Mestres do maracatu fazem lives e campanhas para ajudar os folgazões

Na capital da festa popular de Pernambuco, nova geração vê carnaval ameaçado

Por conta da pandemia, eventos tradicionais de maracatu foram cancelados. Foto: Héliia Scheppa/Fotos Públicas

Por conta da pandemia, eventos tradicionais de maracatu foram cancelados. Foto: Héliia Scheppa/Fotos Públicas

Cultura

Mestres Bi e Mestre Anderson Miguel são muito considerados em Nazaré da Mata, em Pernambuco. Eles fazem parte da nova geração que comandam nações de maracatu rural ou maracatu de baque solto na capital de uma das mais importantes manifestações populares do Nordeste.

Bi comanda o Estrela Brilhante e Anderson Miguel, o Águia Misteriosa. Atrás desses grupos vão os foliões ou folgazões, formados por pessoas de diferentes classes sociais. 

Cada nação dessa chega a reunir até 150 folgazões, espalhados nas diversas divisões do grupo, incluindo terno (percussão), orquestra (instrumentos de sopro), mestre (canta a poesia), porta-bandeira, burra, mateu, catita, calunga, lampiões, arreamar, caboclos e yabás (baianas). 

Caboclos e yabás

“O maracatu é uma brincadeira sofrida. O Estrela Brilhante tem 130 componentes. Tem desde empresários a gente que não tem nada”, conta Mestre Bi. As classes mais baixas de uma nação em geral desfilam como caboclos e yabás.

Pois nessas duas alas que estão pessoas que Bi tenta ajudar na pandemia do novo coronavírus. Uma live, com apoio de um site de notícias da região da Mata Norte em Pernambuco, foi organizada por Bi com a presença de vários outros mestres, como o renomado Barachinha, para arrecadar alimentos a estes folgazões. 

Nesta sua primeira live conseguiu-se arrecadar mais de 40 cestas básicas, ou feiras básicas como é conhecido por lá, para doação a famílias necessitadas nesses tempos difíceis.

A live do Mestre Anderson Miguel realizada num domingo conseguiu levantar quase 1,5 toneladas de alimentos. O cantor também circula pelos gêneros do forró e sertanejo e chegou a ir em outras cidades para cantar nas redes sociais.

“A situação na Mata Norte é bem complicada. A gente mapeou e viu que algumas pessoas estavam precisando”, conta Mestre Bi. 

“Não tem só o pessoal do maracatu, mas aqueles que trabalham no canavial”, cita Mestre Anderson. “De uma semana para cá começamos a perder amigos e as pessoas começaram a enxergar agora que o vírus é perigoso”. 

O plano deles é continuar outras lives para arrecadar mais alimentos às comunidades de Nazaré da Mata. 

Por causa da pandemia é possível que não tenha nem carnaval ano que vem, prevê Mestre Bi. A quarentena já atingiu os festejos na Páscoa, quando o maracatu faz uma confraternização entre seus folgazões. 

“A gente tem medo de até quando isso vai durar, de investir e lá na frente não ter carnaval”, diz Mestre Anderson.

Esse ano não está tendo editais e festivais, oportunidades de as nações de maracatu fazerem apresentações ao longo do ano em diferentes lugares e levantar dinheiro para montar o carnaval. Até as sambadas pé-de-parede, onde dois maracatus se encontram e os mestres se ‘duelam’ em versos até o amanhecer, atraindo grande público, estão suspensas.

Nazaré da Mata é o berço do maracatu. Há 18 nações em atividade hoje, mas já teve 24, tanto na cidade quanto na zona rural.

Existe maracatu só de mulheres, outro de crianças. O Cambinda Brasileira de Engenho Cumbe, onde Mestre Anderson teve sua iniciação no meio, tem mais de 100 anos. As apresentações das nações são tradicionais tanto no interior como no Recife durante o carnaval. 

Ciranda

O Dia da Ciranda, em 10 de maio, também não teve festa, como sempre ocorre. Compostos muitas vezes por pessoas que também tocam no maracatu, embora o ritmo e métrica sejam outra, e sem improviso, os cirandeiros são muito presentes nas festas juninas e de santos no interior pernambucano.

Por conta da pandemia, no entanto, está tudo cancelado. Mestre Bi explica que esses eventos são fontes de renda de muitos músicos. 

Bi espera a pós-pandemia passar pelo menos para gravar o seu terceiro álbum, com ciranda, coco, maracatu entre outros ritmos.

Mestre Anderson Miguel já lançou um trabalho de ciranda, três de maracatu e um com produção do cantor e compositor pernambucano Siba. Após a pandemia pretende gravar novo álbum com seu grupo de ciranda.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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