Guedes quer aproveitar o momento para aprovar reformas, diz economista

O coordenador do Conselho Federal de Economia, Fernando de Aquino, diz que reformas não são solução para a cambaleante economia brasileira

Paulo Guedes, ameaças e clima de consternação (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Paulo Guedes, ameaças e clima de consternação (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Economia

A economia mundial viveu uma semana de caos, impactada pela pandemia do coronavírus. Potências econômicas foram atingidas e bolsas de valores ao redor do mundo operaram em quedas históricas. No Brasil não foi diferente. A economia, que já estava caminhando a passos lentos, tomou um golpe do novo vírus e passou a semana inteira em alerta máximo. A Bolsa de Valores teve quatro paradas, chamadas de circuit break, quando os negócios são paralisados. Na quinta-feira 12, a queda chegou perto dos 20%. A cotação do dólar entrou em turbulência e a moeda americana bateu recordes de valores nunca antes atingidos. Na quinta-feira, o dólar chegou a custar R$ 5 e operou em altas consecutivas.

A resposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, não foi nada animadora. Em diversos momentos o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro disse que sua equipe estava tranquila e insistiu que a melhor resposta para conter a crise é a aprovação das reformas pelo Congresso Nacional. 

O conselheiro federal e coordenador da Comissão de Política Econômica do Conselho Federal de Economia, Fernando de Aquino, analisa que Paulo Guedes está aproveitando esse momento para tentar aprovar mais facilmente essas outras reformas. “As pessoas estão muito focadas na questão da pandemia, e eles vendem que mais reformas facilitaria as coisas, então estão aproveitando desse momento”, afirmou.

Para o economista, ao contrário do que o ministro defende, as reformas não são a solução para melhorar a economia. “Você precisa de um crescimento na demanda, de gastos do governo, de créditos de banco público. Sem isso não vai melhorar”, alerta. Confira a entrevista concedida a CartaCapital:

CartaCapital: Essa semana teve um cenário nada positivo para a economia mundial. Mas a economia brasileira já vinha dando sinais negativos. O senhor acha que a causa desse caos é apenas o coronavírus?

Fernando de Aquino: Na economia mundial, sim. Já na brasileira foi um fator a mais para dificultar a retomada de um ritmo de crescimento melhor. As pessoas deixam de sair, deixam de ir para shopping, deixam de comprar, de viajar e isso afeta a economia. Teremos, também, falta de exportações, porque a China é um grande parceiro comercial nosso. Isso dificulta muito e é um choque que afeta o Brasil. Mas a economia já vinha com dificuldade de ter um ritmo de crescimento melhor. Então estamos com dois fatores: dificuldade interna e externa.

CC: Quais são as causas desse baixo crescimento? 

FA: Internamente é uma política econômica equivocada do ponto de vista do crescimento. Na minha visão o governo tem duas agendas, uma declarada e uma oculta. A declarada é retomar o crescimento aumentando a confiança dos agentes. Reduz os gastos públicos, reduz a dívida pública e com isso melhora a confiança no futuro. Vão construir mais, investir mais e produzir mais. Agora isso não tem sido suficiente. Esse aumento de confiança pode ter algum peso, mas não é o suficiente. Na opinião de alguns economistas, e eu me incluo, o que termina pesando mais é a demanda para aquela empresa. São os cliente voltarem a consumir e com isso aumentar a produção, a capacidade de produzir, se modernizar entre outras coisas. E o governo não tem dado a devida importância para isso. E a agenda oculta é a de reduzir a remuneração do trabalhador, e nisso eles estão tendo um ótimo êxito.

CC: Rodrigo Maia e alguns outros economistas criticaram o governo por não ter um plano de emergência para essa crise. Qual atitude o governo deveria tomar nesse momento? 

FA: Lá no governo Lula, na crise de 2008, o governo lançou mão dos bancos públicos para ter uma política maior de crédito. Aumentaram também o gasto público, apesar de a receita ter caído. Então você tem um certo aumento da dívida nessa época, mas uma coisa que foi revertida depois. É assim que deveria ser. O governo deveria fazer uma política fiscal cíclica. Em tempo de recessão ele precisa aumentar a dívida e quando a economia está mais aquecida ele reduz, ele vai fazendo receita e a dívida vai oscilando. Claro que não pode ser explosiva, senão complica.

Nesse momento o Estado precisa gastar mais focado no combate aos vírus, na preparação no sistema de saúde, focado na minimização dessa pandemia que está chegando aqui. A economia está muito refém dessa pandemia que está atacando o mundo. Agora o governo tem uma desculpa boa para a economia não crescer, mas se não houvesse essa pandemia a gente também estaria com dificuldade de crescer.

CC: As reformas são solução para essa crise?

FA: As reformas não são a solução para a economia. Você precisa de um crescimento na demanda também, de gastos do governo, de créditos de banco público. Sem isso não vai melhorar. Já foram feitas algumas reformas, trabalhista no governo anterior e previdência neste, e a economia não tem acelerado. Os empresários podem achar lindo a política econômica e os resultados, mas eles só vão aumentar a produção se tiverem para quem vender. Se não chegar ninguém para comprar ele não vai. Só esse lado de aumentar a confiança, reduzindo os gastos, não dá certo. O Paulo Guedes está aproveitando esse momento para tentar aprovar mais facilmente essas outras reformas. As pessoas estão muito focadas na questão da pandemia, e eles vendem que mais reformas facilitaria as coisas, então estão aproveitando desse momento. Isso é uma estratégia política que já era esperado. Os políticos aproveitam as oportunidades, distraindo a opinião pública com outra coisa para poder conseguir passar projetos mais fácil com o Legislativo.

CC: Como esses resultados interferem na prática na vida das pessoas?

FA: Na questão da Bolsa, essa queda vai acabar voltando parcialmente, isso não teria uma interferência direta e imediata no dia a dia da população. Agora o dólar sim. A moeda americana mais cara vai deixar mais caro produtos que consumimos que vêm da importação, como o trigo por exemplo. A gente exporta muita carne. O preço lá fora fica melhor, as empresas vão preferir vender lá fora do que aqui dentro. Então isso termina que encarecendo a cesta de consumo da população.

CC: Há uma perspectiva de melhora nesse cenário? Quanto tempo isso pode levar? 

FA: Olha, isso depende muito do ciclo do coronavírus. É difícil saber. Claro, quanto menor for o ciclo, mais vamos ter oportunidade de recuperar logo, mas essa pandemia veio como um choque. É tudo muito incerto para falar quanto tempo a economia vai demorar para se recuperar. Se a gente superar a pandemia em poucos meses, a economia vai começar a se ajustar a partir do momento que passar esse ciclo. Claro que um governo pode fazer muito, mas ele fica muito nessa coisa da lógica que não vai utilizar bancos públicos na política econômica porque são contra as estatais, porque são a favor do livre mercado, entre essas coisas ideológicas que podem segurar o governo. Eu acho e espero que o governo vá abandonar essa ideia e interferir mais na economia, acho que vão acabar cedendo. Tudo depende de quanto tempo vai durar essa pandemia e como o governo vai realmente retomar isso com mais ou menos força nesse incentivo à demanda.

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Repórter do site de CartaCapital

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