O cabo eleitoral

Irrelevante na recuperação da economia, Paulo Guedes radicaliza o discurso e mergulha na campanha do chefe

(FOTO: Edu Andrade/ME)

(FOTO: Edu Andrade/ME)

Economia,Política

Com desempenho pífio, o ministro da Economia, Paulo Guedes, engaja-se cada vez mais na campanha de reeleição de Bolsonaro e recorre ao mesmo roteiro do chefe, de uso sistemático da agressividade e da falácia como métodos de exercício do poder. É o que sugerem tanto o seu ataque violento ao IBGE, na sexta-feira 30, pouco depois de a instituição divulgar dados negativos do desemprego, quanto a nota técnica publicada três dias antes pela Secretaria de Política Econômica da pasta, a respeito da recuperação da economia, apresentada como “mais rápida e melhor” que as anteriores.

Questionado sobre a taxa de desemprego do trimestre encerrado em maio, de 14,6%, o que corresponde a 14,8 milhões de desempregados, e a respeito da taxa de informalidade, de 40% da população ocupada, ou 34,7 milhões de trabalhadores, Guedes disse que “o IBGE está na idade da pedra lascada”. O ministro não levou em conta que o altíssimo desemprego resulta da sua política de austeridade radical, nem que o órgão está sob a responsabilidade do seu ministério, muito menos que o estrangulamento dos recursos destinados à instituição tem a ver com o teto de gastos que ele tanto defende.

A nota técnica da SPE defende que a recuperação atual é mais rápida e melhor do que em outras crises porque teria por base o investimento privado, beneficiado por reformas feitas pelo governo. Segundo o economista Bráulio Borges, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, a recuperação atual é pior, não melhor do que as anteriores. Para o economista Guilherme Mello, professor do Instituto de Economia da Unicamp, desde 2015 o investimento público em infraestrutura e nas estatais diminuiu fortemente e a conse­quência disso é uma maior participação do investimento privado, mas em nenhuma dessas áreas é possível dizer que a ­retração do investimento público aumentou o volume geral de investimento.

 

A retomada da economia, segundo o governo, não teria a ver com políticas contracíclicas, como o auxílio emergencial e medidas de apoio às empresas, mas com iniciativas pró-mercado e de consolidação fiscal ou austeridade, que permitem reduzir os juros de modo que o capital vá para o empreendimento mais eficiente, possibilitando mudanças relevantes nos fundamentos do investimento. Borges acha “curioso” esse modo de ver, recorda que o impulso fiscal equivaleu, em 2020, a quase 8 pontos ­porcentuais do PIB potencial e mostra que a política fiscal brasileira foi fortemente expansionista e anticíclica nesta recessão, o que ajuda a explicar a retomada mais rápida do que em outras crises.

“Qual o problema em reconhecer que a política econômica foi fortemente estimulativa em 2020, uma vez que ela atuou na direção correta, anticíclica?”, pergunta o economista em artigo no blog do Ibre. É preciso notar, diz, que a recuperação mais forte do que se esperava da atividade econômica global e dos preços de commodities em particular “tem atuado como um vento de popa importante para a economia brasileira”.

Ao contrário do que diz o Ministério da Economia, a recuperação atual é pior que as anteriores

Borges chama atenção para a superestimação da formação bruta de capital fixo, indicador-chave que corresponde a novos investimentos em máquinas, equipamentos, estruturas, construções, plantações permanentes, gado reprodutor e gastos com pesquisa e desenvolvimento, entre outros. A distorção resulta das exportações “fictas” (virtuais) de plataformas de petróleo e sua posterior internalização contábil que, acrescente-se, não significa nenhum aumento na capacidade produtiva do País.

“Mesmo abstraindo da superestimação expressiva da formação bruta de capital fixo em 2020 por conta da questão das plataformas, a evolução do estoque de capital no ciclo atual tem sido claramente mais fraca do que nos demais episódios recessivos, nos quais esse estoque nem chegou a recuar”, observa o economista. “A conclusão é de que, até o começo de 2021, a ­retomada da formação bruta de capital fixo ainda não tinha sido suficiente nem mesmo para cobrir a depreciação e, com isso, gerar algum incremento do estoque de capital fixo e do PIB potencial.” A depreciação, ou desvalorização, é a perda de valor que todos os bens sofrem ao longo do tempo, por desgaste ou devido a razões econômicas.

