Escolas privadas de Guarulhos descumprem decreto e recebem alunos presencialmente

Unidades atuam a portas fechadas, para evitar barulho e disfarçar o fluxo de estudantes

Escolas privadas de Guarulhos descumprem decreto e recebem alunos presencialmente

Educação

Pelo menos seis escolas particulares do município de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, estão burlando a lei e recebendo estudantes na fase mais crítica da pandemia. As atividades escolares presenciais na cidade estão suspensas desde o dia 17 de março.

A suspensão, segundo decreto publicado no dia 15, deve se manter enquanto perdurar a fase emergencial, decretada em todo o estado, inicialmente, até o dia 30 de março.

 

 

CartaCapital teve acesso a denúncias enviadas ao Sindicato dos Professores e Professoras de Guarulhos ao longo da semana e que atestam o funcionamento das unidades. De modo geral, as escolas atuam a portas fechadas, para não reverberar o som e disfarçar o fluxo de estudantes nos espaços. A medida vai contra as recomendações sanitárias para evitar a proliferação do coronavírus.

É o caso do Colégio Santa Cecília, localizado no Jardim Santa Cecília, e que atende Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Há informações de que a escola mantém as salas de aula com portas e janelas fechadas para evitar barulhos, reunindo de 8 a 13 estudantes, em média.

Na última publicação feita na página do Facebook da instituição, no dia 22 de março, a instituição faz menção às aulas online, mas vídeos recebidos pela reportagem no mesmo dia mostram a movimentação de familiares e crianças na porta da escola, já no fim da tarde, horário de saída dos estudantes.

 

 

Na Escola Recanto da Vovó, unidade de berçário, pré-escola e fundamental I, localizada no bairro Vila Leonor, denúncias apontam que as crianças continuam em atividades com acesso pelo prédio vizinho, local onde funciona o curso preparatório Galileo, grupo do qual a escola faz parte. Professores estariam trabalhando das 10h às 16h.

Na página do Facebook da instituição há uma publicação feita no dia 21 de março chamando para as matrículas deste ano. O texto afirma que os familiares podem agendar visitas para conhecer a unidade. A reportagem de CartaCapital entrou em contato com a escola por telefone, simulando interesse em matrículas, e perguntou se a escola está funcionando normalmente esses dias. A informação foi negada pelo professor Sérgio, que atendeu ao telefonema.

 

Segundo denúncias, a escola Recanto da Vovó recebe estudantes pelo prédio ao lado. Créditos: Divulgação

 

Ainda de acordo com as denúncias haveria funcionamento irregular nas unidades Colégio Alvorada, localizado no Parque Cidade Brasília; Núcleo Educacional Otávio Matos, no Cidade Parque Alvorada; no Colégio Pater Dominus, localizado no Jardim Presidente Dutra; e no Colégio Jardim Paulista (Escola Catavento), localizada no Jardim Paulista.

A denúncia sobre a escola Catavento aponta que “o número de alunos ultrapassa o espaço físico, não respeitando o distanciamento”. Além disso, haveria suspeitas de infecção por Covid-19 entre funcionários e alunos com suspeita de covid. O clima entre os funcionários da escola é de pressão e insegurança. “Funcionários sentem-se pressionados trabalhando com tamanha insegurança”.

A reportagem de CartaCapital foi procurada pelo diretor pedagógico do Núcleo Educacional Otávio Matos, Leandro Silva, que desmentiu as denúncias encaminhadas ao Sinpro-Guarulhos quanto ao funcionamento irregular da unidade.

“A informação não procede, por que [sic] estamos cumprindo a [sic] risca todo o decreto. Esse mesmo documento foi analisado pelo supervisor de Ensino Guarulhos/Sul e o mesmo veio até a unidade escolar observar se estávamos cumprindo o que estava no documento, e todas as informações foi passada [sic] e cumprida. Peço que essa nota de esclarecimento venha diminuir o constrangimento de receber em nosso colégio policiais da Guarda metropolitana de Guarulhos e fiscais da rede”, disse, em nota enviada na sexta-feira 26.

Em conversa com a reportagem, o diretor afirmou que vai desligar por justa causa os autores da denúncia.

