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Cultura em tempos de cólera: o cinema negro e feminino no front

Diversidade

Nos primeiros anos da ditadura, diversas instituições desarticuladas pela repressão iniciaram um processo de resistência e oposição ao governo.

A resistência cultural foi uma das formas consagradas de oposição exercidas por intelectuais, artistas, professores e produtores culturais, e produziu por si só um fenômeno político e cultural.

As formas de intervenção social aconteceram, muitas vezes, no terreno das produções culturais, onde os opositores constituíram um espaço de contestação e engajamento.

Na roda da história, cultura e política são grandes aliadas.

Logo após as eleições deste ano, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos pregou: “Os movimentos sociais são os territórios físicos, sociais e culturais onde as esquerdas se podem curar tanto do sectarismo como do entreguismo.”

No entreato de 2018 e 2019 – derradeiro de um ano marcado por intensas disputas no campo da diversidade, movimentos sociais e  das liberdades individuais, CartaCapital inaugura a série ‘Cultura em tempos de cólera’, parafraseando o escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Conversamos com cineastas, músicos e escritores que produzem perto e dentro das (diversas) bordas sociais. Na estreia da série, conversamos com Rosa Miranda, cineasta, negra, ativista, carioca, “e sem medo do futuro”.

“O desconforto é importante para que a gente se mova”

O incomodo logo bateu. Rosa Miranda, 28 anos, negra, moradora de São Domingos, em Niterói, procurou em 2010 uma universidade – particular – para estudar cinema. O vídeo apareceu na vida de Rosa sem querer. Dedica, ela logo procurou uma maneira de se profissionalizar. Mas algo não rolava bem. Ela então descobriu um curso de licenciatura em cinema na Universidade Federal Fluminense. Rolou. Única negra na sala, na época a moça não dava bola para o que (não) estava à volta.

Foi na moradia estudantil que Rosa começou a entender o que era diversidade: de pensamentos, de cores, de realidades. “Meus amigos da moradia me salvaram. Foi com eles que comecei a descobrir o que a minha presença ali, enquanto mulher negra, representava. Foi com eles que passei a fazer os meus primeiros trabalhos e entender o sentido de coletividade, de brigar pela nossa existência”, conta.

E foi com eles que Rosa formou o coletivo Kbeça D’ Nêga , passando a filmar a realidade de dentro para fora.

Filmaram o longa ‘Na Minha Pele’, sobre um colega (também negro) da moradia assassinado no campus. “Na época isso foi muito falado, mas caiu no esquecimento. Para esses casos a Justiça nunca dá um resposta, né?”

A produção era intensa. Dois longas por ano, exibições, festivais. Para um cinema sem recurso, era muito mais do que o previsível. O tecitura do cinema independente é bastante larga. Uma produtora com funcionários, equipamentos e acesso aos editais pode ser considerada independente, assim como amigos que se juntam para filmar com os recursos que têm no bolso.

Cinema ziquizira

Rosa se criou no que chama de cinema de aquilombamento, ou de agrupamento. São produtores com objetivos em comum e que resistem a um pensamento hegemônico e à produção de cultura de massa. “Neste momento, mais do que nunca, temos que continuar o que estamos fazendo. Muitas vezes fazemos na gambiarra. Não tem que ser assim, mas se tiver que ser na gambiarra, vai ser na gambiarra. Não vamos parar.”

Especialista no assunto, ela explica que a representação da mulher negra no cinema atravessa seu terceiro momento. Primeiro veio o cinema de denúncia (das opressões e mazelas). No segundo momento, “um cinema raivoso, que expõe o racismo e quem não se coloca nesse lugar”, e agora o terceiro, que ela considera ser “o cinema de afeto, que fala dos negros se amarem, de questionar as relações heteronormativas, de abordar o amor das mães solteiras e suas filhas.”

Entre uma gambiarra e outra, de tão focada nesse corpo de produção coletiva, Rosa mal se deu conta da fronteira que atravessava. No dia da colação grau, seguia a única negra da turma. “Minha mãe me disse “peraí, se o seu curso era o único (a UFF abriu em um curso inédito em todo País para a formação de teóricos e professores em cinema) –então você é a primeira negra formada em teoria em cinema. Ali a ficha caiu, por fim.”

Outras virão

Empoderada, a cineasta tem orgulho de sua trajetória, o que não diminui a tristeza por pensar “quantas ficaram para trás.” Agora, saber-se única negra em qualquer coisa é algo impossível de ser naturalizado. “É preciso sentir incomodo para que não se repita”, completa.

Rosa ingressou no mestrado na UFF. Sua pesquisa foca as diretoras negras brasileiras. Neste ano, Rosa foi para Lisboa apresentar o documentário ‘Privilégios’ no Avanca Film Festival. Para os colonizadores, Rosa exibiu um filme sobre gênero, raça e classe social. O documentário também questiona a política de ação afirmativa de cotas raciais e sociais, política pública reparatória totalmente desconhecida dos portugueses.

Assim como atrás das câmera, na acadêmica a acolhida nem sempre é boa. “Quando começo a falar da falta das negras, muita gente se incomoda, e ai passo a ser a mulher raivosa, chata. Mas eu incorporei aquilo que me fez chegar até ali. Sei que algumas não estão disponíveis para ouvir, mas eu vou falar. Agora é a nossa vez de falar, e juntas vamos falar tudo que precisa ser dito e ouvido.”

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Repórter do site CartaCapital.com.br

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