Cultura

‘Oppenheimer’ triunfa em meio a uma Hollywood que se esquiva dos dilemas

Mesmo com suas imperfeições e a controvérsia que provoca, o filme foi capaz de envolver o público em debates importantes, destacando-se na superficialidade que assola o cinema americano

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A cerimônia do Oscar 2024 transcorreu sem grandes surpresas, para o bem e para o mal. Após um ano de flerte com a “nova audiência” ao premiar o superestimado Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, numa tentativa de atrair a atenção da geração TikTok, o Oscar 2024 retomou a aposta na essência norte-americana de cinema. O triunfo de Oppenheimer marca um retorno à narrativa heróica e triunfalista que caracterizou a premiação por décadas. A vitória do filme pode ser interpretada como um reflexo do clima político e social dos EUA, marcado pelo acirramento do nacionalismo e pela militarização crescente.

Nolan, o grande nome da noite, se limitou a agradecer o apoio recebido pelo estúdio para a realização do longa. Vindo de quem dirigiu um filme sobre um dos eventos mais controversos e transformadores do século XX, o silêncio soa, no mínimo, incômodo. “Fizemos um filme sobre o homem que criou a bomba atômica e, para o bem ou para o mal, estamos todos vivendo no mundo de Oppenheimer”, observou Cillian Murphy, que venceu na categoria de melhor ator interpretando o protagonista J. Robert Oppenheimer. Não tão longe do tapete vermelho, manifestantes pediram um cessar-fogo para a guerra de Israel em Gaza, travando o trânsito e atrasando o início da cerimônia do Oscar.

Há certa controvérsia em torno de Oppenheimer, especialmente no que se vê como omissão em relação à devastação em Hiroshima e Nagasaki. A escolha de Nolan de não retratar explicitamente as consequências humanitárias catastróficas dos bombardeios atômicos, em certa medida, minimiza o sofrimento das vítimas e perpetua uma visão de mundo centrada nos EUA. Nolan opta por uma abordagem que termina priorizando o “gênio individual”, reforçando uma visão unidimensional da história.

As três horas de Oppenheimer são marcadas por um Nolan preocupado em explicar cada cena do filme, como se desconfiasse da capacidade de sua audiência. A trilha sonora ininterrupta, embora magistral – rendeu o Oscar para Ludwig Göransson – também parece menosprezar a capacidade interpretativa do público, guiando-o por cada detalhe da trama como se temesse que nuances mais sutis fossem mal interpretadas. Outro aspecto particularmente problemático – e que aparece em toda a filmografia de Nolan – é sua representação das personagens femininas, reduzidas a estereótipos em flagrante contraste com a complexidade concedida a seus homólogos masculinos. 

O caminho do filme em direção à estatueta foi também pavimentado com uma campanha marcada por muito dinheiro e intensos esforços de publicidade. Com o maior orçamento de campanha para o Oscar entre os indicados na categoria de melhor filme, Oppenheimer despendeu US$ 25,7 milhões em publicidade na mídia norte-americana, de acordo com a iSpot, superando significativamente os gastos de seus concorrentes. O investimento refletiu na aclamação por parte da crítica e na bilheteria – aproximando-se da marca de US$ 1 bilhão globalmente. O fenômeno “Barbenheimer”, que tomou conta das salas de cinema com a estreia simultânea de Barbie e Oppenheimer, foi também um feito notável, marcando 2024 como o ano em que, pela primeira vez desde 2011, o conjunto dos 10 filmes indicados à categoria principal de Melhor Filme no Oscar acumulou mais de US$ 1 bilhão em bilheteria nos EUA por dois anos consecutivos (2023-2024). A última ocorrência similar foi em 2010-2011.

Ao mesmo tempo, a cerimônia do Oscar 2024 reflete, em certa medida, uma ampliação dos horizontes culturais da Academia, com a nomeação histórica de dois não norte-americanos para a categoria de Melhor Filme: Anatomia de uma Queda, da França, e Zona de Interesse, do Reino Unido. A animação O Menino e a Garça, do Japão, levou o Oscar de sua categoria.

Os feitos marcam uma continuidade do legado de Parasita, o filme sul-coreano que em 2020 arrebatou os Oscars de Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e Filme Internacional, desafiando as convenções e expectativas em torno do prêmio mais prestigiado do cinema. Se observarmos a qualidade dos concorrentes da categoria de Filme Internacional deste ano, como Sociedade da Neve, da Espanha, e Dias Perfeitos, do Japão, vamos nos deparar com filmes que possuem qualidades artísticas e narrativas superiores a pelo menos metade dos indicados na categoria principal. 

Enquanto Hollywood parece se acomodar em fórmulas seguras e rentáveis, o cinema de fora dos Estados Unidos vive um momento de inovação e profundidade artística. A cena latino-americana, por exemplo, vem se destacando por sua capacidade de contar histórias poderosas e explorar as complexidades culturais e sociais da região. Também os cinemas europeus e asiáticos continuam a impressionar com obras que desafiam os limites do storytelling e da expressão cinematográfica, oferecendo diversidade de perspectivas e experiências.

Nesse contexto, Oppenheimer pode não representar o ápice da carreira de Christopher Nolan, mas se sobressai pela tentativa de abordar temas maiores e provocar reflexões, ainda que de maneira controversa. Mesmo com suas imperfeições, o filme é capaz de envolver o público em debates importantes, destacando-se em meio à superficialidade que assola Hollywood.

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