Cultura

Crônica do Menalton

Tudo bem

por Menalton Braff publicado 17/09/2015 16h10
Nem sempre nos cumprimentamos como o fazemos hoje

Muitas das exigências do convívio civilizado podem ser bastante cansativas, principalmente aquelas que não encontram seu significado entre as necessidades imediatas do ser humano. Quase nunca sabemos a origem de certos usos, mas continuamos usando. Por que um advogado não pode entrar no fórum sem gravata? Alguém pode me dizer qual a necessidade que justifica o uso de uma linguiça de pano apertando o pescoço e pendurada sobre a barriga? De onde vem isso?

Os jovens, principalmente, criam para si a ilusão de que o mundo foi fundado no momento em que eles nasceram. Enfim, como poderia existir o universo sem a presença do que nele existe de mais importante? Todos nós cultivamos um pedacinho dessa planta, mas, com o tempo, vamos aprendendo que existem algumas coisas mais importantes do que nós por aí.

Não sei se a introdução do assunto foi pertinente, mas o que eu queria dizer é que tudo é histórico. E, se tudo é histórico, tem existência no tempo, os cumprimentos também estão sujeitos “ao poder do ímpio fado”.

Nem sempre nos cumprimentamos como o fazemos hoje. E acho que as formas de cortesia vão-se debilitando com o passar do tempo. Aliás, um amigo meu mais radical do que eu jura que a cortesia é um anacronismo. Neste caso, me considero anacrônico. E isso em vários sentidos. As músicas que mais ouço, por exemplo, foram compostas nos séculos XVII,  XVIII e XIX. Em segundo lugar, do século XX.

Pois bem, imagine você, meu caro leitor, dois cavaleiros da Idade Média, com a truculência que lhes era peculiar, cruzando-se em uma estrada. O primeiro deles, conde ou duque, sei lá, ergue a mão até o elmo e diz: − Oi . O segundo cavaleiro, duque ou conde, repete o gesto e responde: − Oi.

Não, eles não diziam “oi”, pode ter certeza.

O Marquês Fulano de Tal cruza num dos corredores do palácio com a Condessa Sicrana de Qual e com uma reverência lasca: - Tudo jóia?, a que ela responde: - Beleza numa boa?

E seguem em sentidos opostos, ele para a academia para diminuir o volume abdominal e ela para uma das salas onde costuma receber as carícias do amante.

Ah, mundo, mundo!

Outro dia assisti a uma série de cumprimentos familiares. O recém-chegado olhou os dez, doze presentes e começou para o primeiro: Tudo bem? O cumprimentado respondeu: Tudo bem. E com você, tudo bem? Tudo bem. Tãotabom − respondeu finalmente o primeiro cumprimentado. E até o décimo segundo não houve variação. A cena repetiu-se dez, doze vezes sem nenhuma alteração.

− Tãotabom!

registrado em: