Educação

Retomada das aulas presenciais acirra a violência nas escolas. O que fazer para superá-la?

Professores relatam aumento nos conflitos, indisciplina e brigas entre estudantes. Pesquisadoras ouvidas por ‘CartaCapital’ defendem acolhimento como estratégia para superá-los

Créditos: Thinkstock|
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Indisciplina, crises de pânico e ansiedade, brigas e o uso de armas. Em muitas escolas, a retomada das aulas presenciais, após os meses suspensão necessários ao controle da pandemia, tem sido marcada por desencontros e episódios violentos. A violência escolar não é novidade, mas ganhou novos contornos e proporções desde o afastamento do crianças, adolescentes e jovens da sociabilidade entre si e nas escolas.

Professores e diretores de escolas públicas e privadas narram dificuldades em reestabelecer uma rotina mínima no ambiente escolar, com o cumprimento de regras.  Os registros se acumulam em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, e outros estados.

Em São Paulo, uma profissional de uma escola localizada na Zona Leste da cidade conta a CartaCapital que presenciou, em apenas um dia, quatro brigas entre estudantes, envolvendo meninos e meninas. “Ficamos assustados, não estávamos vendo isso antes do fechamento e nem enquanto estávamos com o rodízio”, contou a servidora que preferiu não se identificar. A escola chega a receber cerca de mil alunos por turno.

“Eles estão impacientes, querendo sair da sala de aula, às vezes você vai pra lousa, um sai correndo, está descontrolado”, acrescentou. “As regras não parecem mais fazer sentido pra eles.

A percepção é compartilhada pela educadora Ana Lima, que leciona na escola estadual Walter Negrelli, em Osasco. “Eles voltaram mudados. O que eu percebo é que há uma falta de amadurecimento nessas interações. Estudantes que estão no primeiro ano do Ensino Médio, com 15 anos, mas com posturas de 14, 13 anos. Isso traz brincadeiras equivocadas, a falta de comprometimento com a escola, o não entregar atividades”.

As dificuldades também são sentidas pelas famílias. No início do ano, Denise Lima Pozenato, moradora de São Bernardo, decidiu tirar a filha de 12 anos, da escola estadual em que estudava. O motivo: bullying. A menina foi diagnosticada com estresse pós traumático, e a família optou por matriculá-la em uma escola da rede privada.

Estamos vivendo uma situação extremamente dramática do ponto de vista econômico, social. Não dá pra achar que a questão primordial agora são as crianças reconhecerem gêneros literários, diz Helena Singer

Na nova escola, a mãe se deu conta de que crianças e adolescentes estão demandando mais sensibilidade. “Ouvi um professor dizer que nunca viu um 7º ano que gostasse tanto de brincar na Educação Física, que eles pedem pra brincar de pega-pega”, constatou a mãe. “Me emocionei de verdade, eles perderam uma parte da infância, né? Eles vão precisar desse tempo para amadurecer”

A escola, conta ela, vem cobrando menos resultados dos estudantes e proporcionando mais momentos de interação entre eles. “Estão deixando eles serem crianças. Já vi piquenique coletivo, dias em que eles podem se vestir livremente, pequenas coisas para que eles reaprendam a socializar, que é uma dimensão fundamental do aprendizado”, completou Denise, que é servidora pública e atua como assistente em uma creche da região.

Em São Paulo, o governo reconhece que o aumento da violência nas escolas é uma realidade. Dados da Secretaria da Educação de São Paulo revelam aumento de 48,5% dos casos de agressões físicas nos dois primeiros meses de aula este ano, em comparação à 2019, ano em que as aulas presenciais aconteciam normalmente. No período, houve registro de 4021 casos de agressões físicas nas escolas estaduais.

São, em média, 108 casos de violência por dia letivo nas 5500 escolas estaduais, de acordo com a Plataforma Conviva, onde são registradas as ocorrências escolares.

Também há aumento de ações violentas praticadas por grupos ou gangues nas escolas – até 24 de março eram contabilizados 221 casos, contra 68 no mesmo período de 2019 – bem como aumento dos casos de bullying (77%) e ameaças (52%).

Um mapeamento feito pela rede em parceria com o Instituto Ayrton Senna apontou que 70% dos estudantes da rede – dois de cada três do 5º e 9º ano do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio – relatam sintomas de depressão e ansiedade.

Um em cada três afirmou ter dificuldades para conseguir se concentrar no que é proposto em sala de aula, outros 18,8% relataram se sentir totalmente esgotados e sob pressão, enquanto 18,1% disseram perder totalmente o sono por conta das preocupações; 13,6% ainda mencionaram a perda de confiança em si. O estudo contou com a participação de a participação de 642 mil alunos no âmbito do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP).

Em conversa com a reportagem de CartaCapital, a coordenadora da Escola de Formação e do Centro de Mídias, Bruna Waitman, reconheceu que o tema gera preocupação, e elencou programas e ações que preveem este enfrentamento nas escolas, caso do Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva SP), que, segundo a servidora, oferta a figura do professor orientador nas escolas, além do apoio de psicólogos, que atendem de modo online.

Outra estratégia, destacou, vem via a repaginação do Programa Escola da Família 2.0 que, em uma de suas frentes, prevê a abertura de escolas aos finais de semana, sobretudo em regiões mais vulneráveis, para oferta de ações de esporte, cultura, saúde, trabalho e aprendizagem. “Além disso, todas as situações de violência são apuradas. Há uma força tarefa muito grande para dar respostas rápidas e direcionamento a cada uma delas”, acrescentou.

