Cultura

Crônica do Villas

Melhor é impossível

por Alberto Villas publicado 05/09/2013 11h36, última modificação 05/09/2013 11h44
Tudo está nas ruas. Das coisas mais simples às coisas mais intrigantes, como um sanduíche de pão quente e queijo frio

Estava encostado no balcão de vidro da Confeitaria e Lanchonete Ipanema, rua Visconde de Pirajá, esquina de Joana Angélica, esperando minha Fanta gelada quando ele encostou também no balcão, bem pertinho de mim.

Não tinha observado atentamente aquele homem de uns 70 anos até que a garçonete vestida de azul e amarelo e rendinha preta na cabeça se aproximou e ele fez o pedido.

- Quero um pão com queijo. O pão quente, mas o queijo frio.

A mocinha não entendeu direito o pedido quando o seu colega ao lado, também vestido de azul e amarelo e bonezinho na cabeça veio socorrê-la.

- Para o Seu Jorge, o pão você esquenta bem mas o queijo Minas é frio.

A mocinha fez um certo ar de espanto mas entendeu, espanto talvez por nunca ter visto um pedido como esse, o pão quente e o queijo frio.

Minha Fanta chegou, quase congelada. Estiquei o braço em busca do canudinho que estava bem em frente aquele senhor ali parado esperando o que pedira. Foi logo depois da primeira chupada, que comecei a observá-lo melhor.

Sapatos empoeirados, meias pretas, calça cinza, camisa marrom, cinto grosso, óculos antigos, cabelos grisalhos. Um tipo comum que passaria desapercebido naquela lanchonete não fosse eu ter ouvido ele pedir o tal sanduíche de pão quente com queijo frio. Enquanto o pedido não chegava, ele colocou em cima do balcão uma pasta de plástico vermelha pequena e cheia de papéis. Antes tomou o cuidado de passar um guardanapo no vidro quente e engordurado do balcão para não sujar a pasta.

E eu continuava tomando minha Fanta, com um olho observando detalhes da lanchonete e com o outro espiando Seu Jorge. Ele abriu a pasta e tirou um documento com muitos selos e carimbos, provavelmente de algum cartório ali por perto. Olhou frente e verso daquele papel e guardou novamente. A lanchonete estava concorrida. Ali, ninguém estava ligando muito pro colesterol. O luminoso que toma conta de toda a parede do fundo anunciava hot dogs, sanduíches especiais, doces, biscoitos, bolos, risoles, coxinhas, quibes, empadinhas, salgados em geral. Tinha também vitaminas, sucos e refrescos anunciados no luminoso amarelo como se não fosse tudo mais ou menos a mesma coisa.

Bem em cima da vitrine onde estavam os risoles de camarão - soube que eram de camarão porque uma mocinha chegou bem perto deles e perguntou pro balconista, apontando: “É de camarão?” - tinha uma folha de papel A4 colada anunciando em inglês para os turistas menos avisados: Pay Cashier First. Isso eu e Jorge já tínhamos feito, pagamos antes e pegamos o papelzinho no caixa, no meu escrito que era uma Fanta e no dele um sanduíche de queijo. A mocinha quando confirmou que eram mesmo de camarão os risoles, foi direto ao caixa.

Enfim chegou o pedido dele. Num pratinho branco, lá estava o pão quente saindo fumaça e dentro, o queijo frio, com jeito de gelado mesmo. Seu Jorge pegou o pratinho com as mãos firmes, colocou no balcão ao lado da pasta vermelha, pegou um guardanapo e abriu o pão, creio eu para certificar-se de que o queijo estava mesmo frio porque certamente era a primeira vez que aquela garçonete o servia.

Para meu espanto, ele tirou a primeira fatia de queijo e colocou no prato, a segunda e uma terceira bem pequena. E começou a comer o pão quente e puro. Fiquei observando ele comendo com gosto aquele pão e o queijo ali no prato. Foi até o fim. Pegou um outro guardanapo, limpou a boca, passou a mão na pasta vermelha e foi-se embora. O queijo ficou ali, frio e inteirinho, sem ser provado sequer.

Quando cheguei em casa e contei o caso, a Paula comentou:

- Essa história lembra o filme Melhor é Impossível, com Jack Nicholson.

Não me lembro de ter visto Melhor é Impossível. Quero ver. Mas hoje, aqui em Ipanema, vi um outro filme, um curta-metragem sem produtor, sem diretor, sem financiamento, sem cartaz, apenas com um tal de Jorge no papel principal.

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