente com ex-repúblicas soviéticas. A obscura intervenção russa durante as eleições presidenciais de 2016 provocou uma enorme dor de cabeça ao republicano, beneficiário da campanha cibernética empreendida contra a adversária Hillary Clinton. Encerrado em março deste ano, um inquérito sobre a interferência de hackers a serviço do Kremlin na disputa, conduzido pelo procurador especial Robert Mueller, não foi capaz de levar ao indiciamento do presidente dos Estados Unidos, embora tampouco o tenha declarado inocente. “Bem, a conclusão indica que o presidente não foi absolvido dos atos que supostamente cometeu”, declarou Mueller em uma audiência pública em julho. 

“Com base na política do Departamento de Justiça, decidimos que não iríamos determinar se o presidente cometeu um crime. Essa foi a nossa decisão na época e continua a mesma.” Sem o indiciamento, a oposição desistiu de investir contra o ocupante da Casa Branca.

As coisas mudaram desde então em Washington. Na terça-feira 24, enquanto Trump prometia a defesa do “mundo livre” na Assembleia-Geral da ONU e reservava palavras especiais ao Irã, o inimigo do momento, a presidente do Congressso, Nancy Pelosi, anunciava a abertura de um processo de impeachment contra o republicano, que se limitou a repetir o argumento repisado durante a investigação da interferência russa. O pedido, rebateu, é uma nova “caça às bruxas” liderada pelo Partido Democrata. Desta feita, indicam gravações telefônicas, Trump pressionou o mandatário da Ucrânia, Volodymir Zelensky, a apurar se Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, mandou encerrar uma investigação de uma empresa de um oligarca ucraniano com potencial para atingir seu filho, Hunter, funcionário da companhia.

No telefonema, mostram as transcrições que embasaram o pedido de impeachment, o presidente dos EUA sugere a Zelensky valer-se do auxílio de Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, e do procurador-geral, William Barr, durante a investigação ilegal. “Fala-se muito sobre o filho de Biden, que Biden interrompeu a investigação e muitos querem descobrir isso”, teria afirmado Trump. “Então o que quer que você possa fazer com o procurador-geral, seria ótimo.” Mais adiante na conversa, teria insistido: “Biden saiu por aí se vangloriando de ter impedido a investigação, então, se puder conferir isso… Parece horrível para mim”.

Zelensky teria prometido ao americano conversar a respeito com o procurador-geral de seu país. De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal, no intuito de pressionar o líder europeu, a Casa Branca suspendeu poucos dias antes do telefonema o repasse de 400 milhões de dólares em apoio militar. Biden lidera as pesquisas entre os democratas e desponta como o mais provável adversário de Trump nas eleições presidenciais do próximo ano. “É uma quebra da Constituição”, declarou Pelosi. “O presidente precisa ser responsabilizado. Ninguém está acima da lei. Portanto, hoje anuncio que a Câmara dos Deputados está avançando com uma investigação oficial de impeachment.” Líder do Comitê de Inteligência da Casa e inicialmente refratário ao prosseguimento do inquérito, Adam Schiff reforçou a posição da colega. “Se o presidente está essencialmente retendo ajuda militar ao mesmo tempo que tenta coagir um chefe estrangeiro a fazer algo ilícito, a fornecer sujeira sobre seu oponente durante uma campanha presidencial, então este pode ser o único remédio que é equivalente ao mal que essa conduta representa”, discursou.

O presidente dos EUA pressionou o ucraniano Zelensky a investigar o filho de Joe Biden, adversário nas eleições

Segundo funcionários de alto escalão da Casa Branca, as transcrições das conversas, supostamente realizadas por um software de reconhecimento de voz, não são literais e foram descontextualizadas. Afirmam ainda que Barr nunca procurou o governo ucraniano para tratar do assunto. Trump, por sua vez, admitiu ter falado sobre Biden com o presidente ucraniano, mas negou ter sugerido a investigação, além de recorrer ao discurso de vítima: “Só para vocês entenderem, é a maior caça às bruxas da história americana, provavelmente na história, mas certamente na história americana”. O republicano acrescentou: “Foi uma ligação simpática e totalmente apropriada. Sem pressão e, diferentemente de Joe Biden e seu filho, nenhum quid pro quo (trocar uma coisa por outra)”. Segundo uma consulta pública na internet feita pela plataforma YouGov, 55% dos americanos apoiariam a destituição de Trump se ficar comprovado que a Casa Branca bloqueou recursos à Ucrânia para forçar a investigação do filho de Biden ou tentou obstruir a investigação da denúncia.

O processo de impeachment serve mais como arma eleitoral para os democratas do que como uma tentativa real de derrubar Trump. São poucas as chances de o inquérito prosperar no Congresso – ao menos antes das eleições de novembro de 2020. Os democratas têm maioria na Câmara dos Deputados, mas os republicanos dominam o Senado. Na história política dos Estados Unidos, outros três presidentes enfrentaram pedidos de cassação de mandato. Richard Nixon, alvejado pelo famoso escândalo de Watergate, renunciou em 1974, antes da votação na Câmara. Tanto Andrew Jackson, em 1868, quanto Bill Clinton, em 1998, tiveram seus mandatos salvos pelos senadores depois de condenados pelos deputados.

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