“Resultado do PIB é muito pior para os mais pobres”, diz economista

O resultado do PIB de 2019 foi o pior avanço em 3 anos e, segundo especialista, é o resultado de políticas ultraliberais

“Resultado do PIB é muito pior para os mais pobres”, diz economista

Economia

O Produto Interno Bruto (PIB ) do Brasil de 2019 foi divulgado nesta quarta-feira 4 pelo IBGE. O crescimento de 1,1% é o menor em três anos e resume as ações do primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, que havia prometido um crescimento superior a 2% pela aprovação da reforma da Previdência, feita em outubro de 2019.

Mais: o resultado pífio coloca em xeque as medidas ultraliberais adotadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Segundo o presidente do Conselho Federal de Economia, Antonio Corrêa de Lacerda, esse resultado já era esperado, pois nenhum pais atinge um nível de crescimento só com essas medidas. “É preciso estimular o emprego, a indústria e a renda para obter crescimento de forma forte e sustentável. É um equivoco do governo apostar só nessa politica ultraliberal como forma obter a confiança e que essa confiança traria o crescimento”, afirmou.

O economista explica também que o resultado de hoje é muito pior para os mais pobres, pois houve uma deterioração dos serviços públicos. “É o pior dos mundos, porque falta renda e você não tem apoio do Estado”, diz.

Confira a entrevista completa:

CartaCapital: Qual o motivo que levou à queda no avanço do PIB de 2019?

Antonio Corrêa de Lacerda: Aí tem uma combinação de fatores, mas eu diria que o principal deles é a politica econômica focada no liberalismo, nas privatizações, nas reformas. Isso é uma política equivocada. Nenhum país atinge um nível de crescimento só com essas medidas. É preciso estimular o emprego, a indústria e a renda para obter crescimento de forma forte e sustentável. É um equivoco do governo apostar só nessa politica ultraliberal como forma obter a confiança e que essa confiança traria o crescimento.

CC: O mercado previa um crescimento maior com a aprovação da reforma da Previdência. Por que esse crescimento não aconteceu?

ACL: Existia uma espécie de autoengano do mercado. Para o mercado é muito favorável essa visão do Guedes, tendem a acreditar nos mesmos valores do ministro. E sempre o mercado tende a produzir um autoengano, fazendo uma espécie de profissão de fé em cima da questão do crescimento. Mas o crescimento não é tão simples assim. É bem mais complexo e exige uma combinação de fatores que não estão presentes na politica econômica atual. Não tem uma politica econômica voltada ao crescimento. Tem medidas liberalizantes, mas não tem política industrial, de emprego, os programas sociais sendo desmontados. Então tudo isso vai bater onde? Temos um estoque de desemprego que chega a 26 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho e de consumo. Então o governo não tem vetores para produzir o crescimento. Por outro lado, o investimento público está no nível mais baixo da história. Essa combinação de fatores não é favorável ao crescimento e gera esse número limitado.

CC: O senhor acredita que as declarações polêmicas de integrantes do governo tiveram um impacto no resultado do PIB?

ACL: Isso tem algum impacto, mas não é o mais relevante. É claro que toda declaração gera mais incerteza, mas não é o fator preponderante. Se o governo tivesse uma politica econômica mais voltada pro crescimento e geração de emprego, isso não seria um aspecto tão relevante como foi. Então tem aí uma realidade que é dada por um quadro de extrema limitação.

CC: Qual é o impacto na vida das pessoas o resultado do PIB divulgado hoje?

ACL: Quem está fora do mercado de trabalho terá uma dificuldade enorme de se inserir. Haverá uma dificuldade muito grande de gerar renda e o mercado de trabalho será precarizado. O custo de vida, embora a inflação esteja baixo, está alto. A capacidade de compra do brasileiro está muito limitada e o resultado de hoje é muito pior para o mais pobres, pois houve também uma deterioração dos serviços públicos. Então é o pior dos mundos porque falta renda e você não tem apoio do Estado.

CC: Sobre o coronavírus, o senhor acha que essa epidemia vai interferir na economia neste ano?

ACL: Minha expectativa com o crescimento é de que vai se manter na média que vimos nos últimos três anos. Ou seja, algo muito próximo de 1,2%. Ao meu ver, a projeção do mercado (que é de 2%) ainda vai cair mais nas próximas semanas.  E o coronavírus atrapalha sim. Primeiro porque o Brasil se tornou um exportador de commodities, principalmente para China. A China está diminuindo sua demanda e isso reduz os preços das commodities.  Teremos dois efeitos, quedas de preço e queda da demanda. Então tudo isso impacta negativamente no nosso desempenho econômico aqui.

CC: Alguns economistas criticam a baixa do PIB com o excesso de gastos do governo. O senhor concorda com isso?

ACL: Não é isso. Isso tem muito a ver com a visão ortodoxa da economia. O Brasil não gasta mais que as médias dos países equivalentes. É claro que sempre existe a possibilidade de melhora nos gastos públicos, mas os problemas aqui estão associados, por exemplo, à taxa de juros. Durante muito tempo tivemos uma taxa muito elevada e isso travou o crescimento. Isso é o aspecto principal, não os gastos públicos.

Um destaque importante é que a indústria voltou a crescer, mas um crescimento baixo de 0,5%. A indústria está em uma situação muito difícil. Essa atrofia é um fato importante na restrição do crescimento.

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Repórter do site de CartaCapital

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