Cultura

Múltipla Joyce

Em ‘Brasileiras Canções’, a cantora e compositora registra um Brasil devastado e vai além do “eu feminino”

Estrada. O novo álbum é o 46° da consistente carreira de Joyce Moreno e mistura samba, choro e valsa, temperados pelo toque jazzístico do violão e da voz da intérprete - Imagem: Leo Aversa
Estrada. O novo álbum é o 46° da consistente carreira de Joyce Moreno e mistura samba, choro e valsa, temperados pelo toque jazzístico do violão e da voz da intérprete - Imagem: Leo Aversa
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Joyce Moreno é “pá-pum”. Desde 1976, quando lançou ­Passarinho Urbano, a cantora, compositora e violonista carioca registra seus discos praticamente como se estivesse em uma apresentação ao vivo. Quer, dessa forma, evitar a frieza dos estúdios de gravação. “O clima fica mais caloroso”, diz.

Brasileiras Canções, 42º álbum de sua carreira, gravado no Rio de Janeiro entre março e abril deste ano, chega na sexta-feira 5 às plataformas. A pressa, no seu caso, não é inimiga da perfeição. Nas 12 faixas, a artista explora gêneros como samba, choro e valsa, temperados pelo toque jazzístico de seu violão e de sua voz suave. É o segundo produto de fôlego de Joyce nos últimos dois anos. Em 2020, ela lançou Aquelas Coisas Todas, livro onde fazia uma retrospectiva de carreira e trazia um Brasil poético e – por que não dizer? – possível.

O novo álbum tem como cenário, no entanto, um país devastado pela crise e pela pandemia. “A nossa geração acreditava no Darcy Ribeiro e na Era de Aquarius”, afirma. O processo de composição das faixas que chegam agora ao público teve início nos primeiros meses de pandemia. Não é de surpreender que algumas das letras falem do período turbulento atravessado pelo Brasil.

É o caso de A Palavra Exata, na qual ela faz referência à “bala de prata” – que, como diz na conversa, “mata o vampiro”. No choro A Morte É Uma Invenção, com a participação de Moacyr Luz, a compositora trata da morte.  “Por que não falar de morte, visto que presenciamos a morte de pessoas queridas? Queria falar dela como se ela fosse vista do alto”, explica.

Quando se interessou pela música, nos anos 1960, Joyce, que em 2007 adotou o sobrenome do marido, o baterista Tutty Moreno, escolheu o violão como companheiro de palco. “A Bossa Nova estava em plena efervescência e havia outras cantoras violonistas – Nara Leão e Wanda Sá, por exemplo”. Apesar de fazer parte da geração da Bossa Nova, ela sempre se diferenciou por ter um estilo mais balançado e vigoroso, classificado como hard bossa, e por conversar com outras “escolas”, como a do Clube da Esquina. No início dos anos 1980, caiu no gosto popular quando Feminina e ­Clareana, canções do álbum ­Feminina (1980), entraram na programação das rádios. Instrumentista de dedos cheios, chegou a substituir o violonista Toquinho em apresentações nos anos 1990 e foi descoberta pelos DJs ingleses. A canção instrumental Aldeia de Ogum ganhou remixes para as pistas e, a partir de então, a cantora passou a ser reverenciada não apenas pelos fãs de MPB, mas também por acólitos da música eletrônica.

Provavelmente, não por mera coincidência, Brasileiras Canções traz outro compositor do período da Bossa Nova redescoberto pelos DJs britânicos: Marcos Valle. Ele assina a delicada Nas Voltas do Tempo. “Mandei a melodia e ela se encantou. Criou então uma introdução para a música que eu tinha composto. Joyce só me dá satisfação”, diz Valle. Joyce conta que sua principal influência para a faixa foi Dorival Caymmi.

O violonista Chico Pinheiro, sobre a parceira: “Ela tem uma generosidade e uma inteligência ímpares”

Uma das particularidades de Joyce são as letras escritas no “eu feminino”, desde quando isso era pouco ­usual. A canção Me Disseram (1967) trazia o verso “me disseram que meu homem não me ama”. Ao ser apresentada em um festival de música, causou escândalo. O público implicou com o termo “meu homem”. “Nunca perguntei, nunca pedi licença para colocar isso nas minhas letras porque sempre foi algo natural”, explica. “Falei do ponto de vista da mulher, da jovem e da velha que sou”, ironiza ela, que foi gravada por artistas do quilate de Maria Bethânia, Elis Regina, Elizeth Cardoso e Gal Costa.

Em Brasileiras Canções, curiosamente, a composição onde o “eu feminino” foi escrita por um homem, o poeta português Tiago Torres da Silva. Eu sou o que bem quiser/ Eu sou tantas e não esqueço/ Que ser eu e meu avesso/ É o que me torna mulher dizem os versos de Tantas Vidas, que traz Mônica Salmaso como convidada. “Não quero ser obrigada pelo resto da vida a falar do eu feminino”, diz Joyce, agora que o esse “eu” se multiplicou.

O violonista e guitarrista Chico ­Pinheiro, que participa da faixa instrumental Não Deu Certo (Mas Foi ­Divertido), aponta outra qualidade de Joyce Moreno: a de band leader. “Ela tem uma generosidade e uma inteligência ímpares e nos dá liberdade na hora de criar, uma característica dos grandes jazzistas.”

Alfredo Del-Penho, parceiro de composições e de instrumentos, também destaca a liberdade criativa da cantora. Na década passada, os dois se uniram no projeto Pequenos Notáveis, que repassava a trajetória dos grandes nomes da música brasileira – e era exibido no canal da MultiRio e na TV Bandeirantes. “Para escolher o repertório, nos encontrávamos na casa dela, e passávamos a tarde tocando tudo o que conhecíamos do repertório do artista escolhido. Impressionavam o conhecimento e a cultura dela”, diz Del-Penho.

Ao lançamento de Brasileiras ­Canções se seguirá um disco ao lado do maestro alemão Claus Ogerman (produtor de Amoroso, de João Gilberto, e de vários discos de Tom Jobim), que sairá pelo selo inglês Far Out. Gravado na década de 1970, o trabalho estava desde então engavetado por problemas contratuais. Após a morte de Ogerman, em 2016, tiveram início longas conversações. Se nem tudo na vida de Joyce é na base do “pá-pum”, tudo é feito para durar. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1220 DE CARTACAPITAL, EM 10 DE AGOSTO DE 2022.

Sergio Martins

Sergio Martins
Jornalista, diretor musical e curador artístico

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