A importância do acolhimento por parte das escolas

Para pesquisadoras ouvidas por CartaCapital, os problemas enfrentados pelas escolas têm a ver com a própria organização escolar, que se manteve inalterada – e, agora, contrasta ainda mais fortemente com o momento vivido pelos estudantes e seus profissionais. A defesa é a de que as escolas deveriam privilegiar o acolhimento.

“Ao longo da pandemia, se criou uma expectativa de que a escola voltasse em outro modelo, mais acolhedora, repensando a sua forma de ser, ensinar. Só que elas não só não mudaram como se apresentam completamente aflitas com o fato de crianças, adolescentes e jovens terem perdido esses anos de escolaridade”, avalia a socióloga, pesquisadora e coordenadora da área de Estudos sobre Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Miriam Abramovay. “Muitas [escolas] se colocaram diante disso com tal afã que estão deixando de lado temas essenciais como o acolhimento.”

O entendimento é partilhado pela coordenadora do Movimento de Inovação na Educação, Helena Singer. “Era esperado que eles voltassem a esses espaços com problemas de saúde mental, questões psicológicas.”

Para as pesquisadoras, no geral, as redes escolares não utilizaram o tempo do fechamento para planejarem o seu retorno e acabaram se apoiando na estrutura estanque que, cada vez menos, dialoga com a realidade dos estudantes. “Quanto mais as escolas tentarem retomar suas atividades como antes, mais vão provocar essas reações contrárias, muitas vezes inconscientes, e que se manifestam em forma de sofrimentos, conflitos e violência”, observa Singer .

É o caso da aplicação de provas para medir conhecimento, completa ela. “É o velho formato, o velho dispositivo, de novo, ganhando prioridade. As redes insistem em aplicar avaliações com questões descontextualizadas. Não surpreende que venham os baixos desempenhos. São esses conteúdos que precisam ser trabalhados agora?”, questiona.

No ano passado, em parecer que instituía diretrizes para o retorno das atividades presenciais, o Conselho Nacional de Educação previa a realização de ‘procedimento avaliativo diagnóstico’ para que, a partir dos resultados, fossem organizados programas de recuperação. A avaliação diagnóstica pode ser feita, por exemplo, por meio de entrevistas com alunos, exercícios ou simulações, observação, consulta ao histórico escolar e questionários ou perguntas.

No estado de São Paulo, os estudantes foram submetidos à Avaliação de Aprendizagem em Processo, que compreende uma redação, bem como questões dissertativas e de múltipla escolha de Língua Portuguesa e Matemática. A avaliação é realizada duas vezes ao longo do ano letivo, em fevereiro e agosto, para alunos a partir do 2º Ano do Ensino Fundamental, Anos Finais do Ensino Fundamental e todas as séries do Ensino Médio. Segundo a Secretaria de Educação, os índices extraídos são utilizados para produzir orientações aos educadores, desenvolver programas e projetos que atuem nas dificuldades dos alunos.

Para a pesquisadora, trata-se da prevalência de postura tecnicista, agora com base no argumento de ‘perda de aprendizagem’, o qual ela refuta. “Só está em situação de perda de aprendizagem quem se encontra em situação de demência”, aponta, ao elencar descobertas feitas pelos estudantes durante os primeiros anos da pandemia, e que poderiam ser melhor utilizadas pelas instituições escolares.

Aprendemos muita coisa coletivamente, individualmente, como sociedade, nesses dois anos. Desde questões mais subjetivas, emocionais, de como lidamos com o isolamento, com as perdas, a questões mais objetivas, do que é uma pandemia, uma vacina, o SUS“, enumera. “Diferentemente se maiores ou menores, os estudantes aprenderam muito nesse período sobre pandemia, vida em sociedade, pobreza, desigualdade. Cabe às escolas resgatar essas aprendizagens e sistematizá-las“, recomenda.

Miriam Abramovay acrescenta que o trabalho pedagógico deve acontecer ancorado em projetos de convivência, que envolvam os profissionais das escolas, as famílias, e considerem a escuta com crianças, jovens e adolescentes. “Em geral, vivemos uma sociedade adultocêntrica, consultamos os diretores, os professores, os pais. Por que não os estudantes? É preciso deixar que eles falem sobre as expectativas com esses espaços, o que querem, o que não querem, para então construir soluções coletivamente”, defende.

“Vai ser muito difícil ensiná-los em um ambiente que não tenha um clima escolar acolhedor, que permita a participação deles e façam com que eles se sintam bem”, crava.

A demanda para que as escolas atuem ‘para além de seus muros’ não é nova, mas se torna ainda mais urgente no momento em que crianças, adolescentes e jovens adentram esses espaços com vulnerabilidades ainda mais acentuadas. “Ouvi o relato de uma diretora de escola de São Paulo contando sobre o caso de uma criança de 4 anos que foi deixada na escola, ninguém apareceu para buscá-la. Essa profissional tomou o cuidado de levá-la em casa e lá descobriu que a criança morava com irmãos adolescentes, uma delas já com um bebê, e que os pais morreram de Covid“, narrou Helena Singer.

As resoluções de tais questões não são responsabilidade única das escolas, reforça Helena, que entende a necessidade da articulação dessas instituições com as áreas da saúde, e da assistência social. “A demanda é por um trabalho intersetorial entre as pastas governamentais, e a  estruturação de políticas públicas adequadas”, defende. “Estamos vivendo uma situação extremamente dramática do ponto de vista econômico, social. Não dá pra achar que a questão primordial agora são as crianças reconhecerem gêneros literários”.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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