Impacto do coronavírus na economia é imprevisível, mas já chegou ao Brasil

Exportações de commodities podem sofrer com a epidemia que assola o parceiro comercial brasileiro

Movimentação de contêineres com produtos no Porto de Paranaguá. Foto: Imprensa/GEPR

Movimentação de contêineres com produtos no Porto de Paranaguá. Foto: Imprensa/GEPR

Economia

A instabilidade vista nas bolsas asiáticas é apenas um sinal do quanto o coronavírus de Wuhan pode ter um impacto inesperado no crescimento mundial, em especial de produtores e exportadores de matérias-primas, como o Brasil. Por mais que a epidemia tenha propagação limitada em território brasileiro, o país estará vulnerável aos efeitos do surto no seu maior parceiro comercial.

Tudo vai depender da duração da epidemia. Analistas estimam que, conforme o caso, pode engolir até meio ponto percentual da perspectiva de crescimento brasileiro em 2020. A economista Mary-Françoise Renard, à frente do Instituto de Pesquisas sobre a Economia da China da universidade francesa de Clermont-Ferrand, frisa que outras ocasiões no passado já mostraram que a queda da demanda interna chinesa atinge em cheio os exportadores de commodities.

“Para os produtores de matérias-primas, é certo que não haverá outro país capaz de substituir a China. Tradicionalmente, é isso que acontece no comércio internacional, mas é preciso tempo para essa adaptação”, sinaliza a especialista. “Já não é fácil na indústria, mas quase impossível quando se trata de substituir a demanda chinesa por commodities.”

O surto se propagou em um momento nada favorável, em plenas férias do Ano Novo chinês, um dos períodos do ano de maior movimentação turística e consumo na China. O coronavírus levou Pequim a impor restrições de viagens – que resultaram em uma queda de 20% das importações de petróleo pelo país em janeiro, paralisação de fábricas.

Queda do consumo é preocupante

Além disso, em um país traumatizado por epidemias devastadoras no século passado, o impacto no consumo foi imediato, resultado da quarentena imposta a dezenas de milhões de pessoas. O maior problema, sublinha Renard, é que, nos últimos anos, a demanda interna tem sustentado o crescimento chinês – que pode ser amputado de um a dois pontos neste ano, devido ao coronavírus.

“As pessoas pararam de ir aos restaurantes, parques e eventos em geral, ou seja, gastaram menos. Uma parte dessa queda pode ser recuperada em um outro momento, daqui a dois ou três meses, mas nem tudo será compensado”, explica Renard. “O maior temor é que o consumo e a produção continuem bloqueados pela epidemia, com restrições a viagens etc. Ou seja, é uma preocupação quanto à evolução da economia chinesa em 2020.”

Transparência necessária

Neste contexto, a histórica opacidade de Pequim diante de crises não ajuda as bolsas internacionais a se tranquilizarem, observa Christophe Blot, especialista em estabilidade financeira do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE). Ele também chama a atenção para a possibilidade de a doença se propagar com força pelo mundo, o que resultaria em restrições ainda maiores de viagens e do comércio internacional.

“As bolsas não gostam de incertezas, que agora aumentaram porque não sabemos nem quanto tempo vai durar a epidemia, nem quais serão as repercussões ou de que maneira os dirigentes chineses vão bloquear os deslocamentos de pessoas e no comércio”, resume Blot.

Marie-Françoise Renard ressalta que, ao contrário de episódios anteriores, desta vez o governo chinês tem se esforçado em ser mais transparente. “Muita coisa é diferente hoje, na comparação com a epidemia de Sars de 2003. O sistema de saúde e a economia chinesa eram diferentes e o governo omitia informações, o que foi muito criticado pela população local”, relembra.

“Hoje, tudo é muito diferente porque Pequim tem um interesse enorme em mudar a sua imagem diante opinião pública interna, do mundo e das outras potências: mostrar que é responsável. Por outro lado, em 2003 o país pesava bem menos do que hoje na economia mundial.”

Petrobras e Vale abaladas

No Brasil, quem tem investimentos no mercado financeiro tem tido dias turbulentos. Os papéis de gigantes do petróleo e da mineração, como a Petrobras e a Vale, tiveram perdas de mais de 5% em janeiro. Mas José Securato Júnior, sócio da Saint Paul Advisors, acredita que o nervosismo será temporário.

“Se for curto e o problema for superado razoavelmente rápido, como em três meses, não impacta tanto as balanças comerciais e ganhamos um tempo para nos reestruturar e aproveitar melhor a oportunidade que nos foi dada. Por enquanto, as variações são normais”, afirma. “Certamente, as oportunidades vão se apresentar para aqueles que tiverem mais apetite ao risco.”

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