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Após ação de Trump, México rejeita construção de muro na fronteira e cancela visita de presidente

por Redação — publicado 26/01/2017 11h21, última modificação 26/01/2017 15h36
Enrique Peña Nieto, presidente mexicano, cancela visita a Washington e afirma que consulados servirão de "defensorias dos direitos dos migrantes"
Ronaldo Schemidt / AFP
Enrique Peña Nieto

Enrique Peña Nieto durante discurso após as ações de Trump

Horas depois de Donald Trump confirmar a construção de um muro para dividir os Estados Unidos do México e de anunciar mais pressão sobre os imigrantes, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, reagiu às ações e declarações do novo mandatário norte-americano. Peña Nieto afirmou na quarta-feira 25 que lamenta a construção do muro e prometeu transformar os 50 consulados mexicanos nos EUA em defensorias dos direitos migratórios. Nesta quinta-feira 26, Nieto cancelou a visita que faria a Washington.

Depois que Trump assinou uma ordem executiva para reforçar o controle migratório em um primeiro passo rumo à construção do muro, políticos da oposição no México consideraram o ato uma "ofensa" e "hostilidade", e pediram a Peña Nieto uma resposta rápida, além do cancelamento de seu encontro com Trump previsto para a próxima terça-feira (31).

Peña Nieto concedeu uma entrevista coletiva e se manifestou pelas redes sociais. "Lamento e reprovo a decisão dos Estados Unidos de prosseguir com a construção de um muro que há anos, distante de nos unir, nos divide", afirmou. 

O presidente mexicano também negou que seu país vá pagar pelo muro. "E afirmo mais uma vez: o México não pagará por qualquer muro", afirmou. 

Durante as eleições de 2016, Trump se comprometeu a construir o muro, ameaçando financiá-lo por meio dos 25 bilhões de dólares que os imigrantes mexicanos enviam anualmente para suas famílias. Na quarta-feira 25, em entrevista ao canal de televisão ABC News, antes da assinatura da ordem executiva que autoriza a construção do muro, Trump reafirmou que os mexicanos vão pagar pela obra.

"Em última análise, o pagamento vai sair do que está acontecendo com o México... e vamos ser de alguma forma reembolsados pelo México, como eu sempre disse", afirmou Trump. "Estou apenas dizendo que haverá um pagamento, será de uma forma, talvez uma forma complicada", afirmou.

 

Momento delicado

A assinatura do decreto ocorre num momento em que o chanceler mexicano, Luis Videgaray, e o ministro da Economia, Ildefonso Guajardo, se encontram em Washington para dialogar sobre o novo rumo da relação com os Estados Unidos.

Em sua mensagem de quarta-feira, Peña Nieto não se referiu diretamente a este encontro e limitou-se a afirmar que "terei que tomar decisões sobre os próximos passos a seguir" depois de consultar os funcionários que viajaram a Washington.

O chanceler, que em agosto passado administrou uma polêmica visita de Trump ao México, detalhou que esteve reunido com membros da administração americana durante oito horas em um dia de "contrastes" com a assinatura do decreto, mas também com "grande disposição para trabalhar com o México".

Afirmou que a delegação mexicana expressou um "grave estranhamento" pela assinatura deste decreto justo quando começam as primeiras negociações entre os dois países. "Disseram-nos reiteradamente que aqui não houve nenhum desenho ou intenção de fazer o anúncio coincidir com nossas reuniões de trabalho (...) que é algo que estava decidido há tempos", ressaltou Videgaray.

O chanceler se mostrou inclusive otimista pelo discurso de Trump, já que, pela primeira vez, afirmou, um presidente americano reconheceu que tem responsabilidade em "deter o fluxo ilegal de armas dos Estados Unidos ao México".

A detenção pelos Estados Unidos do fluxo de armas ilegais que alimentam principalmente os cartéis das drogas foi uma das principais exigências do México, atingido por uma onda de violência relacionada ao narcotráfico.

O decreto assinado por Trump também determina destinar recursos e tomar medidas como "construir, operar ou controlar instalações para deter estrangeiros em ou perto da fronteira com o México". Trump prometeu durante sua campanha expulsar milhões de mexicanos ilegais, e o governo mexicano multiplicou suas campanhas nos Estados Unidos para orientar os migrantes sobre seus direitos.

Peña Nieto afirmou em sua mensagem que já passou instruções à chancelaria para que os 50 consulados mexicanos nos Estados Unidos reforcem suas medidas de proteção para que se tornem "autênticas defensorias dos direitos dos migrantes" mexicanos. "Nossas comunidades não estão sozinhas. O governo do México fornecerá assessoria legal, que lhes garanta a proteção necessária", disse Peña Nieto.

*Com informações da AFP