Uma escolha muito difícil, por Coronel Siqueira

Um dos grandes desgostos que tive nesta vida foi conhecer o ex-marido da minha filha Eugenia

(Arquivo/iStock)

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Humor

Um dos grandes desgostos que tive nesta vida foi conhecer o ex-marido da minha filha Eugenia. Ela, que sempre foi criada à base de muito amor e patriotismo (tendo inclusive ganhado um fuzil cor-de-rosa quando fez 15 anos), me decepcionou ao escolher o companheiro.

De cara já não gostei dele. Além de ter barba e me lembrar esses hippies tipo Che Guevara e Jesus Cristo, ele falava baixo e usava os talheres corretamente. Para piorar, durante o almoço ele contou que havia feito faculdade e lido incontáveis livros durante sua formação.

Questionei isso. Expliquei que os grupos de zap são um excelente substituto para os livros, mas ele discordou. Mostrei umas mensagens que eu tinha acabado de receber, que provavam que a vacina chinesa é parte de uma conspiração globalista do Papa com os illuminati para implantar um chip para nos controlar, criando assim uma ditadura satânico-comunista. Pedi para ele me mostrar algum livro que tivesse essa mesma informação. Como eu imaginava, ele não foi capaz. Ponto pro zap.

Os anos foram se passando e fomos vivendo assim, com pouco contato. Eu conhecia o tipo. Aprendi a farejar de longe esse tipo de gente desde os gloriosos anos de chumbo.

Mas os ânimos se exaltaram na época das eleições. Para meu desgosto, ele se recusava veementemente a aceitar Bolsonaro como a melhor opção para salvar o Brasil das garras do Lulo-Petismo Comuno-Marxista. Foram longas as discussões:

— Mas Siqueira, ele é a favor da tortura! Ele ameaçou bater numa deputada!

— Mas e o Lula? E o PT? E Pasadena, heim?

— Mas o Lula nem é candidato! Ele tá preso! E tem mais uns dez candidatos para você escolher!

— Chola mais! E o marxismo cultural? E o Paulo Freire?

— Não viaja, Siqueira, o cara é um psicopata! Ele só fala em matar!

— Você não vê o jornal? Aqueles canos de esgoto com a cara do Lula? Você sabia que o Lula roubou 200 milhões de trilhões de barras de ouro? Eu recebi pelo zap, é verdade!

— Mas Siqueira, nem tudo que está no zap é verdade!

— Ora, como não? Só falta você me dizer agora que não é verdade essa notícia que o Haddad quer inserir um capítulo sobre a Ideologia de Gênero na Bíblia! Me poupe!

Uma hora a discussão acabava, claro. Ele ficava sem ter o que dizer e fechava a cara — contra fatos não há argumentos! E eu sentia o triunfo da vitória argumentativa energizando cada célula! Nada como vencer uma discussão com um comunista em grande estilo!

Depois das eleições ele sumiu. Nem comparecia mais para os almoços de família. Uns seis meses depois, minha filha me falou que eles tinham se separado. Diz ela que conheceu um rapaz melhor no clube de tiro — agressivo, grosseiro, e que tinha um vocabulário de mais ou menos vinte palavras. Ou seja, um cidadão de bem ideal. Espero que se casem e sejam felizes para sempre!

(Só não inventa de casar no papel pra não perder a pensão, filhota!)

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Cidadão de bem, patriota, viúvo, cristão, conservador, hétero convicto, de ascendência europeia. Adoro lasanha e frutas cristalizadas.

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