Feminismo em tempos autoritários na voz de 5 ativistas internacionais

Reunidas para seminário internacional, elas também respondem sobre como alcançar as meninas e incentivá-las a se mobilizar

(Foto: Marcha Mundial das Mulheres - Bahia)

(Foto: Marcha Mundial das Mulheres - Bahia)

Diversidade,Mundo

Na linha de frente contra o Estado Islâmico e os governos de Erdogan (Turquia), Duterte (Filipinas), Trump (EUA) e Bolsonaro, é possível ver a presença delas. O século 20 tornou definitiva a conquista de direitos para as mulheres, mas o que elas veem agora traz à tona a necessidade da articulação, e rápida. Se os poderios autoritários puxam os direitos conquistados de um lado, o movimento de mulheres organizadas puxa do outro.

Mais de 30 feministas internacionais se reuniram esta semana para o Seminário Internacional Resistência e Construção de movimento: confrontando o neoliberalismo desde a economia feminista e os comuns, organizado pela Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo. As vozes, que vieram de todos os continentes, ressoaram uma questão crucial do movimento: como construí-lo em meio à escalada das desigualdades e do autoritarismo?

Abaixo, cinco mulheres contam suas jornadas individuais. Também respondem a uma pergunta comum: como alcançar as garotas que crescem em meio ao furacão?

Turquia: pressão para uma justiça justa

“Existe muita repressão nas universidades e na imprensa na Turquia, que está sob o controle do governo. Muitos, se pudessem, deixariam o país. Apenas as feministas puderam fazer protestos e ações massivas na Turquia, porque os casos de feminicídio aumentaram cerca de 4 vezes, e não há julgamento justo para casos de estupros e abusos.

 

Nós estamos pressionando as cortes. Um outro problema é o abuso de crianças e de casamento infantis encorajados pelo governo. Na lei, são proibidos, mas existem. É uma área em que nós estamos lutando, principalmente para manter nossos direitos – que estão sob ataque.”

Como alcançar as garotas?

“Nós vemos muitas garotas na nossa luta, especialmente as do ensino médio e das universidades. No último julgamento em que fomos, uma jovem tinha sido morta por dois homens, que eram seus chefes. Eles a estupraram, a mataram e a jogaram do 20º andar de um shopping, e a campanha por justiça foi lançada por suas amigas da universidade. Elas usaram as mídias efetivamente, e é isso que temos que discutir: a quarta geração do movimento feminista é muito mais organizada pela internet.”

(Foto: Elaine Campos/SOF Sempreviva Organização Feminista)

Yildiz Temürtükan

É militante da Marcha Mundial das Mulheres da Turquia. Atua em Ankara, em defesa dos direitos humanos, contra a tortura e assassinato de lideranças sociais, incluindo membros de sua organização. Sua trajetória já inspirou um curta metragem sobre ativismo social em seu nome.


Filipinas: a luta contra o tráfico e a prostituição

“O tráfico de mulheres e a prostituição existem desde antes do capitalismo porque o patriarcado sempre esteve lá. Desde sempre, as mulheres foram consideradas menos do que os homens. Em situações de desespero, quando ela se tornava viúva e não possuía nenhuma propriedade e não tinha nada para alimentar seus filhos, os seus corpos foram considerados commodities.

O patriarcado definiu a existência da prostituição. Enquanto as estruturas da desigualdade entre homens e mulheres – economicamente, culturalmente, politicamente – não mudarem, a prostituição e o tráfico de mulheres vai existir. Testemunhamos uma campanha global contra o assédio sexual, na área do entretenimento, por exemplo.

Nós esperamos que essa chamada quarta onda do feminismo mude a consciência das pessoas, porque o abuso e o assédio não são tão diferentes da prostituição. A única diferença entre eles é que a prostituição é diretamente paga, mas os homens no poder querem tirar vantagem do fato que as mulheres precisam do trabalho e precisam ficar naquele local, por exemplo.”

Como alcançar as garotas?

“O Brasil e as Filipinas estão, de uma maneira, na mesma situação política, porque nossos presidentes ganharam com discursos contra mulheres. Mas as meninas estão enfurecidas com isso. Quando você tem esses discursos, é um desafio para as jovens se unirem, se defenderem e assegurarem que os direitos que elas adquiriram elas já têm – o direito a dignidade, à autonomia sexual e à integridade. Precisamos tomar a frente e dizer que não temos medo. Nós lutamos por esses direitos por décadas, e precisamos defender nossas vitórias como mulheres, e isso vem pela organização em grupos.”

(Foto: Maria Julia Montero/SOF Sempreviva Organização Feminista)

Jean Enriquez

É militante, presidente da Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres da região do Pacífico Asiático e advogada pelos direitos das mulheres, Jean já teve seu trabalho contra a prostituição e o tráfico internacional reconhecido em prêmio da Unesco em 2014. 


