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O drama de Bryan Singer

por Eduardo Graça, de Nova York — publicado 11/05/2014 19h56, última modificação 12/05/2014 11h01
No momento em que o novo X-Men é lançado, seu diretor enfrenta duas acusações de abusos sexuais de menores
AFP
Advogado

O advogado Jeff Herman faz as acusações contra Bryan Singer

A ausência mais óbvia na coletiva que reuniu jornalistas americanos e da imprensa internacional na manhã de sábado em uma sala apertada do hotel Ritz-Carlton, nas cercanias do Central Park, foi a do diretor de “X-Men – Dias de um Futuro Equecido”. Eloquente, com fama de difícil nos sets, reconhecidamente responsável pela reinvenção do filme de super-heróis na virada da década passada, Bryan Singer fez quiçá seu melhor filme em Hollywood. Mas no momento em que o sub-gênero não apenas domina as bilheterias dos cinemas mundo afora como cresce em prestígio, atraindo atores de primeiro calibre, o nova-yorkino de 48 anos enfrenta uma batalha tão ou mais complicada do que a dos mutantes no mundo da ficção: a acusação de ter abusado sexualmente dois menores de idade, um no fim dos anos 90, outro durante as festas de lançamento de “Superman: o Retorno”, título que produziu e dirigiu em 2006.

Singer, cujo nome foi mencionado uma única vez no encontro com a imprensa, que contou com co-produtores, co-roteirista e algumas das principais estrelas de “Dias de um Futuro Esquecido” - Hugh Jackman, sir Partrick Stewart, James McAvoy, Michael Fassbender, Ellen Page, Peter Dinklage -, nega as acusações com veemência. Seu advogado produziu uma declaração por escrito imediatamente após a primeira intimação: “As alegações feitas conta Bryan Singer não têm mérito algum. Estamos confiantes de que provaremos sua inocência neste processo absurdo e difamatório. É óbvio que esta ação judicial foi protocolada com o objetivo de exploração publicitária às vésperas do lançamento do novo filme de Bryan”.

A Fox, responsável pela distribuição do filme, soltou, por sua vez, uma nota informando que “se tratam de alegações sérias, que serão resolvidas no fórum apropriado. Este é um assunto de âmbito pessoal que Singer e seus associados estão tratando separadamente (do filme)”.

Singer foi indicado quatro vezes seguidas ao Emmy pela produção-executiva da série televisiva “Dr.House”, e para os principais prêmios dos cinemas britânico e francês por seu primeiro filme, “Os Suspeitos”, em 1996, até hoje seu trabalho mais bem-recebido pela critica, com Oscar de melhor ator para Kevin Spacey.  O diretor já está escalado pelo estúdio para dirigir o sexto tomo da franquia X-Men (excluídos os dois spin-offs centrados no personagem Wolverine), “Apocalipse”, do qual também é co-produtor, com estreia prevista para 2016. “Dias de um Futuro Esquecido”, cujas primeiras apresentações para a imprensa foram recebidas com seguidos elogios, chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 22.

Nos bastidores das entrevistas com o elenco, assessores de imprensa se mostravam ao mesmo tempo felizes em poder trabalhar um produto que parece agradar igualmente a fãs e críticos e indignados com a ausência de Singer, nas ações de divulgação que tinham tudo para ser a consagração do diretor que provou e aprovou a fórmula de sucesso mais nítida de Hollywood nas últimas duas décadas: a associação com gigantes do mundo dos quadrinhos, notadamente a Marvel (comprada pela Disney em 2009 por US$ 4 bilhões) e a DC (unidade da Warner Bros.), cujos direitos autorais dos muitos personagens criados desde o período do entre-guerras no século passado já pertencem ao establshiment; e o investimento pesado em tecnologia e no convencimento de roteiristas e atores de primeiro time de que o universo paralelo dos gibis oferecia o material ideal para a resposta do cinema americano ao processo de infantilização do grande público, especialmente o masculino, detectado por consultores de marketing nas duas costas da maior economia do planeta.

