Educação

Empregabilidade de mestres e doutores é 5 vezes maior do que a média brasileira, aponta estudo

Apesar do crescimento, a participação relativa de titulados na força de trabalho nacional ainda é reduzida se comparada à dos países ricos

Foto: Mateus Figueiredo/ Reprodução/Site ANPG
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O Brasil ainda forma poucos mestres e doutores, tanto em relação à proporção de sua população quanto em comparação ao resto do mundo. No entanto, os titulados mantiveram índices de empregabilidade mais de 5 vezes superiores às taxas de emprego formal entre 2009 e 2021.

Os dados são do relatório Brasil: Mestres e Doutores 2024, lançado nesta terça-feira, dia 4, pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. O documento apresenta um conjunto de informações estatísticas sobre a formação e o emprego desses profissionais no Brasil.

No período, o crescimento do número de empregos formais para mestres foi de 139% e, para doutores, de 192%, respectivamente. Esses números são mais de 5 e 7 vezes superiores ao crescimento do emprego formal total no Brasil no mesmo período, que foi de 26%.

Para a coordenadora do estudo, Sofia Daher, esse é um movimento perene. “Considerando nossa série histórica, o número de mestres e doutores empregados apresenta um aumento persistente, mesmo durante períodos de crise econômica e pandemia”, observa a pesquisadora. Embora a taxa de emprego, que mede a absorção pelo mercado, tenha caído, essa queda é mais acentuada para a população em geral. “A taxa de emprego de mestres e doutores é mais estável e resiliente. Mesmo quando a economia apresenta uma taxa de crescimento do PIB negativa, observa-se um movimento positivo no número de mestres e doutores empregados”, completa.

O estudo considera dados de 1996 a 2021, gerados a partir da Plataforma Sucupira, mantida pela Capes, do Ministério da Educação. Já os dados sobre o emprego formal no Brasil provêm da Relação Anual de Informações Sociais, a Rais, coletada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Mulheres são maioria, mas ainda ganham menos

O estudo também constatou que as mulheres são maioria entre os titulados em cursos de mestrado e doutorado. No entanto, a distribuição das pesquisadoras não é uniforme entre as áreas do conhecimento. Elas estão mais concentradas em áreas como Linguística, Letras, Artes e Saúde, mas tem presença consideravelmente menor em áreas como Engenharia.

Os dados mostram que, a partir de 1997, as mulheres se tornaram maioria entre os titulados em cursos de mestrado no Brasil. A partir de 2003, elas também passaram a ser maioria entre os titulados em cursos de doutorado. Em 2021, a participação das mulheres no total de títulos de mestrado e doutorado foi, respectivamente, 13,6 e 11,2 pontos percentuais maior do que a dos homens.

Em 2021, aliás, o Brasil se destacou como o país com a maior participação de mulheres (55,6%) entre os titulados de doutorado.

Ainda assim, há desafios a serem superados em relação à remuneração. No caso do mestrado, as mulheres ganhavam 28% menos do que os homens em 2009, e essa diferença foi de 26,7% em 2021. No caso do doutorado, a remuneração média das mulheres em 2021 foi de 14,7 mil reais. Em 2009, as mulheres doutoras recebiam 15% menos do que os homens doutores; em 2021, essa diferença aumentou para 16,4%.

A pesquisadora entende que a política remuneratória dos pesquisadores também acaba por reproduzir a lógica salarial desigual do País.

“As mulheres ganham menos do que os homens considerando diversas variáveis. Isso acontece em todas as áreas, mas em umas as distorções são maiores do que as outras. E mesmo nas áreas de conhecimento onde há maior prevalência feminina, caso da Saúde, as pesquisadoras ganham menos do que os pesquisadores”, exemplifica a pesquisadora. A lógica também pode ser vista regionalmente. “No Sudeste, por exemplo, as mulheres ganham proporcionalmente menos do que os homens, enquanto no Norte as diferenças são menores”.

“De um total de 81 áreas do conhecimento, elas ganham menos em 69 delas”, acrescenta, destacando a importância de se cumprir a lei sancionada pelo presidente Lula (PT) que garante igualdade salarial entre mulheres e homens.

O desafio de ampliar as titulações

O estudo também destaca o desafio do Brasil em ampliar suas titulações de mestres e doutores. O número de titulados a cada ano no Brasil é relativamente pequeno quando medido como uma proporção da população brasileira, ou mesmo quando comparado aos indicadores de titulações de outros países.

No caso do mestrado, o Brasil ocupa a última posição entre 24 países em termos de titulações por 100 mil habitantes, e a antepenúltima colocação no caso do doutorado, usando a mesma referência.

O estudo também aferiu que, para cada grupo de mil pessoas com emprego formal no Brasil, em 2009, havia em média 4,5 mestres e 1,8 doutores. Em 2021, essas proporções aumentaram respectivamente 102% e 147%, resultando em médias de 9,1 mestres e 4,4 doutores por mil pessoas com emprego formal no Brasil.

Apesar do crescimento desse indicador, a participação relativa de mestres e doutores na força de trabalho brasileira ainda é muito reduzida em comparação com a média dos países da União Europeia – de 180,7 mestres e 12,9 doutores por mil empregados, em 2021.

“Ainda há um espaço importante para a absorção desses profissionais no mercado de trabalho. Temos ainda um espaço enorme de crescimento, no sentido da valorização desses profissionais e no tipo de contribuição que eles podem dar para toda a atividade econômica do País, desde a educação até a indústria”, observa a pesquisadora. “A ideia que se está formando demais não se sustenta.”

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