Quem é a mulher lésbica para as pesquisas feitas no Google?

Antes, a pornografia tomava a primeira página. Agora, há destaque para uma visibilidade conflitante com valores retrógrados

Campanha  “O Corpo é nosso: direitos sexuais e reprodutivos de mulheres lésbicas”, da UNFPA, de 2018. (Foto: UNFPA Brasil/Weber da Cruz)

Campanha “O Corpo é nosso: direitos sexuais e reprodutivos de mulheres lésbicas”, da UNFPA, de 2018. (Foto: UNFPA Brasil/Weber da Cruz)

Diversidade

Há aproximadamente um mês, digitar a palavra “lésbica” no campo de pesquisa do Google significava ser encaminhada a uma página de vídeos pornográficos. Em julho, porém, o cenário mudou. Após uma campanha encabeçada pela francesa Fanchon Mayaudon-Nehlig, criadora do grupo ativista SEO Lesbianne, hoje o verbete da Wikipedia sobre o termo está em destaque, assim como matérias sobre saúde de mulheres bissexuais e homossexuais e demais discussões de relevância. O que explica uma associação tão distorcida, no entanto, são as raízes de uma objetificação que afeta todas as mulheres.

A socióloga Regina Facchini, que é pesquisadora do movimento LGBT+ no Brasil, afirma que tal apagamento é o motivo pelo qual continua importante afirmar datas, como o mês da visibilidade lésbica, que é celebrado em agosto. Para ela, o mercado sexual encarna um fetiche não existente: de que essas mulheres, de alguma forma, esperam agradar a homens ao se relacionarem.

“A principal visibilidade era essa do estereótipo. Outras coisas sobre a vida dessas mulheres existem. Elas têm trabalho, estudam, têm questões de saúde, situações de violência que podem vir a passar, têm família como qualquer ser humano. Mas não é isso que elas vêm em princípio. Esse é um estereótipo bastante absurdo, porque gira em torno de uma fantasia sexual que não vai ser realizada.”, analisa a pesquisadora.

Pesquisa por “lésbica” no Brasil

Por meio da ferramenta Google Trends, que rastreia quais pesquisas utilizaram determinados termos nos últimos meses, é possível perceber que as dúvidas dos brasileiros dizem respeito a personalidades – como a jogadora Marta e a cantora Ludmilla -, autoconhecimento e declarações políticas. No último caso, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos teve destaque com o vídeo que acusa a Disney de querer colocar a personagem Elsa, de Frozen, como uma “rainha lésbica“.

Se, por um lado, há padrões sexistas e declarações preconceituosas, também pode existir uma espécie de “espelho” para aqueles que enxergam em Marta e Ludmilla os exemplos de mulheres bem sucedidas e assumidas em relação às sexualidades.

A ferramenta mostra que, ao longo dos meses que antecederam a Copa do Mundo Feminina de 2019, realizada na França, o interesse pela palavra também cresceu.

Para Facchini, os picos de audiência também podem significar mera confirmação de fofocas pela internet, mas a mudança estabelecida é importante para permitir que um aspecto da “vida real” das mulheres lésbicas apareça em destaque, ao contrário do que é propagado pela pornografia.

A mudança se insere em uma década difícil para a população LGBT+, apesar de avanços recentes como a criminalização da LGBTfobia no Brasil. A relevância que Damares Alves lançou sobre a personagem animada é uma prova do que está se multiplicando no campo moral. “A gente não pode dizer que a Damares, quando falou da personagem da Disney, estivesse falando de algo positivo”, resume Regina.

Ao digitar “lésbicas”, no plural, as pesquisas ainda direcionam o usuário a uma realidade adulterada do relacionamento entre mulheres homossexuais. Há mais do que o algoritmo a se mudar.

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