"Dias de Um Futuro Esquecido" funciona como sequência dos dois filmes mais recentes da franquia, tanto "X-Men: Primeira Classe" e "X-Men; o Confronto Final", unindo, em uma trama centrada e uma viagem do tempo de um futuro não muito distante para os anos 70, personagens dos dois filmes. O objetivo dos heróis - e de semi-vilões como o Magneto de sir Ian McKellen e Michael Fassbender - é mudar um fato histórico no passado com o objetivo de evitar uma guerra entre humanos e mutantes, resultando no extermínjo destes últimos"

A partir desta semana as estrelas de “Dias de um Futuro Esquecido” encararão uma maratona de lançamentos mundo afora: Londres na segunda-feira, Moscou na terça, Singapura na quarta, São Paulo na quinta e Melbourne, Austrália, na sexta. “Este é o maior dos ‘X-Men’ e contará com o maior evento publicitário que jamais produzimos, algo como uma experiência de fato global”, disse o vice-presidente executivo de marketing internacional da Fox, Kieran Breen, à revista especializada “Hollywood Repórter”. Bryan Singer, no entanto, ficará em Los Angeles. Em outra nota, anunciou que não queria desviar o foco da atenção do público do filme (para a disputa judicial).

Jeff Herman: se diz instrumento para dar voz às vítimas da exploração sexual de menores em Hollywood

“Hollywood tem um problema com a exploração sexual de crianças. Este é o primeiro de muitos casos que irei defender nos próximos anos com o objetivo tanto de dar voz a estas vítimas quanto de aumentar a exposição ao tema”, disse o advogado Jeff Herman, ao anunciar publicamente a ação civil legal iniciada no Havaí por seu cliente Michael F. Egan III contra o diretor de “Os Suspeitos” no dia 16 de abril. Hoje com 31 anos e vivendo no estado de Nevada, Egan reuniu jornalistas em Los Angeles e afirmou que durante dois anos foi como “um pedaço de carne”, usado sexualmente seguidamente por um grupo de executivos de Hollywood que “me estupraram em uma mesma mansão em Los Angeles e em festas no Havaí”.

Fartos cabelos pretos, a pele queimada pelo sol de primavera do oeste americano, porte atlético, Egan afirmou que foi violentado sexualmente por Synger dos 15 aos 17 anos. E que ele e sua mãe denunciaram a policiais de Los Angeles e oficiais do FBI em 2003 os crimes – ele também diz que foi espancado e forçado a usar cocaína –, sem qualquer resultado. Na coletiva, a mãe de Egan, Bonnie Mound, aos prantos, citou os nomes de vários agentes do FBI, denunciando o ‘silêncio’ das autoridades. “Os senhores vieram à minha casa, entrevistaram o meu filho, receberam meus telefonemas e minhas cartas. O que os senhores fizeram? Por que nos ignoraram?”.

Depois de deixar de lado o alcoolismo – está sóbrio há um ano - e investir em terapia pós-traumática, Egan diz que entendeu ser “um sobrevivente do abuso sexual a menores de idade” e decidiu procurar Herman, um advogado especializado na defesa de vítimas de violência sexual, para confrontar seus algozes. Além de Singer, são por ele acusados o veterano executivo da TV Garth Ancier, o ex-executivo da Disney David Neuman e o produtor Gary Goddard, diretor de “Mestres do Universo”, com Dolph Lundgreen como o He-Man. Os quatro eram investidores da Digital Entertainment Network (DEN), empresa pioneira em tecnologia de vídeo para a internet que teve seu auge e débâcle durante a bolha da internet, notabilizada por sua sede, uma mansão no bairro de Encino, e pelas festas lá dadas pelos seus idealizadores, Marc Collins-Rector, Chad Shackley e o ex-ator-mirim Brad Pierce.

Há exatos 14 anos, os três foram acusados – e condenados por um júri no estado de Nova Jérsei - pelo mesmo Egan, ao lado de outros quatro jovens, de terem sido aliciados com a promessa de uma carreira em Hollywood para serem drogados e abusados sexualmente nas festas da mansão de Encino. Singer nunca foi mencionado no processo, que terminou com a fuga dos três dos EUA e a decisão da Justiça de ordenar pagamento de indenização de US$ 4,5 milhões às vitimas. Os jovens afirmam terem sido forçados a consumir seguidamente remédios de tarja preta, inclusive rufinol, conhecido popularmente como ‘a droga do estupro’. Uma das histórias mais chocantes era a de um dos jovens, Daniel, que teria deixado um bilhete de suicídio afirmando “não poder agüentar mais ser usado como um brinquedo sexual”. A nota teria sido encontrada antes de o rapaz se matar.