Curdistão: mulheres na frente depois do Estado Islâmico

“Quando falamos do Estado Islâmico, temos que pensar que é uma força de desestabilização organizada pelos poderes dos serviços secretos internacionais. É a mais impactante força patriarcal, estatal e capitalista criada pelos modelos mundiais para obter o controle no Oriente Médio. O Curdistão teve influência de diferentes processos históricos e, por suposto, de diferentes lutas sociais. O que vimos emergir fortemente no norte da Síria foi uma resposta em termos de construção de outra sociedade por parte das mulheres revolucionárias, que estão, agora, na Federação Democrática do Norte da Síria.

Quando as mulheres saem em defesa da proteção e da autodefesa, elas vencem o Estado Islâmico. Elas tinham uma ideia clara na sociedade que queriam construir, que é baseada na democracia direta, na ecologia e na liberação das mulheres.”

Como alcançar as garotas?

“Estamos vivendo uma experiência interessante em Rojava [região curda da Síria]. Temos um sistema educativo popular, não baseado no Estado, construído pelas assembleias populares depois da autonomia democrática. Como vivemos em uma estrutura comunitária, vemos as meninas como a parte mais propulsora da nossa sociedade.

São as comunas que decidem quais tipos de educação ter, pelo sistema de confederalismo democrático, que junta os diferentes povos e etnias a se organizarem pela educação. Seguimos o princípio do que chamamos de ‘genealogia’, em que crianças desde os 5 anos estudam a luta das mulheres no mundo, além da luta das revolucionárias do Curdistão. Elas transformam tudo isso em um processo de crescimento conjunto. Não pensamos que a sociedade deva determinar a educação das crianças, mas sim transmitir a história da liberação dos povos para as novas gerações.”

(Foto: Elaine Campos/SOF Sempreviva Organização Feminista)

Alessia Dro

Integra o Movimento de Libertação das Mulheres do Curdistão. É formada em filosofia política e tem atuado para difundir as lutas das mulheres curdas.


Brasil: quem viveu, não esquece

“O que está acontecendo no nosso País não está desvinculado do processo internacional da crise do capitalismo. Para impor uma lógica tão violenta, tem que existir mecanismos que destroem a democracia e as políticas que olham, também, para a vida pessoal – como a sexualidade. No momento em que o sistema precisa se reimpor, ele precisa calar os sujeitos políticos e agir para ‘colocar as coisas no lugar’, como se elas estivessem, antes, fora do lugar. E é essa figura do ‘macho’ que vai atacar não só as mulheres, mas também os homens da classe trabalhadora, que já não ocupam mais o falso lugar de provedor da família e de chefe da sociedade.

Como alcançar as garotas?

Em nenhum momento, desde que o Bolsonaro ganhou, eu me desesperei. Eu falei muitas vezes que a nossa população, mesmo com todos os limites dos governos progressistas, experimentou um certo exercício de direito, e o povo sabe. Não foi todo mundo que votou no Bolsonaro, e ele perdeu entre as mulheres – mais ainda entre as jovens. É neste patamar que estamos fazendo a disputa.

Aqui, as meninas estavam descobrindo o feminismo desde muito cedo, e existem algumas experiências organizativas muito concretas, como o movimento das secundaristas – elas o construíram no mesmo patamar ou com mais liderança que os meninos. Nós, como movimento, temos que ter a capacidade de abrir espaço para as mulheres participarem.”

(Foto: Elaine Campos/SOF Sempreviva Organização Feminista)

Nalu Faria

Coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres – Américas e da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Participa da construção de articulações dos movimentos sociais, como a Frente Brasil Popular e a Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo. Organizou e escreveu publicações como “A produção do viver” e “Desafios do livre mercado para o feminismo”. 


Estados Unidos: o apagamento da história indígena

“É ‘ok’ para nós apenas tirar, tirar, tirar da Mãe Terra. Nós tiramos os nativos dos seus espaços originais e as jogamos em pequenos pedaços de terra para alcançar recursos, como petróleo, gás, urano. Agora, nós olhamos para as consequências da extração e para o aquecimento global. Os indígenas parecem sempre ter ocupado um espaço desconfortável para os outros, mas temos que reclamar de volta os nossos lares originais.”

Como alcançar as garotas?

“Muito do que as garotas aprendem, como a preservação do território ou da Mãe Terra no caso dos indígenas, é um ensinamento cultural. Esses valores são parte de suas culturas, mas nem todas podem experimentar isso por não serem muito conectadas com sua comunidade. Hoje, as garotas podem aprender algo na escola, mas as redes sociais têm muita influência no que elas veem, e o que faz com que elas criem os seus próprios espaços. Eu não sei se existe uma metodologia específica, mas nós tentamos todas porque temos que abraçar quem pudermos.”

(Foto: Elaine Campos/SOF Sempreviva Organização Feminista)

Ozawa Bineshi Albert

Liderança das etnias Yuchi and Annishinaabe, Ozawa é membra do conselho da Rede Indígena de Meio Ambiente (IEN), e também atua pela aliança internacional Grassroots Global Justice, nos Estados Unidos. Luta pela visibilidade ao desaparecimento e assassinato das mulheres indígenas nos EUA. 

 

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