Com isolamento sem data para acabar, pressão para “sair do armário” causa angústia em LGBTs

Pesquisa identificou que a falta do grupo de apoio é um dos principais impactos da pandemia em LGBTs. Há 'melhor momento' para assumir-se?

Foto: Paulo Pinto/FotosPublicas

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Diversidade

A convivência familiar amplificada ao longo dos 5 meses desde que o coronavírus chegou ao País tem gerado consequências para quem precisa medir palavras, ações e sentimentos devido à sexualidade ou identidade de gênero.

Sofrer violência doméstica, abusos psicológicos, ser expulso de casa ou passar por outras formas de agressão não são uma realidade com poucos exemplos no contexto LGBT+. No entanto, a pandemia trouxe números que retomam problemas e liberdades em “sair do armário” – termo empregado quando se assume publicamente que é gay, lésbica, bissexual, transexual e outras identidades também invisibilizadas.

“A população LGBT+ tem um risco maior de sofrer de alguns transtornos mentais em decorrência do preconceito, da aceitação, de todas as vivências de vitimização que ela acaba tendo na sociedade. Alguns fatores são protetivos, e a aceitação familiar é um desses. Outro fator é uma rede de apoio desse grupo minoritário – esse contato com esse grupo é protetor nesse sentido de uma saúde mental melhor.”, explica o psiquiatra Bruno Branquinho.

Piora na saúde mental, afastamento da rede de apoio e falta de fonte de renda foram as três principais categorias elencadas por cerca de 10 mil pessoas que participaram da pesquisa “Diagnóstico LGBT+ na pandemia”, realizada pelo coletivo VoteLGBT entre 28 de abril e 15 de maio, e publicada em junho, mês de celebração do orgulho.

“Antes da pandemia eu já sofria transfobia por parte da família, mas todos trabalhávamos. Com essa pandemia passamos a ficar juntos com mais frequência e pela não aceitação familiar e por violência psicológica por parte de minha mãe saí de casa (ela já havia me expulsado). Estou desolada e nada bem psicologicamente”, relatou uma mulher trans e negra ao questionário disponibilizado pela iniciativa.

Foto: Reprodução/Pesquisa VoteLGBT

“Para muitas pessoas LGBT+, a exclusão da família de origem implica na construção de novas estruturas familiares que exerçam este fundamental papel em suas vidas. Para elas, ver-se afastado dessas estruturas pela quarentena impacta em voltar a se sentir só no mundo”, diz o texto do relatório.

Para Fernanda De Lena, demógrafa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do coletivo, a pesquisa não dá conta de mapear todos os cenários de maior vulnerabilidade (como pessoas trans, negros e negras e população de baixa renda), mas já dá indicativos de que a pandemia afeta mais os LGBTs no âmbito da saúde mental.

“O índice de vulnerabilidade mostra, com análises interseccionais que levam em consideração identidade de gênero e raça, que existem grupos mais e menos privilegiados na nossa comunidade, e esses menos privilegiados serão mais vulneráveis à covid-19”, analisa.

Mesmo com as discrepâncias, não é incomum voltar à tona a questão insistente sobre “sair do armário” ou não. Como encarar um cenário ainda incerto pela frente, com vacinas sem data para chegar, cenário de trabalho instável e possíveis sofrimentos mentais causados pela convivência com famílias nem sempre acolhedoras à causa?

Dúvidas como essa tem sido comumente recebidas pelo youtuber Klébio Damas, dono do canal “Mundo Paralelo”, que contém mais de 1 milhão de inscritos na plataforma. Para ele, que primeiro saiu do interior do Rio de Janeiro para impulsionar sua carreira e poder assumir-se à família, há uma pressão familiar no modo de vida que acaba por gerar sofrimento, especialmente a jovens que não podem se manter.

“Naquele momento que estão trancados no quarto são quando eles são eles mesmos. Querendo ou não, ainda muita gente julga tudo que a gente faz pelas coisas que a gente consome, pela música, não pode escutar a Lady Gaga em paz porque senão o pai briga.”, opina Klebio, que mantém o canal assuntos diversos do universo LGBT+.

O influenciador digital Klebio Damas (Foto: Divulgação)

O youtuber conta que a maioria das dúvidas vem de adolescentes na idade do ensino médio, e que entram em conflito se a maior proximidade familiar significa que eles deveriam se abrir sobre a própria identidade.

Para a publicitária Aline*, que mora com a mãe e a irmã, que sabem sobre sua sexualidade, e com o pai, que a desconhece explicitamente, o processo envolve paciência em ter que desconstruir pontos vistos como simples.

“Eu tenho cabelinho bem curto e sempre que eu corto ela [a mãe] fala ‘prefiro ele maior, estava mais bonito antes’… E, todas as vezes, a gente senta pra conversar sobre ‘cabelo curto é de homem e grande é de mulher’. No meio de conversas como essas, ela solta ‘mas eu não consigo entender’, e daí vem um trabalho árduo e às vezes exaustivo de explicar com mais detalhes”, conta.

Bruno Branquinho destaca que escolher ou não assumir-se para a família deve levar em consideração o contexto familiar de cada um, sendo impossível basear-se em uma tendência da internet ou experiências de outros colegas que já passaram pelo mesmo.

“Você conhece sua família e sabe mais ou menos como eles pensam e como vão reagir. Num ambiente de postura LGBTfóbica ou de pensamento conservador, talvez seja protetivo que elas não falem sobre isso. Se tem uma ideia de que o ambiente familiar pode ser de mais inclusão, de repente revelar essa condição pode ser uma coisa muito boa, porque poderá ter um ambiente mais acolhedor.”, analisa.

Aline acredita que, com a convivência familiar mais forçada, o assunto volte à tona repetidas vezes – o que pode causar, também, ansiedade e insegurança sobre o assunto quando se trata de pais preconceituosos. “Eu já era ‘assumida’ bem antes da pandemia, mas considerando que meu pai ainda não sabe com todas as letras, eu meio que não vejo necessidade de chamar e falar. Com certeza, ele já deve ter ouvido algum comentário sobre… sendo bem sincera, não vejo essa necessidade de falar sobre o assunto com ele”, pontua. 

Damas, por sua vez, encarou um processo de questionamentos complicados e até ida ao psicólogo para análise sobre algum “problema” com o filho, segundo a visão de sua mãe na época. O processo se inverteu, e o apoio psicológico ajudou-o com a família. A normalização do que é normal, por mais redundante que pareça, foi o caminho para a aceitação individual do jovem, unido à relativa independência financeira.

Meus pais me aceitaram. Foi complicado no começo. Eu comecei a juntar dinheiro, comecei a trabalhar mais, produzir mais, para quando eu precisar falar, eu me mudar. Não é à toa que eu falei quando já estava em São Paulo.”, diz. “As pessoas não têm conhecimento ou instrução. A maioria das pessoas têm uma imagem muito pejorativa. É importante a gente falar, normalizar e mostrar que está tudo bem.”, opina Damas. 

Para ajudar pessoas que enfrentem problemas domésticos ou cheguem a ser expulsas devido à identidade ou sexualidade, o VoteLGBT compilou uma série de iniciativas de auxílio psicológico e social na pesquisa. Veja o levantamento completo.

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