A nota da SPE, diz Mello, não é um estudo sobre o comportamento da formação bruta de capital fixo, seus aspectos, suas determinantes e dificuldades de mensuração. Parte de uma premissa ideológica de que a recuperação econômica ocorre puxada pelo setor privado e é a mais rápida da história. “O Ministério da Economia teria muita dificuldade em mostrar isso com dados de demanda e de PIB. Na recuperação de 2010, por exemplo, o PIB cresceu 7,5%, após ter permanecido estagnado em 2009”, dispara o economista. Essa ultrarrecuperação que o Ministério da Economia está vendendo, acrescenta, apenas recompõe a trajetória pífia do pré-crise e é incapaz de recompor os estoques de empresas quebradas e os empregos destruídos. “Criam uma tese, buscam um dado que a confirme e ficam martelando. Isso é o que mais preocupa, usarem as instituições de Estado para construir narrativas que vão bombar nas redes. No meio acadêmico e mesmo no meio financeiro, esse estudo é ridicularizado, mas cria uma narrativa para as redes e a base de apoio político ao governo.”

Guedes comemora a criação de 1,5 milhão de vagas de emprego formal no primeiro semestre de 2021, segundo registro do Caged, o que recompõem, aproximadamente, os postos de trabalho com carteira assinada perdidos na pandemia, mas há outros aspectos a considerar. “Esse total de 1,5 milhão de vagas talvez diminua para 1,2 milhão no fim do ano, quando os dados do Caged são ajustados, mas ainda assim será um número forte porque também foi muito significativa a quantidade de fechamentos de postos de trabalho no ano passado”, pondera Clemente Ganz Lúcio, assessor do Fórum das Centrais Sindicais. É preciso levar em conta, diz, a existência de quase 3,5 milhões de trabalhadores que ainda estão no Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. Ao retornar do afastamento, eles são incluídos na estatística atual, mas se regressam e depois são demitidos, isso só aparecerá lá na frente.

Cenário. Nem o efeito da “exportação de plataformas” foi suficiente para maquiar os dados de investimento. A informalidade ainda é assombrosa. (FOTO: Prefeitura de Manaus/AM e André Ribeiro/Agência Petrobras)

Outro aspecto importante é a contratação de jovens de até 30 anos. Daquele 1,5 milhão de contratados, sublinha Ganz Lúcio, quase 900 mil são dessa faixa etária e os contratos são por prazo determinado, com salários menores, jornada parcial e trabalho intermitente. Entre 5% e 10% dessas contratações têm essas características. “Os novos postos de trabalho são mais frágeis, há uma tendência de que ocorra uma piora da qualidade das vagas de trabalho formal, um processo de legalização da precarização, que é o que a reforma trabalhista permitiu fazer”, diz o especialista. Dados do próprio Caged mostram que o salário médio de contratação da economia formal, de 1,8 mil reais antes da pandemia, caiu para 1,2 mil e, agora, gira em torno de 1,4 mil.

Segundo Ganz Lúcio, houve um deslocamento muito grande de atividades que não aparecem nessa história, porque foram simplesmente interrompidas. “Os cerca de 6 milhões de trabalhadores que foram para a informalidade e não voltaram ainda para o mundo do trabalho, ou da ocupação, provavelmente não estão em nenhuma estatística, a empresa simplesmente fechou, desapareceu. É possível que o Caged nem tenha registrado o fechamento do posto de trabalho, que simplesmente sumiu”, afirma. “Hoje há um total de 33 milhões de brasileiros que precisam e querem trabalhar, procuram um emprego ou tentam sair da jornada parcial.”

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1169 DE CARTACAPITAL, EM 5 DE AGOSTO DE 2021

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Editor da revista CartaCapital

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