Os sons de Alê Leão, o canto de Leandro Medina e o samba de Francineth

Três músicos e seus discos navegam na pluralidade musical brasileira

(Foto: Bia Varella)

(Foto: Bia Varella)

Cultura

Trabalhos recém-lançados mostram que a pluralidade continua viva fora do mercado convencional. Alessandra Leão apresenta voz e percussão em diferentes formas; Leandro Medina traz a sonoridade amazônica às composições e a cantora Francineth grava precioso disco de samba.

A compositora, cantora e percussionista pernambucana Alessandra Leão lança seu novo álbum, Macumbas e Catimbós, com 15 faixas.

Em relação aos seus trabalhos anteriores – Brinquedo de Tambor, Dois Cordões e a trilogia de EPs Língua -, ela explica que nos dois primeiros “o trio de ilús (tambor afro) era a base rítmica, com as guitarras e baixo fazendo linhas melódicas em contraponto”.

Na trilogia, “só usamos um ilú junto com uma bateria adaptada especialmente para esse trabalho, mantivemos as duas guitarras e baixo e incluímos um synth (teclado sintetizador)”.

Já nesse novo disco, a formação instrumental é praticamente a mesma que se usa nos terreiros de Xangô e Jurema em Pernambuco. No trabalho, a musicista se junta aos tambores de Abuhl Junior e Maurício Badé para apresentar um registro de voz e percussão como nos terreiros.

O bom trabalho revela uma artista segura e experiente em lidar com a cultura afro-brasileira. Alessandra ressalta não se tratar de um disco de “música religiosa”, mas de extrair desse universo sua beleza sonora.

O fato de ter usado somente percussão, segundo ela, “impôs alguns desafios sobretudo na maneira de gravar e mixar, para que os tambores tivessem o mesmo peso e para que ocupassem o mesmo espaço sonoro que eles têm e são ao vivo”.

Há várias participações no trabalho, como Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Sapopemba, Luiz Quiguiriçá e Terreiro Recanto Quiguiriçá. Compondo os coros, Lívia Mattos, Lenna Bahule, Karina Buhr, Isaar e Manu Maltez. 

Lançado pela Garganta Records, com distribuição da YB Music, o disco vem acompanhado de livro com textos de Alessandra Leão, Luiz Antônio Simas e Juçara Marçal.  

Leandro Medina

O paraense Leandro Medina apresenta Car in box, com 12 faixas de composições próprias.  No seu primeiro álbum, o cantor resgata suas origens amazônicas, que vai do carimbó aos sotaques latinos presentes na região Norte do país.

O músico fez um CD com a Banda do Baque (2000), com composições só suas. Mas a ideia desse disco solo de Medina foi mostrar o seu lado intérprete.

“Achei a produção musical do Gabriel Spazziani muito dedicada e minuciosa. Houve muita compreensão e harmonia de lidar com tantos ritmos e levadas diferentes. Cada faixa é um ritmo e um universo musical a ser trafegado”, define ele o trabalho.

O disco conta com as participações de Fabiana Cozza, Ceumar, Juçara Marçal, Ari Colares, Marcelo Pretto, Sapopemba, Fernanda de Paula, Décio 7, Heloisa Fernandes, Marcos Paiva e Daniel Coelho.

Leandro Medina é radicado em São Paulo desde 1993 e afirma que a diversidade musical imposta no registro tem a ver muito com a sua origem.

“Venho de uma família grande. Somos nove irmãos. Sou o sétimo (são 7 homens seguidos). Daí você imagina para quem nasceu na Amazônia, que já respira um misticismo próprio. Desde os 6 anos ouvia todos os LPs que os irmãos mais velhos compravam e cada um tinha um gosto diferente. Isso foi uma riqueza grande para desenvolver o apuramento musical”.

Francineth

O primeiro álbum solo de Francineth, aos 79 anos, tem o reforço excepcional dos 16 (bons) músicos do grupo Batuqueiros e Sua Gente. São dez sambas muito bem explorados por essa cantora potiguar, mas criada musicalmente no Rio de Janeiro.

Francineth gravou compactos e participou em algumas faixas em dois LPs no início de carreira. A partir da década de 1970 passou a ser corista de grandes intérpretes.

“Eu nunca me afastei totalmente da música. Fazia trabalhos esporádicos de coro em shows ou gravações, mas já nem pensava em fazer um trabalho meu, até que esses meninos (Os Batuqueiros) reascenderam esse sonho em mim”, diz, para nossa satisfação.

A relação da cantora com o grupo Batuqueiros e sua Gente começou em 2015, quando foi convidada para cantar em uma homenagem a Dona Ivone Lara. Francineth não tinha sido convidada à toa: ela foi a primeira a interpretar uma composição de D. Ivone, Amor inesquecível, que foi regravada nesse seu disco solo.

“Fiquei impressionada como eles conheciam a minha história e tudo que eu tinha feito. Partiu deles a ideia de gravarmos esse disco”.

O repertório do trabalho de Francineth rememora sua trajetória, com músicas que tratam da relação dela com a madrinha musical Elizeth Cardoso e Zeca Pagodinho, do qual ela fez coro no seu primeiro registro fonográfico. O sambista carioca, inclusive, divide uma faixa do disco com Francineth, no Tal Dia É o Batizado (Cabana).

Outra faixa de destaque é Cambão (Luiz Vieira), regravado por Francineth. Na Ditadura a música que menciona a exploração no campo chegou a ser censurada.

O trabalho é excelente de se ouvir, com auxílio de músicos de ponta hoje no cenário musical, como Gian Correa e Henrique Araújo (direção musical), Allan Abbadia e Junior Pita (arranjos), e João Camarero e Nailor Proveta (participações especiais).

“Esse trabalho é um retrato da minha história, e também uma grande homenagem a essas figuras com quem trabalhei”, afirma Francineth.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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