Apego ideológico de Bolsonaro e Guedes retardou renda emergencial

Má vontade com socorro a informais na pandemia de coronavírus foi exposta pelo líder do Banco do Brasil

Apego ideológico de Bolsonaro e Guedes retardou renda emergencial

Economia

O pagamento de uma renda emergencial a trabalhadores informais na pandemia de coronavírus foi anunciado pelo governo em 18 de março, mas só começa em 10 de abril. Se há “emergência” para 60 milhões de pessoas que poderão receber, cada dia conta. Por que o governo não baixou uma medida provisória, que tem vigência imediata, como fez para autorizar empresas a suspenderem contratos de trabalho e reduzirem salários? Ou sequer enviou um projeto ao Congresso?

Enquanto os deputados e senadores votavam um projeto elaborado dentro da Câmara, o presidente Jair Bolsonaro dedicava-se a sabotar as quarentenas decretadas por governadores. Aprovada a lei, o ministro Paulo Guedes, da Economia, invocou que seria preciso mudar a Constituição antes de começar o pagamento da renda emergencial, algo que não havia dito ao anunciar a medida.

Essas atitudes seriam pista de algo? “Esmolas atenuam o problema, mas não o resolvem”, disse em 2 de abril o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes. Para ele, como declarou ao Estadão, a crise atual requer ação pública mas é preciso resistir a isso porque depois que se monta um “grande Estado assistencialista”, fica difícil desmontá-lo.

A visão desse economista bolsonarista neoliberal é didática para entender Bolsonaro e Guedes na pandemia. É por ideologia anti-Estado que o presidente não abraça a ação sanitária mais eficaz (as quarentenas) e o ministro e equipe fazem corpo mole nas providências. Reféns dessa ideologia, os dois querem voltar aos planos originais, mesmo com vidas em risco. Mesmo que a renda emergencial demore a chegar às pessoas.

Nas favelas, informa uma pesquisa do Data Favela, 70% dos moradores já tinham perdido renda entre 20 e 22 de março por causa da pandemia e 86% teriam dificuldade para comprar comida se ficassem sem a fonte de renda atual, em geral o próprio trabalho. Cerca de metade desses moradores ganha a vida na informalidade, condição que dará direito à renda emergencial oficial.

Bolsonaro não gosta desse socorro estatal. Em 2 de abril, compartilhou um vídeo pelo Whatsapp no qual uma mulher bolsonarista, que se identifica como professora particular em Brasília, diz a ele, na porta do Palácio da Alvorada: “Eu não quero dinheiro do governo, eu quero trabalho”, “abra esse comércio”. Resposta do presidente: “A senhora pode ter certeza que fala por milhões de pessoas”.

No mesmo  dia, o ex-capitão deu uma entrevista à radio Jovem Pan e declarou: “Tenho um decreto pronto para abrir o comércio”. Na terra da professora bolsonarista, o comércio está fechado desde 19 de março, por decreto do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). É o estado com mais casos por habitantes, o dobro de São Paulo, onde há mais infectados em números absolutos.

Em 29 de março, Bolsonaro passeou por áreas comerciais da periferia de Brasília, a incentivar a população a descumprir a quarentena, como seu filho Eduardo, deputado, explicou no Twitter.

Um outro filho, Carlos, expôs no Twitter o horror da família às medidas estatais na pandemia. “Partimos para o socialismo. Todos dependentes do Estado até para comer, grandes empresas vão embora e o pequeno investidor não existe mais. Conseguem a passos largos fazer o que tentam desde antes de 1964. E tem gente preocupada com a fala do Presidente”,  tuitou em 1o de abril.

Na véspera, Jair Bolsonaro tinha ido de novo à TV falar de covid-19 e parecia mais manso. Admitiu a gravidade e que o isolamento social era necessário. Não contrariou o sentimento da maioria da população. Mas sua base nas redes sociais, sim, ela que sempre se alimenta da ideologia radical do presidente. Daí o ex-capitão ter falado à Jovem Pan e praticamente desautorizado seu próprio pronunciamento.

E Paulo Guedes? Deseja ver-se livre da obrigação de apelar a medidas estatais das quais tem pavor, como Chicago Boy que é (Novaes também é). Em uma conversa na web em 29 de março promovida pela consultoria financeira XP, declarou: “Vamos desviar transitoriamente um ano, vamos gastar bastante, mas no ano que vem nós voltamos à nossa mesma estratégia de sempre, com as reformas estruturantes”.

Dias antes, seu secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, participara de outro papo virtual, este da consultoria Necton, e deixou claro o desconforto do Ministério. “Nenhuma medida nossa vai além de 2020”, disse. Mais: as decisões seriam tomadas com calma, medindo-se a temperatura a cada semana. Uma pista de torcida pelo fim das quarentenas, nem que seja contra o bom senso.

A ideologia explica ainda por que outro neoliberal da equipe, o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, fez questão de ressaltar, em um relatório de sua repartição, que a pandemia não mudou o pensamento da casa. “A política fiscal expansionista neste ano não é a típica política Keynesiana de expansão do gasto e investimento público”, diz o texto. É transferência de renda num “período mais crítico da crise” e só.

Essa transferência seria de 200 reais por pessoa, na proposta de Guedes. Valor pífio, equivalente à linha de pobreza do Banco Mundial. Essa linha é de 1,25 dólar por dia, que ao câmbio de 3 de abril, de 5,3 reais, dá 199 reais mensais. Ao votar a proposta, o Congresso quis subir para 500 reais. Bolsonaro correu a propor 600 reais. Quis os louros políticos por algo com do qual discorda.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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