Mãe e filha mostram que é possível (e necessário) discutir temas como machismo, racismo e diversidade

O 'Sociologia para Crianças' insere famílias em discussões de temas fundamentais de forma lúdica. Projeto capta apoio para virar livro

Tatiana Amendola criou o 'Sociologia para Crianças' ao lado da filha, Alice. Créditos: Arquivo Pessoal

Tatiana Amendola criou o 'Sociologia para Crianças' ao lado da filha, Alice. Créditos: Arquivo Pessoal

Educação,Sociedade

— Mamãe, eu tenho uma dúvida, o que é machismo?

— Filha, essa é uma pergunta super difícil, mas eu vou responder. Machismo é uma palavra que é usada quando a gente quer falar de pessoas que acham que meninos são mais fortes, mais inteligentes, mais espertos ou mais capazes que as meninas, só por serem meninos. Ou quando uma menina é considerada menos forte, menos inteligente, menos esperta ou menos capaz, só por ser menina. Entendeu?

A conversa acima é protagonizada por Alice, 7 anos, e pela sua mãe, Tatiana Amendola, professora e doutora em Sociologia. As duas são protagonistas do podcast Sociologia para Crianças, feito para que famílias possam abordar temas do cotidiano com seus filhos de uma maneira mais leve e lúdica. O projeto está disponível nas plataformas digitais de áudio.

 

 

Tatiana conta que as discussões sobre temas como o machismo apareceram naturalmente na família, conforme Alice as ia demandando. “Se a criança vê o mundo, transita para além da bolha familiar e da escola, ela vai perguntar. É um processo que acontece naturalmente”, coloca.

O esforço, segundo a mãe, sempre foi o de acolher os questionamentos da criança e encaminhá-los da maneira mais completa possível.

“Ainda é comum vermos adultos minimizando os questionamentos das crianças, dando respostas para acabar com o assunto, muitas vezes por medo, incômodo ou por pressupor que a criança não está preparada para aquilo. A questão é que, com isso, vemos muitas abordagens erradas”, reconhece Tatiana.

“Por exemplo, já vi um caso em que a criança perguntava porque determinada pessoa morava na rua e o adulto respondeu ‘porque ele não trabalha’. Claro que isso está errado, temos a questão da desigualdade social, do desemprego, da falta de moradia, enfim, a gente precisa contar a história completa”, defende a mãe.

A ideia de transformar as conversas com a filha em episódios de podcast nasceu justamente com o intuito de desmistificar esse momento com as crianças. E, para isso, Tatiana dá uma dica:

“Eu não acho que seja o caso de ficarmos apresentando problemas e conceitos para a criança, isso tem de vir dela, do interesse dela. Mas nada nos impede de provocarmos gatilhos para essas discussões. Por exemplo, ao assistir um filme, questionar o que a criança mais gostou, qual cena mais chamou a atenção e ir construindo essa exploração”, coloca a pesquisadora ao pontuar a necessidade de as crianças darem vazão a suas questões, nem sempre discutidas no ambiente escolar.

“Precisamos expor as crianças a estímulos diferentes, a outros modos de estar no mundo. Isso pode fazer com que toda a família repense a educação que proporciona”. O movimento, para a educadora, é fundamental sobretudo diante o avanço de pautas conservadoras que tem tentado promover o silenciamento de pautas fundamentais já na infância.

 

“Temos visto uma afronta à nossa liberdade, à diversidade, como se a gente aniquilasse todas as conquistas adquiridas em torno da democracia, da igualdade. É muito difícil caminharmos para um ‘mundo melhor’, utilizando aqui da linguagem das crianças, sem que se respeite os direitos básicos e fundamentais”, atesta.

 

“É preciso ter claro que as crianças são impactadas com todo o retrocesso, elas não estão fora da sociedade, e, portanto, são vítimas de racismo, e demais violências”, coloca Tatiana, reforçando a necessidade de formar as crianças para uma visão crítica.

 

Conceitos, filmes e dicotomias

O podcast se propõe a amarrar todas essas questões em três temporadas. A primeira delas é voltada à apresentação de conceitos da Sociologia para as crianças. Tatiana conversa com Alice sobre o que é machismo, feminismo, família, capitalismo, desigualdade, racismo, política, democracia, religião e diversidade.

 

 

Na segunda temporada, mãe e filha continuam a construir aprendizagem acerca da Sociologia a partir de filmes infantis e temas suscitados em cada obra. No capítulo sobre Frozen, por exemplo, as duas falam sobre sororidade; em Moana versam sobre meio ambiente e a importância da história; em Enrolados, a discussão gira em torno de envelhecimento e isolamento social.

Já na terceira parte, são apresentadas as diferenças entre conceitos, partindo para o campo da dicotomia. Rico versus pobre; consumo versus consumismo; natural versus artificial são alguns dos temas encontrados.

 

Para virar livro, projeto abre campanha de financiamento  

Em paralelo às gravações dos episódios, Tatiana tem se empenhado para materializar mais uma etapa do projeto: transformá-lo em livro, garantindo mais uma etapa de aprendizagem às crianças.

“O livro nasceu da ideia de trabalhar visualmente os conceitos que as crianças encontram nos episódios do podcast e também de ampliar o espaço para a percepção delas”, explica.

Cada capítulo do livro apresenta três elementos base: um QR Code que leva para o episódio do podcast, uma imagem e frases que representam o capítulo, e uma página para que a criança possa desenhar o que entendeu. As ilustrações da obra são de Victória Garcia.

A autora criou uma campanha de financiamento coletivo para alcançar um valor que permita a impressão de 500 exemplares da obra. O valor estipulado para a campanha é de 10,5 mil reais. Até o fechamento da reportagem, o valor arrecadado era de quase 6 mil reais. A obra será lançada pela Editora Estação Letras e Cores.

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Repórter do site CartaEducação

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