Cultura

Um feminicídio retratado sem os truques do ‘true crime’

Em ‘Um Crime Bárbaro’, Ieda Magri lança mão da primeira pessoa para investigar o assassinato de uma adolescente em Santa Catarina, na década de 1980

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A história contada por Ieda Magri no romance Um crime bárbaro (Autêntica Contemporânea, 160 págs., 54,90 reais) está com ela há tempos. O ponto de partida do livro é um fato ocorrido na cidade onde nasceu, Águas Frias (SC): um crime cruel contra uma menina de 13 anos, em 1981. Passadas mais de quatro décadas, a escritora, que sem põe como narradora aqui, volta ao local para escrever sobre isso. 

“Fui adiando essa história, e escrevi quatro livros antes. Ela envolve questões éticas muito sérias. É a dor real de uma família que persiste até hoje. Fui adiando até eu amadurecer como escritora”, diz Magri em entrevista a CartaCapital. 

Trata-se de um romance sobre um feminicídio: um estupro seguido de assassinato e mutilação. “Pensei muito sobre a questão do feminicídio. Numa das primeiras entrevistas que fiz, falaram da violação”, diz. “Levei um susto, não era algo que se falava muito. Eu sempre achei que fosse um crime de vingança.”

Outra inquietação que acompanhava a autora era a de que como não transformar o crime em experiência estética e fazer justiça à vítima. “Era um problema, como contar essa história diminuir esse acontecimento trágico”, diz. “Eu tinha de procurar uma forma de narrar, e a gente sempre acha um jeito de tocar nisso, mas sempre será pálido diante da realidade.”

A maneira que ela encontrou foi se colocar dentro do livro. Na narrativa, ela volta à cidade para investigar o crime, conversa com pessoas que se lembram do fato e combina isso à sua memória do crime conta a menina Maria Tommasino. 

O fato até hoje não está completamente elucidado, e dois forasteiros foram tomados como culpados. Magri, que cresceu ouvindo essa história, não descarta que eles tinham servido de bode expiatórios ou que tenham sido os culpados “fáceis”, por serem de fora da cidade. 

Sua investigação, retratada no livro, também não é fácil. Ela própria passou a ser vista como forasteira: “Ninguém quer falar sobre o que aconteceu. O assunto é um tabu ali, mas ainda é muito comentado. Lembro que, na escola, a professora usava a Maria como exemplo, como uma forma de alertar. Se você não se comportar pode acontecer o mesmo com você”.

A narrativa, que começa realista, vai, conforme a investigação avança, adquirindo contornos ficcionais. “Não queria inventar coisa, mas também não tinha como ser uma reportagem. Fui colocando as camadas, que são as muitas versões desse episódio”, explica.

Apesar de narrar um assassinato real, Um crime bárbaro não pertence exatamente àquele gênero a que se deu o nome de true crime, uma reconstrução de um acontecimento real – que se popularizou ainda mais com os podcasts e séries policiais. Magri passa longe do sensacionalismo e traz uma prosa bastante elaborada.

“Acho que o true crime se tornou uma forma de exorcizar assassinatos”, reflete ela. “Talvez seja uma maneira de domar um medo que poderia paralisar. É também uma maneira de alerta, de mostrar como as pessoas devem ou não se comportar. O crime se torna moralizante, algo até didático.” Para a autora, o feminicídio, nesse sentido, é usado até na educação da mulher, apontando como se a vítima tivesse culpa do que lhe aconteceu. 

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