 

Sindicato pede o fechamento imediato das escolas

A presidenta do Sinpro-Guarulhos, Andrea Harada Sousa, pede o fechamento imediato das unidades e afirma ter encaminhado as denúncias ao secretário de educação, Paulo Cesar Matheus da Silva, no último dia 18, cobrando providências.

Em nota, a Prefeitura de Guarulhos confirmou que recebeu as denúncias das escolas que atuam de maneira irregular, contra o decreto municipal. “A Secretaria de Educação acolheu a denúncia e entrou em contato com as Diretorias de Ensino da Rede Estadual, que realizam a supervisão dessas escolas do município. Por meio de ofício, a diretoria responsável foi alertada sobre as irregularidades. Além disso, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SDU) também foi comunicada, para que medidas cabíveis sejam tomadas, garantindo a segurança de todos”.

No dia 19 de março, o Sinpro realizou o último levantamento sobre casos de contaminação por Covid-19 nas escolas de Guarulhos. 45 unidades tinham casos, com um total de 181 infecções entre professores e estudantes. Uma das escolas que atua de maneira irregular atualmente estava na lista: o Colégio Pater Dominus, com dois professores e um estudante infectados.

No dia 14 de março, a cidade de Guarulhos atingiu 100% de ocupação dos leitos de UTI dedicados a Covid-19. O índice, segundo informações da prefeitura, chegou a 85% com a destinação de 10 novos leitos disponibilizados pela rede hospitalar privada. Nesta quarta-feira 24, 21 hospitais estaduais de São Paulo atingiram 100% de ocupação dos leitos de UTI, entre eles o Hospital Geral de Guarulhos.

 

O perigo da ‘autoregulação’ das escolas privadas

Andrea Sousa vê com preocupação a situação dos trabalhadores das escolas privadas no pior momento da pandemia e atribui isso ao que chama de uma espécie de ‘autoregulação do setor’.

No dia 11 de março, quando o governador João Doria anunciou a suspensão das aulas presenciais nas escolas estaduais, com antecipação dos recessos escolares, fez apenas uma orientação para que as escolas privadas diminuíssem a circulação de pessoas presencialmente.

“Isso abre brecha para que essas unidades continuem atuando da forma como bem entendem”, pontua a presidenta do Sinpro, destacando que, em Guarulhos, a determinação pelo fechamento das escolas privadas foi fruto de intensa mobilização do sindicato com a prefeitura.

De modo geral, ela reconhece uma pressão por parte da sociedade sobre os poderes públicos pela retomada das escolas privadas, e explica falhas contidas nas justificativas.

 

 

“Um dos argumentos utilizados vem da ideia de que as escolas privadas estão melhores preparadas para cumprir os protocolos sanitários do que as públicas. Isso é uma mentira que a gente precisa desfazer”, aponta.

“O primeiro ponto é que as escolas privadas não são representadas em sua maioria por grandes escolas, há uma diversidade, a composição delas é bastante heterogênea. Temos escolas que são de elite, que funcionam nas regiões centrais, no Jardins, e outras que estão nas periferias [caso das seis relatadas pela reportagem], escolas pequenas com condições piores do que as escolas públicas, inclusive no que diz respeito à circulação de ar”, explica Andrea.

A presidenta ainda reconhece a complexidade da crise sanitária e da crise econômica pela qual passa o País, e que faz com que os pais precisem contar com as escolas, mesmo em uma situação crítica de contágio.

“Essas escolas estão na periferia de Guarulhos. É uma situação bastante complexa, porque a perspectiva de que há famílias levando os filhos para a escola no pior momento da pandemia, por um lado, noz diz da necessidade que esses núcleos familiares têm de manter os seus empregos, ou seja, seguem forçados a levar as crianças para as escolas porque não há outro meio”, coloca.

“Isso não quer dizer que a gente esteja referendando essa atitude por parte das escolas, apenas reconhecemos a tragédia social que estamos vivendo”, complementa. “Como podemos estar diante de tal situação sem que haja um auxílio emergencial para que as pessoas possam fazer algum tipo de isolamento social?”, questiona. “Isso faz com que as pessoas tenham que escolher entre a materialidade da vida ou se preservar para evitar um eventual contágio”.

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Repórter do site CartaEducação

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