Cultura

De Portugal

Maravilhoso Reino, o nosso

por Eduarda Freitas — publicado 03/08/2010 11h15, última modificação 03/08/2010 11h26
"Se a vida fosse matemática, estaria hoje a caminho do Brasil. E regressaria dentro de um mês, com saudades do que ainda não conheço"

Se a vida fosse matemática, estaria hoje a caminho do Brasil. E regressaria dentro de um mês, com saudades do que ainda não conheço, com afectos e abraços desse lado do oceano. Dei a volta aos cálculos, subtraí percursos, limitei-me ao ilimitado. Uma viagem cá dentro, pelo interior das mãos, entre palavras. Curitiba e São Paulo são moradas com o selo do futuro. Se a vida fosse matemática, hoje estaria agarrada ao azul do céu, a pensar que cá baixo tudo é muito pequenino, e por isso, tão grande. Tão imensamente grande. À última da hora, mesmo antes de clicar na entrada de um destino que me parecia certo, desisti. Peguei nos livros e fiz a mais pequena de todas as viagens de férias: 20 minutos de casa. Gostava de vos fazer sentir a Serra do Marão. É grande e forte, capaz de abraçar mas também de repreender. Capaz de nos dar sombra à hora do sol quente e de nos proteger dos ventos e da neve que a visitam   nos dias de inverno. Parece o colo das mães. É nesta serra que estou. Esforço-me por ser jornalista, e como profissional que sou, talvez devesse descrever-vos a latitude, o índice demográfico, as espécies de arvores e o grau de desenvolvimento ou não desta pequena aldeia onde poiso. Dizer-vos que há muitos velhos e poucos novos. Que esses, os novos, estão pela França, talvez, Espanha, Suíça... Mas eu não quero ser jornalista. Vim para aqui porque me apetece ser entre palavras o que sou nos dias. Vim para aqui abraçada a um sacos de livros cujo autor passou pelo Brasil. Aos 15 anos, Miguel Torga, nessa altura ainda Adolfo Correia da Rocha, emigrou para o Brasil, para trabalhar na fazenda dos tios. Foi em 1919. De café pouco percebia e o tio apercebendo-se do que tinha em mãos, patrocinou-lhe os estudos, em Leopoldina. Haveria de regressar a Portugal e fazer-se médico em Coimbra. Escritor, poeta, não precisou fazer-se. Já o era. Sempre o foi. Torga nasceu numa aldeia pequenina perto de Vila Real, cidade onde vivo. Inspirou-se toda a vida num Negrilho, ou melhor, no Negrilho, “o maior de todos os poetas”, como dizia. A velha árvore da aldeia morreu com o escritor. Miguel Torga escreveu como ninguém esta serra e estas gentes. Pôs em letras os sentidos. Em letras afirmou aos mil ventos que este norte de Portugal é um Reino Maravilhoso e que sempre houve e haverá reinos maravilhosos, “o que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.” Nesta aldeia há uma senhora com 88 anos que bebe litro e meio de água pela manhã, “para ter saúde”, um senhor que coze pão no forno e toca concertina à porta de casa. Há uma figueira no jardim onde estou e de onde tirei dois figos para a sobremesa, ainda há pouco. Há três oliveiras cheias de vida, um piano meio rouco, uma generosidade que não tem preço e uma vontade enorme de ficar entregue ao espaçamento das letras. Com tempo. Com olhos.