Singer teria se aproximado da DEN logo após o lançamento de “O Aprendiz”, com Brad Renfro, baseado na história de Stephen King, interessado em propor um filme de super-herói para ser desenvolvido em parceria com a empresa. Dois anos antes de levar à tela “X-Men: o Filme”, Singer era um dos poucos a acreditar na ressurreição de um gênero aparentemente fadado a adaptações mais kitsch do que provocativas.

O advogado do diretor afirmou à “Hollywood Reporter” acreditar que o objetivo de Jeff Herman não é “resolver o caso em seus méritos”, mas “garantir seus 15 minutos de fama”. Até a primeira semana de maio, Singer sequer havia recebido uma intimação oficial referente à acusação de Egan. O advogado da Flórida, no entanto, já havia dado uma entrevista exclusiva ao site jornalístico “Daily Beast” afirmando que uma de suas principais motivações para defender possíveis vítimas de abuso sexual era sua própria história pessoal. Sua irmã mais velha teria sido abusada sexualmente pelo avô dos dois. Pouco antes da revelação, Herman apareceu, no dia 4 de maio, com nova denúncia contra Singer, desta vez a de um jovem britânico que preferiu manter sua identidade anônima. “Não queremos fazer acordo. Queremos proteger crianças no futuro e jogar luz neste problema, trazê-lo para o foro público”, disse Herman.

A nova suposta vítima diz ter sido abordada por Goddard pela internet, quando tinha 14 anos. O diretor de “Mestres do Universo” teria dito que ele era bonito e poderia ter uma bela carreira em Hollywood, com a ajuda de amigos próximos como Singer. A história segue com o envio de imagens e vídeos do adolescente nu e se masturbando e um encontro com Singer, na premiére de “Superman: o Retorno” em Londres, em 2006, em uma suíte de hotel, quando os dois diretores teriam estuprado o então adolescente de 17 anos. Apesar da lei britânica considerar 16 anos como a idade mínima para sexo consensual entre duas pessoas, além da acusação de estupro há a de se ‘viajar para o exterior com o objetivo explícito de se relacionar sexualmente com um menor de idade de acordo com as leis norte-americanas’. Os advogados de Singer negam ‘veementemente’ a segunda acusação. A primeira foi estrategicamente deflagrada no Havaí por ser o único estado em que casos de abuso sexual a menores podem ser revisitados até o limite de 31 anos de idade da vítima. Nos demais, os crimes são prescritos anteriormente. Daí a importância de os acusados repetirem jamais terem estado no Havaí nas datas apontadas pelos acusadores.

Casos de abuso sexual a menores não são exatamente uma novidade em Hollywood. No ano passado, o ator Corey Feldman, famoso por filmes como “Gremlins” e “Os Goonies” denunciou em sua auto-biografia – sem dar nomes e sobrenomes por medo de ‘enfrentar sozinho altos executivos do cinema” – ter sido violentado sexualmente, ao lado do também ator-mirim Corey Haim (1971-2010), conhecido pelo Lucas de “A Inocência do Primeiro Amor” e parceiro de Feldman nos hit dos anos 80 “Sem Licença para Dirigir”. No mais recente Festival de Cinema de Torono, Kevin Kline encarnou Erroll Flynn em seus últimos dias, em “The Last of Robin Hood”, marcados pela acusação de exploração sexual de menores de idade. Charlie Chaplin foi seguidamente criticado por sua predileção por meninas como parceiras.

O que impressiona na novela Singer é o tamanho da cruzada iniciada pelo advogado da Flórida contra o que acredita ser uma prática corrente em Hollywood, o aparente desleixo das autoridades americanas – em resposta a uma reportagem da “Hollywood Repórter” o FBI informou que “a suposição de que ignoramos evidência relacionada ao abuso sexual de um menor é completamente sem mérito” – e o momento eleito para se fazer o que os acusadores dizem ser justiça: o do coroamento do sub-gênero cinematográfico dedicado, em última instância, ao imaginário de fãs que regulam em idade com as supostas vítimas da casa de horrores de Encino.

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